terça-feira, 19 de novembro de 2013

Carta a um filho que emigrou

Não sei, meu filho, como te vai correr a vida, agora que foste à procura de emprego fora de Portugal. Nem a dos teus amigos que estão no Brasil, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, China, Angola, Moçambique.
Sei somente que a tua geração se preparou, esforçou, estudou, trabalhou arduamente para ter um futuro diferente deste.
Sei também que houve gerações antes de vossa que lutaram, sofreram, morreram para que este país fosse diferente e que não mais os seus cidadãos tivessem de emigrar para poderem ganhar a vida condignamente.
Sim, eu sei que a tua geração está muito mais bem preparada e é muito mais cosmopolita do que aquelas que emigraram nas décadas anteriores. O mundo para vocês não é algo desconhecido e que atemoriza.
E sei que há muita gente que defende que esta emigração é excelente, porque vos coloca perante outras realidades profissionais, vos permite criar uma rede internacional de contactos e vos possibilita experiências que vos tornarão não só melhores especialistas nas vossas áreas como cidadãos do mundo.
Contudo, todos nós deveríamos ter o direito de viver no país onde nascemos.
Emigrar por vontade e decisão é uma coisa, emigrar por necessidade e obrigação é outra muito diferente.
Mas foi aqui que chegámos de novo: um país que não consegue criar empregos para os seus melhores ou que lhes oferece 700 euros por mês, que forma investigadores e cientistas em catadupa, mas que depois não lhes proporciona emprego nas empresas nacionais, que investe fortemente através dos seus impostos na formação altamente qualificada dos seus jovens e depois os deixa partir sem pestanejar para colocarem os seus conhecimentos ao serviço de outros países.
Sei ainda mais.
Sei que vocês não deixam cá mulher (ou marido) e filhos. Vão constituir família nos países para onde foram obrigados a partir, ter filhos por aí, criar raízes noutras latitudes e com outras nacionalidades, o que tornará o regresso bastante mais difícil.
Além disso, com a situação económica e etária que o país vive, este vai lenta e melancolicamente afundar-se com uma população de pobres, velhos e doentes, o que obviamente não atrai nem a energia nem a alegria dos jovens, nem o desejo de voltarem a viver por cá. Vocês voltarão algumas vezes pelas férias, mas a vossa vida será definitivamente nos países que vos acolheram e recompensam condignamente o vosso trabalho. Vocês continuarão ligados a Portugal e vão até valorizar tudo o de bom que existe neste país, esquecendo a mediocridade, a inveja, a avidez, a corrupção, a luxúria, as desigualdades, a burocracia, a incompetência, o desrespeito por reformados, doentes e desempregados. Tentarão saber notícias pela net, ler livros em português, ver algum jogo de futebol nos computadores, enfim, sentirão vontade de estar mais ou menos a par do que por cá se vai passando.

Mas pouco a pouco a distância, as exigências profissionais, os compromissos familiares vão sobrepor-se e vocês ir-se-ão distanciando do país e integrando cada vez mais noutras realidades, perante a indiferença da classe política e o incentivo do primeiro-ministro, que desconhece que um país que perde os seus melhores só pode ter um futuro sombrio à espera.

Parafraseando Jorge de Sena, que foi obrigado a exilar-se e sempre sentiu enorme raiva por isso...não sei que mundo será o teu...mas é possível, porque tudo é possível...que seja aquele que desejo para ti...

Mas queria que fosses tu a escolhê-lo e não que te obrigassem a emigrar.


E isso dói.
A ti, a mim, à tua família, aos teus amigos.
 E devia doer, e muito, ao teu país.

Nicolau Santos – Expresso - 30 de Setembro de 2013



 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

...faz uma lista...

 
 
 
 

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?



domingo, 28 de abril de 2013

ÁFRICA - O BERÇO DA PAIXÃO


E agora?
Agora é limpar as lágrimas, engolir em seco, aguentar a frustração e esperar que o tempo passe…
Não dizem que ele é um bom aliado para os males do coração?!
Mas...
O pior é conseguir fazer parar o pensamento!
Como se faz isso?!
Dá-se umas cabeçadas na parede,abana-se o cérebro e tudo se esquece?
Se assim fosse…
Todos os desencantamentos amorosos se resolviam facilmente
Sente-se um aperto no peito, o coração oprimido, a alma em frangalhos
E dói dilaceradamente…
Dói sobretudo a renuncia, a certeza de que não se pode voltar atrás, nem no tempo, nem nas palavras…
Juntam-se todos os pedacinhos de cada recordação e reconstitui-se a história:
Recua-se algumas décadas, mais de três, quase quatro…
Tenta-se reunir, na lembrança cada acontecimento vivido naquela época
São momentos únicos de pura nostalgia, puro deslumbramento de uma vivencia feliz numa terra colorida, com os seus cheiros e costumes tão peculiares e tão distantes no tempo e nos quilómetros...
Quem dera poder retroceder
E começar de novo...
Aquele rostinho moreno de menino na flor da idade
 
E ela...
Uma menininha meiga e tímida…
O sol quente, tão quente como só África tem…
O farfalhar das folhas das palmeiras
O caminhar naquele chão de terra vermelha
O murmurar das águas calmas e mornas
A brisa da baía trazendo o cheiro a maresia
Hummm…
Respira-se fundo
Enche-se o peito de ar
E principalmente de alegria de viver
 
De sonhos cor-de-rosa
De uma paixão desmedida pela vida
De amor…
Amor puro de adolescente!
O brotar de um sentimento novo
É assim que a vida tem valor…
O calcorrear as vegetações á beira da baía á procura dos batráquios que se levam para a aula de ciências, onde são dissecados e estudados
A professora é um fenómeno de ideias inovadoras
E as aulas…
Sempre de uma animação impar
Os olhares que se trocam
O toque simples e inesperado das mãos…
O bater apressado do coração
Um tempo tão curto!
Mas ao mesmo tempo…
Um tempo tão preenchido
Que jamais se esquece…
Principalmente porque:
Ele deixou-lhe uma pequena lembrança
Aquela foto...
Que ela guarda anos a fio com especial carinho e sem saber porquê!
Os tempos mudam
E as redes sociais fazem milagres!!
Uma ideia surge...
Porque não procura-lo no FB?!
Basta escrever o nome e um simples clique
E...
Ei-lo!
A primeira impressão:
Meu Deus
Não pode ser...
Nem parece ele!
Mas depois de examinar bem algumas fotos
É ele…
Sem sombra de duvida
É ele!!
Aquele momento nada significa
Assim como não significam os meses seguintes em que se troca uma ou outra palavra…
Ele lembra-se!!
Vivem em países distantes, com vidas tão opostas e com 5 horas de fuso horário diferente, que raramente se conseguem encontrar na net, para uma breve troca de palavras…
Porém…
O destino,
Só pode ser o destino que apronta e desapronta, que começa e termina historias que nunca passarão disso mesmo!!
“Oi boneca…
Estou no Panamá, dentro do avião á espera que descole a caminho de NYC
Se deixares de me lêr
É porque o avião levantou voo”
São minutos esfusiantes, carregados de sentimentos contraditórios, recordações…
A partir daí, começa a troca de emails, as chamadas telefónicas…
A promessa e um reencontro…
E só se vive para isso!
Que se dane todo o resto
Mas…
As mentalidades chocam
Por vezes existem palavras e atitudes
Contraditórias
Incompreensíveis
Que agridem
Magoam
Ferem…
A distância impede o diálogo
Surge o caus
O inconformismo
A insegurança
As cobrança
O desentendimento
O afastamento...
Depois vem a ressaca
O arrependimento...
Ela devia ter sido mais tolerante
Mais paciente
Menos impulsiva
Menos vingativa
Mas não...
Deitou tudo a perder
E agora?!
Que fazer?
nada!!

Dói, dói, dói...
Mas nada do que ela possa fazer ou dizer,remediará alguma coisa!
Pois...ele diz que nada nunca mais mudará nada
É o afastamento total, radical, determinado...
Resta a dura realidade de que faça o que fizer, diga o que disser, ele não voltará a dirigir-lhe a palavra
Uma certeza porém, que teima em não querer aceitar...
Era uma história inacabada e que apenas voltou para por termo a algo que tinha ficado mal resolvido no passado
As histórias reais são assim...
Nem todas terminam bem
E, esta foi apenas mais uma
Mas a esperança, essa... só os anos que estão por vir, a fará esmorecer!

M. C.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

...o que nos devia unir...


…”Nas últimas semanas que passou em Lourenço Marques, Inácio Ribeiro comprou todas as ferramentas que conseguiu. Depois dos acontecimentos de 7 de Setembro de 1974, sabia que não poderia ficar muito mais tempo em Moçambique e recusava-se a deixar lá as poupanças que amealhara à custa de uma vida de trabalho como torneiro mecânico e das rendas de um prédio que construíra na Rua de Portalegre, no bairro da Malhangalene.
 
Levantava dez mil escudos por semana – o máximo permitido – e guardava o dinheiro num cofre escondido debaixo de dois azulejos com fundo falso junto à banheira em vez de o entregar aos cuidados do Consulado de Portugal como fizeram muitos portugueses. Depois de constituir uma reserva, estudou a melhor maneira de levar consigo mais do que os cinco mil escudos regulamentares. Como as notas não lhe valeriam de nada , converteu o dinheiro em objetos para enviar por via marítima e vender na metrópole.
 
O investimento era arriscado porque a Frelimo considerava sabotagem económica retirar de Moçambique automóveis, motos e uma série de outros bens. Se o mandassem abrir os caixotes, teria sarilhos, mas ou arriscava ou ficava sem nada. Disfarçou as cargas proibidas o melhor que pôde: desmantelou uma moto Suzuki vermelha nova e escondeu as peças num contentor; encaixou um faqueiro de prata dentro da porta de um Alfa Romeo Sud pago à última hora e encheu o depósito de combustível com moedas de vinte escudos.

“Descobri que eram feitas de uma liga de prata e trouxe as que consegui. Não andei a vendê-las na rua, mas houve uma casa de penhores que as comprou ao quilo.” Com o resto do dinheiro adquiriu cinquenta caixas de folha de serrote e várias ferramentas de elevada qualidade que dissimulou no meio das mobílias. Deu-se ao trabalho  de desparafusar  a placa de isolamento da porta do frigorifico para esconder os títulos de propriedade do prédio da Rua de Portalegre, na esperança de um dia poder provar que era o dono do imóvel.

Estava preparado para despachar tudo por via marítima e enfrentar as consequências se fosse descoberto quando um conhecido lhe perguntou:



“Senhor Inácio, quer que não abram os seus caixotes?”

O homem explicou-lhe que, por uns trocos, alguns elementos da Frelimo estavam dispostos a fechar os olhos ao que saía do país. E Inácio, como muitos milhares de portugueses a quem foi dada essa oportunidade, nem hesitou.
Cada um transportou o que pôde: na maioria dos casos, carros, motos, algumas mobílias e objetos de estimação. Mas quem tinha jóias ou diamantes fez os possíveis por os levar consigo, sabendo que teriam sempre valor em caso de necessidade…”

 

“Na década de 1970, este era um cenário comum em Portugal, sobretudo nos meios rurais. Em todo o país, apenas 29% das casas tinham, em simultâneo, água canalizada, eletricidade, banheira e retrete; em Lisboa o valor subia para 51%, mas, em Bragança, não passava dos 8%, ficando a maioria das habitações privadas destas condições básicas. No Alentejo, a situação não era muito diferente.”…



In “Os que vieram de África” de Rita Garcia


...quando pedi uma Coca-Cola disseram-me que não havia...
…para os que vieram de África tudo isto significava um atraso que os surpreendeu e criou outro desanimo em relação ao futuro que os esperava…no entanto, considero que o que nos une não é só a saudade da terra que nos viu nascer e crescer…não é só a saudade do contacto estreito, direto e até diário com a natureza esplendorosa…não é só os laços de amizade e fraternidade…o que nos une é também o desprezo com que fomos recebidos nesta terra que diziam ser a nossa Pátria…o que nos une é a forma como fomos violentados…o que nos une é, ainda, a sigla desprezível com que nos marcaram para toda a vida...retornados…eu que nem aqui nasci e cresci…eu que ainda hoje leio no meu cadastro fiscal a informação de Nacionalidade: NÃO PORTUGUÊS.
…para que a nossa memória não seja curta…é tudo isto que nos devia unir…

 

João Neves



 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Os nossos amigos ainda são os de África...




Entre os que vieram de África, há amarguras por resolver.
Nunca perdoaram aos vários Governos o facto do Estado não os ter compensado pelos bens que deixaram em África.
Entre 1976 e 1980, deram entrada no Instituto para a Cooperação Económica (futuro Instituto da Cooperação Portuguesa) quarenta e seis mil pedidos de compensação por perda de imóveis, depósitos e outros pertences abandonados no ultramar.
Essa mágoa é apenas um dos factores que os une.
Hoje, milhares de portugueses que vieram de África alimentam a nostalgia em páginas do Facebook, sites e blogues dedicados às lembranças de outrora.
 É lá que partilham fotografias e histórias, procuram pessoas a quem perderam rasto, marcam almoços anuais para reencontrarem velhos amigos e trazerem o ultramar à Europa.
Separadas as dificuldades do inicio, os “retornados” afirmaram-se no mercado de trabalho nacional e é quase unânime que o seu espírito empreendedor imprimiu um novo dinamismo à economia portuguesa.
Mas para Victor Cerqueira  há uma adaptação que continua por se cumprir.
“Os nossos amigos ainda são os de África, o nosso círculo é o mesmo – o que quer dizer que a integração emocional não ficou completa”.

In “Os que vieram de África” de Rita Garcia.

segunda-feira, 25 de março de 2013

As tradições dos Macuas


As tradições dos Macuas
Por: ALBERTO VIEGAS

Os Macuas - povo da floresta - são uma tribo de origem banta. Em tempos habitavam na zona dos Grandes Lagos (República Democrática do Congo). Depois deslocaram-se em direcção ao sul da África. Actualmente são o grupo étnico mais numeroso de Moçambique. Eles são um povo caracterizado pela sua inclinação natural para o sorriso, que se traduz muitas vezes em sonoras e prolongadas gargalhadas.

Para a tribo Macua, o sorriso é um sinal de amizade e de que se pode criar uma boa relação. Quando chega alguém que não conhecem, sorriem-lhe na mesma. Deste modo, ele saberá que não tem nada a temer.
Os macuas recorrem também ao sorriso para apagar as ofensas. O ofendido, por sua vez, espera que aquele que o ofendeu lhe retribua outro sorriso para demonstrar que não queria ferir-lhe o coração. Basta um sorriso e acontecerá a reconciliação.
 
Há, porém, momentos em que os macuas não riem nunca: perante uma pessoa com deficiências mentais, um idoso ou durante uma celebração solene.
A hospitalidade é outro valor muito importante para a tribo macua. Por mais pobres que sejam, todas as famílias possuem sempre uma habitação reservada para os hóspedes, os parentes, os amigos ou os peregrinos e partilham com eles tudo quanto têm, a ponto de oferecer ao recém-chegado a própria cama, onde eles dormiram nessa noite.
Quando um desconhecido chama à porta da cabana, se tem saúde, os donos da casa perguntam-lhe onde vivem os seus parentes. Mas se é um doente, não lhe fazem qualquer pergunta. Acolhem-no sempre.
Se a família está a tomar uma refeição, o hóspede não pode recusar-se a tomar assento e comer com eles, tomando o alimento do prato de onde se servem todos, o qual está colocado ao centro. Se, porventura, o hóspede recusa, isto é uma grave ofensa para a família que o acolhe. Mesmo que não tenha apetite, deve lavar as mãos, comer do que a mulher cozinhou e voltar a lavar as mãos.

A saudação entre as pessoas é feita quase que ao modo de um ritual. Quando saúdam um chefe ou cujo cargo obriga a uma consideração particular, fazem-no de modo humilde e respeitoso. Se se aproximam de frente, acompanham as palavras de saudação com um rítmico bater das mãos.
 
Aquele que encontra um grupo de pessoas reunidas, sempre que alguém do grupo se aproxima para o saudar, pousa primeiro no chão, a uma certa distância, tudo o que leva na mão. Saúdam-se sempre com a mão direita, a mão forte, mostrando claramente que não guarda nada contra ele. O saudado não tem nada a temer.
Se a saudação for feita com a mão esquerda, considerada a mão débil e inofensiva, pode sugerir que na outra mão há um punhal. O melhor é usar sempre as duas mãos, infundindo deste modo maior confiança e tranquilidade.
 
Os anciãos recebem uma grande veneração entre os macuas. Ninguém dirige a palavra a um ancião estando de pé. Este sentir-se-ia ofendido. Pelo contrário, aquele que lhe fala senta-se ou põe-se de cócoras.
Nas refeições, o primeiro a lavar as mãos, na única bacia que passa por todos, é o ancião. Também é ele que se serve primeiro dos alimentos e que dá início à refeição. Ao ancião, compete ainda ser o primeiro a terminar a refeição. Todos os outros, mesmo que não tenham apetite, devem continuar a comer. O ancião merece todo o respeito.
No dia-a-dia, quando um jovem está sentado numa cadeira, numa pedra ou no chão, mas num lugar mais elevado, quando passa um ancião terá que descer e, pelo menos, pôr-se de cócoras.
Um valor muito importante entre os macuas é a solidariedade. Unem-se solidariamente de modo particular face à doença. Quando numa família alguém adoece, todos os vizinhos se sentem obrigados a fazer-lhe uma visita, de manhã cedo ou à tardinha. E ninguém vai de mãos vazias, mas com comida, água, lenha...
Se o doente piora, o chefe da família vizinha e outros adultos dormem junto à casa, velando no aprisco e sempre prontos para prestar uma ajuda quando for preciso.
No caso de morte, a solidariedade aumenta. Há quem se ofereça para ir avisar os parentes que vivem mais longe. Outro cava a sepultura. Outro ainda encarrega-se de arranjar o lençol para envolver o defunto. Entretanto, já se reuniram as pessoas que lavarão o corpo. As mulheres vão buscar a água e preparam a comida para todos os presentes.
 
Depois do funeral, os parentes e vizinhos passam três noites consecutivas na casa da família enlutada. Ao quarto dia, varre-se a casa e limpa-se o pátio. Passado um mês de luto, corta-se o cabelo à viúva e aos outros membros da família e os hóspedes regressam às suas casas.

 
 
 
 
 

sábado, 16 de março de 2013

Joana Simeão...e o 7 de Abril...em Moçambique...


...à procura da verdade...um simples contributo para a história...em homenagem a todos aqueles que sofreram na carne...a todos os que perderam a vida por...um País mais livre, justo e fraterno...


"Aos alunos…Dra Joana Simeão.
Dei hoje a minha demissão.
Chegou a hora do adeus.
Passámos juntos horas de franca camaradagem, misturadas de momentos de guerra fria , sem dúvida.
Agradeço-vos estes momentos de vivência profunda.
A hora é grave.
Eu estou a 100% no combate por um Moçambique Livre, Justo e Fraterno.
Notas (escolares): Serão justas. Ninguém ficará lesado.

Abraços Joana Simeão"




A Mulher é a guardiã  da espiritualidade humana.
É a matriz da vida.
É a personificação da grande Deusa.
É a que acolhe, cria e desenvolve os processos de vida.
É a perfeição mais perfeita e completa do Universo.
Contudo, todos estes atributos podem não passar de poesia quando olhamos para o passado e presente da mulher no nosso país.
Esta reflexão vem a propósito de mais um 7 de Abril, dia consagrada pela Frelimo como sendo o dia da mulher moçambicana.
Em Moçambique, na fase pós-independência, a constituição da primeira República estabeleceu direitos iguais para homens e mulheres. Não obstante este facto, a situação da mulher em Moçambique continua a ser influenciada predominantemente pela tradição e pelas atitudes e estruturas do passado. A falta de capacidade de gerência para o melhoramento das receitas e da segurança alimentar das famílias; a persistente divisão do trabalho na base do género; o analfabetismo, o HIV/SIDA e a mortalidade materno infantil têm constituído obstáculos para a participacao da mulher em novos empreendimentos e na vida pública. Os dados oficiais apontam que Moçambique tem mais de 19,889 milhões de habitantes (2006). Mesmo considerando a existência de alguns centros urbanos relevantes como Maputo, Beira e Nampula, a maior parte da população vive nas áreas rurais, distante das principais vias de comunicação. E, para o “agrado” do “género masculino”, a maioria de cidadãos é constituída por mulheres.
Sendo a maioria de cidadãos residentes em áreas rurais, não deixa de ser conveniente, oportuno e urgente apelar que se reforce o olhar para o empoleiramento da mulher a partir do própria zona rural. É um exercício difícil se feito a partir do ponto em que me encontro (cidade capital e zona privilegiada dessa cidade). O que me importa afirmar nesta data consagrada a mulher em Moçambique é que chega de discursos prenhes de maquiavelismos, com alguns a acumularem privilégios pessoais nas cidades em nome da mulher rural. Na verdade, o que se assiste é uma grande exclusão deste grupo de mulheres na gestão e solução dos seus próprios problemas, quer à nível local, nacional e internacional. Penso que é tempo da mulher rural ocupar o seu espaço, na qualidade de legítima porta-voz dos seus problemas, e não permitir que o seu espaço continue a ser usurpado por mulheres que nada têm a haver com a sua realidade. E pode-se tomar como exemplo o que existe noutros quadrantes. Os governos da Índia, China, Bangladesh, Brasil e alguns países da América Latina são pioneiros na promoção da mulheres rurais, criando-lhes condições para a sua participação directa nos fóruns regionais, internacionais e outros, como forma de as estimular na área especifica em que estão inseridas, pois entende-se que a zona rural é a base de desenvolvimento dos subdesenvolvidos.

No nosso país, infelizmente, as coisas estão invertidas. Os grupos que participam nestas cimeiras importantes de desenvolvimento ao nível mundial são constituídos por senhoras residentes em capitais provinciais, senão mesmo apenas na cidade capital do país (Maputo), preterindo-se a mulher rural que sofre na carne a “dor” de ser mulher numa sociedade em que a tradição dá privilegio ao homem.
A mulher moçambicana, como em outros países do continente africano, participou na luta de libertação nacional, assumindo tarefas femininas e outras directamente relacionadas com a actividade militar. A maioria das guerrilheiras não tiveram uma evolução notória no panorama político e social moçambicano. Com a excepção de Graça Machel (que pouco se sabe o quanto se embrenhou pela matas de Cabo Delgado e Niassa a procura da independência), nenhuma das guerrilheiras que lutaram lado-a-lado com homens naqueles tempos dificeis atingiu, após a luta de libertação, um lugar de destaque no panorama político do país. Quanto muito, ocuparam alguns cargos de direcção (femininas, entenda-se) e de subalternidade na ex-Assembleia Popular durante a vigência do sistema mono partidário. Isto visava apenas emprestar certa credibilidade ao consagrado na constituição. Tal como jamais se admitiu uma mulher chefe de família, as mulheres na era samoriana mantiveram-se da mesma forma submissas ao homem.
Na esteira do actual debate de quem deve ser considerado herói nacional, comemora-se hoje o 7 de Abril dia morte de Josina Machel, considerada Heroína pelo partido Frelimo dentro de um específico contexto Histórico.
O que se sabe e que se lê sobre Josina Machel é que foi esposa de Samora Machel; que foi uma das mulheres que “revolucionou” o papel da mulher na luta de libertação nacional. É dito também que foi uma das fundadoras da OMM e que morre vítima de doença a 7 de Abril 1971. Não se conhece discurso político nenhum desta “heroína”, para além de algumas pessoas que com ela privaram afirmarem que não passava de uma pessoa como outra qualquer, que teve apenas a “sorte” de ser a esposa do então líder.
Nesta data de 7 de Abril, o que pretendemos e o que questionamos é a heroicidade de Josina. O que diferenciou Josina de outras mulheres combatentes naquela altura que também participaram na luta pela independência? O que fez dela uma mulher especial e que as outras não fizeram? Infelizmente, até hoje, ainda não existem estudos que nos mostrem uma grande diferença entre esta senhora e outras que também deram suas vidas heroicamente. Mas em Moçambique existem exemplos de mulheres de fibra. O exemplo da Dra. Joana Simeão pode se considerar um caso ímpar se visto com “olhos de ver” nos dias de hoje. Por conveniências políticas (neste país de todos nós), pouco se sabe sobre a trajectória dessa senhora, senão que foi reaccionária e traidora. Contudo, os poucos registos que existem ilustram que em 1974/1975 em Moçambique estava-se perante uma mulher de fibra, de facto, que na sua época havia ultrapassado algumas barreiras.
 


Com efeito, mulher moçambicana da etnia macua, Joana Simeão foi uma das poucas académicas de raça negra que se notabilizou nos anos 60 antes da independência nacional. Assassinada pela Frelimo por possuir uma visão política social diferente, se analisadas hoje os seus depoimentos televisivos e escritos, podemos chegar a conclusão de que se não lhe fosse tirada a vida seria uma grande mulher e, quiça, fonte de inspiração de muitas jovens, imediatamente após a conquista da independência. E, escusado é dizer o quão era necessário para as moçambicanas (na época) uma fonte de inspiração viva. Penso que Joana, muito teria contribuído para esta democracia nascida pela via do sangue e violência. De certa forma, embora alguns círculos ligados ao poder político em Moçambique comprometam-na com o regime salazarista (o que nunca se comprovou, documental ou detalhadamente), para todos os efeitos, Joana Simeão foi um caso excepcional da emancipação da mulher moçambicana. Contra toda a regra consuetudinária, foi a primeira mulher de Moçambique a bater-se, ombro à ombro, com homens na matéria de governação de um estado soberano. Na época, nenhuma mulher de raça negra, para não dizer de qualquer outra raça em Moçambique, foi tão longe quanto ela. Era uma mulher esclarecida que, não se comparando a muitas que viriam a ser cooptadas à heroínas por conveniências políticas, se pôs a brandir a sua valentia de não submissão cega. Tinha uma arma, o saber, que em 1975 teria sido uma mais-valia para a consecução do progresso da mulher em Moçambique. E, desde já, seria interessante que os jornalistas moçambicanos, sobretudo os ligados a estações televisivas como a STV, Miramar e outras, em colaboração com RTP, retransmitissem as entrevistas dessa figura, para que no presente todos possamos ajuizar. E isto pode ser feito por via de um programa específico, de natureza política e social, visando esclarecer os que não viveram na época os sinuosos caminhos da descolonização portuguesa. Aqui – proponho – chamar-se-iam também os que lhe vilipendiaram na época (muitos ainda vivem) para apresentarem os seus argumentos e documentos da então acusação.
Quando de fala de 7 de Abril e de heróis nacionais o que se pretende não é negar a eventual heroicidade de Josina. Tal como é discutível a sua heroicidade, pretende-se, acima de tudo, que haja uma data consensual alusiva a mulher moçambicana, de modo a que todas as sensibilidades da esfera social moçambicana se sintam identificadas. E, penso que isto não é pedir demais, pois após longos anos de colonização estrangeira, a mulher rural moçambicana, enfrentou inúmeras adversidades durante a construção do Estado independente; viveu uma ditadura do proletariado imposta pela Frelimo e posteriormente a guerra civil; passou pelo processo de mudanças quer no plano económico, político e social; passou por um estado de guerra de armas num sistema de partido único, para um estado de “paz aparente” num sistema democrático parlamentar, mas continua a enfrentar a pobreza; doenças endémicas e exclusão social, pois não obstante o processo de transformações do séc. XX, acompanhado pelo grande desafio que é globalização, ou mundialização neste limiar do sec. XXI, a mulher rural de Moçambique continua sendo o estandarte em que alguns se apoiam para alcançarem privilégios nas cidades capitais. Urge pôr fim a isto, e pôr a mulher rural a frente dos seus problemas. O sonho de Joana Simeão mantêm-se vivo.

*Linette Olofsson
Deputada suplente
Circulo Eleitoral de Zambézia

 
 
 
A certidão de óbito
A nota que a seguir se transcreve, aliás, se republica, 28 anos depois, é, de per si, esclarecedora.
“No espírito das tradições, usos e costumes da luta de libertação nacional, o Comité Político Permanente da Frelimo reuniu e condenou por fuzilamento os seguintes desertores e traidores do povo e da causa nacional, os quais já foram executados: Uria Simango; Lázaro Kavandame; Júlio Razão Nilia; Joana Simeão e Paulo Gumane. Em ordem a evitar possíveis reacções negativas, nacionais ou internacionais, que podem advir em consequência do fuzilamento destes contra-revolucionários, a Comissão Política publica esta acta como decisão revolucionária do partido Frelimo e não como acta judicial”, lê-se no referido documento.
 
Assumindo ser “necessário um «dossier» estabelecendo a história criminal completa desses indivíduos, assim como as suas confissões aos elementos do D.D/S.I que os interrogaram, declaração das testemunhas, julgamento e sentença”, o Comité Político Permanente do partido Frelimo ordenou ainda que “um comunicado deverá ser emitido pelo camarada Comandante-Chefe (Samora Moisés Machel), no qual se anunciará a execução dos contra-revolucionários acima mencionados”.
No mesmo documento lê-se ainda que “foi decidido nomear um comité para compilar o dossier e preparar a comunicação pública”.
“O camarada Comandante-em-chefe decidiu que o comité fosse dirigido pelo camarada Sérgio Viera e adicionalmente terá os seguintes camaradas: Óscar Monteiro, José Júlio de Andrade, Matias Xavier e Jorge Costa.
A Luta continua. Maputo, 29/7/80.
O ministro da segurança, Jacinto Veloso”.
 
...tenho um sonho...que os meus netos um dia leiam estes escritos e sintam o quão rica foi a minha vida na minha Pátria...se bem que...se me perguntarem o que é a minha Pátria...direi...não sei...

João Neves