quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Triste África

Olhem para a cara de Jean-Pierre Bemba, o líder da oposição congolesa. Eu sempre acreditei que olhar para a cara das pessoas ajuda muito a perceber quem são. Concordo que a receita é falível: há gente com aspecto de boa pessoa e que, afinal, não é recomendável e vice-versa. E há caras que não dizem tudo, de bom ou de mau, acerca do seu portador. Mas, para quem conhece um bocadinho a África Negra e a sua classe política, a cara do sr. Bemba diz tudo ou quase tudo sobre o que há a esperar dele no dia em que conseguir chegar à presidência da República Democrática do Congo. A menos que estejamos perante uma notável excepção ao meu critério de adivinhar carácteres a partir das caras, a do sr. Bemba traz as marcas inconfundíveis da generalidade dos políticos negros africanos da última geração. Um catálogo de horrores: nepotismo, prepotência, violência, cupidez e, fatalmente, corrupção.


Agora, olhem para a cara do sr. Joseph Kabila, o seu rival e actual Presidente da RDC: a outra face da mesma moeda. O Presidente Joseph Kabila sucedeu a seu pai — coisa habitual nestas paragens —, o distinto Laurent-Desiré Kabila, cuja presidência será sobretudo recordada pela ruína do país e o estendal de cadáveres deixados para trás. Kabila-pai tinha sucedido ao imortal Mobutu Sese Zeko, uma espécie de estereótipo de ditador africano, de quem Bemba e o pai foram estreitos aliados. Dois clãs em luta pelos despojos do país, coisa comum na África Negra. Depois de vinte anos de guerras, golpes e contragolpes, o ex-Zaire e ex-Congo Belga, um dos mais ricos países africanos, está reduzido à miséria, à ineficácia e à corrupção e exposto às intromissões e cobiças do seu poderoso vizinho angolano.


Voltemos ao sr. Bemba, herdeiro de uma colossal fortuna deixada por seu pai e empresário cujos exemplos mais admirados são o marselhês Bernard Tapie e o milanês Silvio Berlusconi, dois príncipes da alta finança europeia que a Justiça perseguiu e condenou por toda a espécie de falcatruas possíveis no ramo. No final de 2006, Bemba regressou do exílio para fundar o MLC e concorrer às eleições. Derrotado por Kabila, gritou à fraude (o que, mais do que provavelmente, é verdade) e transformou o MLC numa milícia militar, apoiada pela Líbia e outros países africanos e acusada pela ONU de práticas de canibalismo. Em Março passado, o MLC saiu do mato e desceu às ruas de Kinshasa, tentando tomar o poder pela mais antiga das formas locais de o fazer. Derrotado também nas ruas, Bemba refugiou-se na Embaixada da África do Sul, e a situação caiu num impasse. Foi então que a diplomacia portuguesa teve uma ideia luminosa: mediar a saída negociada (e necessariamente provisória) de Bemba do país e da cena política. Aproveitar o passaporte português da mulher, uma luso-brasileira filha de um emigrante português, e dos filhos e aproveitar o facto de o sr. Bemba ser proprietário de uma casa na Quinta do Lago, no Algarve (como já sucedia com o seu ‘padrinho’ Mobutu), assim proporcionando uma saída airosa a ambas as partes. Se os esforços do embaixador Alfredo Duarte Costa tiverem sucesso, a nossa diplomacia consegue, de facto, uma lança em África: proporciona uma saída para a crise, que Kabila tem de agradecer, e fica nas boas graças do sr. Bemba, para o dia em que este, milhar de mortos a mais ou a menos, consiga enfim sentar-se no trono do Leopardo. O desfecho diplomático está iminente e apenas aguarda que Kabila resista à tentação de tentar deitar a mão ao seu rival para o cortar às postas e se decida a assinar um papel, deixando-o sair.
Como se pode imaginar, aos congoleses, à excepção dos milicianos e arregimentados de ambos os lados, tanto se lhes faz Kabila como Bemba. Quem ficar com o poder enriquecerá — ele e a sua corte; o resto da população continuará na miséria, à espera do milagre impossível do dia em que o Congo, como o resto da África Negra, seja governado por homens sérios, competentes e com vontade de servir o seu país.


Desçamos um pouco mais abaixo e a leste, onde temos o caso-limite do Zimbabwe, desse louco criminoso que é Robert Mugabe. Como escreveu há dias a Conferência Episcopal do Zimbabwe, ali o poder perdeu já qualquer resquício de vergonha, de pudor, de condescendência para com a miséria do povo ou de respeito pelos direitos humanos mais elementares. A oposição é espancada, presa e torturada à vista de todos, os jornalistas estrangeiros são expulsos, o desemprego atinge os 80%, e a fantástica Reforma Agrária de Mugabe, que correu com os melhores agricultores africanos, que eram os rodesianos brancos, trouxe a fome aos campos e às cidades superlotadas. No seu delírio de psicopata, Mugabe não encontrou melhor plano do que mandar o Exército desterrar da capital, Harare, centenas de milhares de pessoas que não tinham para onde ir.



Em Harare esteve há duas semanas o ministro dos Estrangeiros de Angola, que lá foi oferecer apoio militar a Mugabe e proclamar a solidariedade ‘anticolonialista’ do regime de José Eduardo dos Santos. Depois, o ministro veio a Lisboa e sentou-se numa mesa ao lado do nosso MNE, Luís Amado. Perguntaram a Amado se, perante a situação no Zimbabwe e o isolamento a que o regime foi votado pela União Europeia, ele ponderava a possibilidade de não convidar Mugabe para a Cimeira Europa-África, prevista para a presidência portuguesa da UE. O MNE deve ter estremecido, antes de responder convictamente que não: imaginar que Portugal pudesse comprometer aquilo que está previsto ser o «achievement» da nossa presidência, arriscando-se a que os países africanos boicotassem a Cimeira por ‘solidariedade anticolonialista’ com o Zimbabwe, é simplesmente antipatriótico. Seria o mesmo que convidar o Governo português, por exemplo, a perguntar a Luanda para onde vão as receitas do petróleo angolano que não entram no Orçamento do Estado.
‘Provocações’ dessas não se fazem aos africanos. Eles são muito sensíveis às intromissões ‘colonialistas’ dos brancos nos seus assuntos: em especial se forem europeus e, pior ainda, antigas potências coloniais em África. Eles não se importam de ser neocolonizados pelos indianos e agora pelos chineses, que estão a tomar conta de África em busca de energia e terras cultiváveis. Como antes não se importavam com os negócios ruinosos feitos com russos ou americanos, desde que as ‘nomenclaturas’ locais, bem entendido, fossem devidamente recompensadas. Mas, para os europeus, as regras são muito mais duras e exigem, como ponto prévio, que só há negócios em África se se seguir estritamente a diplomacia dos interesses e jamais a dos valores. É preciso ficar muito calado, olhar para o lado, fingir que não se vê e não se sabe e, sendo possível, como fazem Portugal e França, conseguir que os seus dirigentes tenham sempre um «pied à terre» na Côte d’Azur ou no Algarve, para criarem laços de afinidade e cumplicidade connosco.


Um dia, quando se fizer a história da África desaparecida, haveremos de chegar à conclusão de que, muito pior e muito mais imperdoável do que os cinco séculos de colonialismo europeu, foram estas cinco décadas de cumplicidade com o que há de pior em África.





Miguel Sousa Tavares


Publicado em 9 de Abril de 2007 - Expresso Multimedia

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Inhamata

De tempos a tempos as lembranças assolam-me a alma, como se de um relâmpago se tratasse e revejo acontecimentos da minha África tão longínqua…na minha infância e pré adolescência!

Esta história vou narrar, porque um dia destes remexi no passado, remexi nas gavetas lá de casa (dos meus pais) e encontrei umas fotos impressionantes: meu pai a exibir um dos seus troféus de caça. Uma jibóia enorme com alguns 3 metros, morta por ele e á paulada! Lembro tão bem de ele contar esta história!
Lá para as bandas do rio ao Sul do Save, em tempos, existiam algumas povoações, relativamente próximas, o que quer dizer que distavam mais de 200 quilómetros umas das outras, mas em África isso significa que é “ali”.



“INHAMATA”era o acampamento habitado pelos meus pais, já que meu pai era sócio de uma firma sediada em Lourenço Marques, mas era inevitável a permanência dele em acampamentos pelo mato, onde procurava e tratava as madeiras exóticas, que depois eram exportadas…
Eu apenas ali passava as férias e por isso vagas lembranças tenho de “INHAMATA”, mas recordo uma casa grande, toda ela de madeira, mas não era uma madeira qualquer, era daquelas madeiras que duram vidas, com uma enorme escadaria na parte frontal e outra igual nas traseiras!
Tinha um pormenor muito importante: era assente em estacas, tipo “palafitas” e isso provocava-me muitos pontos de interrogação, pois o mais certo seria uma casa assim ser construída numa lagoa, mas ali!! Num terreno tão seco e vegetativo? Mas claro que isso tinha uma explicação e que o meu pai me dava mas que não encaixava cá dentro muito bem: É que em época de muita chuva, formava-se á volta do acampamento uma enorme lagoa, e realmente…houve uma época em que, eu não estava presente, mas minha mãe ainda hoje fala muito nisso: ela e meu pai estiveram mais de 15 dias sem poderem sair de casa!!
As lembranças mais vincadas daquela casa eram os enormes e horripilantes estalos que a madeira dava, provocando-nos sustos de morte, mas depois que nos habituávamos, convivíamos com aquilo facilmente…a explicação que o meu pai nos dava para perdermos o medo, era que a madeira estalava com o calor abrasador que se fazia sentir!
Tinha lógica…mas o que não tinha lógica era eu por vezes, no quarto onde dormia, acordar e sentir que me mexiam no cabelo, eu olhava em volta e não via ninguém! Meu pai dizia que eu era tonta e que devia estar a sonhar…


Em pleno mato e onde por vezes os alimentos tardavam em chegar, já que se começava a viver tempos conturbados por causa da guerra que vinha descendo das terras do norte, minha mãe para assegurarem o próprio sustento, improvisou um forno para cozer pão, que consistia num bidon, com fundo, deitado na horizontal e enterrado até meio na terra, fez um lastro com matópe, improvisou uma porta com a parte de cima, que ela havia pedido a alguém para cortar e assim havia sempre pão fresco em casa, carne também não faltava, uma vez que meu pai era caçador e caçava os changos e os cabritos do mato, que tinham uma carne branquinha e era saborosa…
Aos fins-de-semana juntávamo-nos com outros europeus, na “CHIRINDA” uma povoação com campo de aviação, onde aterrava todas as semanas uma avioneta com tudo o que se necessitava!


Lembro de passar temporadas na “CHIRINDA” em casa do Sr. Oliveira, onde me juntava a duas miúdas mais velhas, vindas não me lembro de onde e tínhamos o hábito de “roubar” um jipe descapotável velho que por lá existia e por entre os coqueiros e palmeiras, com manobras inexperientes que até dava vontade aos negros de taparem os olhos com as mãos quando por eles passávamos, lá seguíamos em direcção ao campo de aviação para aí darmos azo a adrenalina que provocava em nós a velocidade que o jipe conseguia nos dar, e de cabelos ao vento era uma sensação de pura liberdade! Éramos nós, a planície, o firmamento e a loucura do momento!
Existia ainda uma outra povoação, onde nunca cheguei a ir, de nome “MACHANGA”, mas lembro e muito bem da convivência que tínhamos com o administrador e família de lá e do trágico acidente de que foi vitima nas cheias do “LIMPOPO” num dos anos em que tentava socorrer as pessoas, uma das hélices do helicóptero partiu e foi direitinha ao pescoço dele decapitando-o…



Mas a história da jibóia…pois a finalidade é contar essa história, começou porque bem pertinho da casa que habitávamos na “INHAMATA”existiam uns cajueiros rodeados de robustos arbustos onde ela se refugiava, talvez para fugir ao calor. Alguém que deu com ela, comunicou ao meu pai que, destemido como era avançou com um pau pontiagudo na mão, e metendo-o por entre os arbustos com o intuito de a fazer aparecer, rapidamente ela se mostrou, de boca arreganhada e língua de fora, meu pai recuava quando ela se mostrava em posição de ataque, mas avançava e picava-a sempre que ela se propunha fugir…andou naquilo algum tempo até que resolveu largar o pau e começou a puxa-la pelo rabo, por varias vezes, não a deixando ir longe, mas as mãos escorregavam naquela pele viscosa e húmida…não achando outra alternativa, pensou que o jeito era tentar esmagar-lhe a cabeça e procurou fazer isso com o pau, mas ela parecia ler-lhe os pensamentos e escondia a cabeça…não foi fácil, mas depois de varias tentativas e decorrido, sabe-se lá quanto tempo, finalmente conseguiu apanhar-lhe a cabeça a jeito e esmagou-a, ficando assim aquele monstro aniquilado!
O que foi feito da pele?
Lembro que o meu pai a mandou curtir… não sei o fim que levou…

Depois que abandonamos definitivamente “INHAMATA”, meu pai acabou por nos contar que se dizia por aqueles sítios que a casa era assombrada e…ainda hoje estremeço ao lembrar-me daqueles estalos da madeira, dos saltos que dava na cama quando acordava com aqueles estrondos que mais pareciam trovões ribombando em cima de nós!
Num entardecer suave e ameno em que esperávamos calmamente sentados na escadaria das traseiras da casa, pela noite que se avizinhava, uma enorme e negra ave, saiu alvoraçada de entre as nossas pernas e sumiu-se no horizonte…meu pai atirou para o ar um “figas diabo” e nós atónitos apenas nos interrogámos com os olhos e comentamos no momento, que raio teria sido aquilo?! mas rapidamente deixamos de falar no assunto como se de uma coisa natural se tivesse tratado, mas não! de natural aquilo não teve nada!

E África era toda esta simplicidade, toda esta liberdade, todos estes perigos e mistérios…

Vivia-se uma vida tão simples...tão pacífica...tão calma...tão desprovida de luxos...e éramos tão felizes!
Mas que magia tinha aquele mundo que apesar dos pesares nos deixou a todos que por lá passamos tantas saudades?
…por isso eu por vezes digo:


África não se explica! África sente-se…


Nos mil e um ruídos que ecoam na noite…nas trovoadas tropicais que parecem autênticos dilúvios de água morna e nos fazem crer que o mundo vai desabar…no som dos tambores das batucadas ao longe pela noite a dentro…no clarão das queimadas sumido no horizonte…no coaxar das rãs nos machongos…nas corujas que vêem de encontro ao pára-brisas encandeadas pelas luzes dos faróis quando se viaja de noite pelas picadas intermináveis…no cheiro da terra molhada de que tanto se fala, mas só cheirando se consegue ter uma verdadeira noção…na convivência com as osgas que coabitam as nossas casas e nos parece normal…longos tules brancos pendentes do tecto para nos proteger dos mosquitos enquanto dormimos…no cheiro da formiga cadáver quando esmagada…tudo isso é África…


África é muito mais ainda… é régulo, é marimbas, é capim, cacimbo, embondeiro, é lagoas enormes que asseguram a sobrevivência das feras em plena selva, é planícies a perder de vista, é florestas tão densas que nem um raio de sol consegue penetrar e ir beijar o chão, no entanto as plantas crescem verdes, viçosas e nos oferecem os seus cheiros típicos e o seu oxigénio puro, é onde o céu é mais azul e o sol brilha mais, é coqueiro, jambalau, sura, praias desertas de sonho, de águas calmas, mornas e cheias de vida marinha, lanho, machamba, mandioca, matapa, capulana, machibombo, marula, um amanhecer esplendoroso, o por do sol mais lindo que alguma vez vi…

África…Moçambique… o nosso paraíso perdido, está lá!

Continua lá…apesar de nos parecer tãooo longeee…está apenas a 10 horas de distância!
E pensem que: querer é poder, por isso n desistam de realizar o vosso sonho...
Eu voltei… contra tudo e contra todos, voltei…fui reviver, por poucos dias, o meu sonho africano, e fui tão feliz!


Maria  Vieira

sexta-feira, 17 de junho de 2011

JUVENTUDE INCONSEQUENTE

Acabava de chegar…

Desolação, tristeza, lágrimas de raiva e frustração eram as minhas companheiras...
Dias intermináveis em que deixava o desanimo tomar conta de mim e na velha lareira da minha humilde casinha que me acolheu na aldeia, o tempo passava por mim e eu, sem me dar conta, de tão abstraída estar da realidade, nada fazia…apenas deixava passar o tempo com os olhos presos á lenha que crepitava na lareira.
Dias e dias de intenso inverno que em Março ainda se fazia sentir, que no fundo já eram mais amenos mas, para mim, o inverno tinha começado mal eu metera os pés fora do avião naquele inicio de Março de 76...
Meu Deus…como eu ainda choro ao recordar!!
Até para nos aquecermos nas longas noites de gelo, as peles dos animais que o meu pai tinha trazido para cá como troféus das suas proezas como caçador em África, eram as nossas mantas!
Muito a custo despertei e segui em frente, pois apercebi-me que era o mínimo que podia fazer por mim, e com a morte na alma comecei a aceitar as coisas e as pessoas que me rodeavam

Todos os dias percorria 2km a pé debaixo de chuva, gelo, vento, por estrada barrenta que nunca tinha visto alcatrão, para ir apanhar o autocarro que me levava á cidade onde era o liceu.
Foi muito dura a adaptação, mas com a convivência dos colegas, começava a integrar-me.
No entanto sentia-me, interiormente, tão carente, tão desesperada, que se não arranjasse algo forte que me ocupasse os pensamentos e me ajudasse a construir castelos de sonhos, me desmoronava completamente.
E…
Foi quando reparei em alguém, na sala de convívio do liceu…
De estatura mediana, tinha um jeito característico de ser que encantava quem o rodeava
Sempre cercado de miúdas que eram como moscas á sua volta e ele sempre distribuindo sorrisos, piscadelas de olho, beijos e abraços, sem quê nem porquê…
Que olhos!!
Verdes como enormes lagoas de águas cristalinas e superficiais, salpicadas de nenúfares amarelos.
Boca carnuda que quando se abria num sorriso, nos obrigava a sorrir também
Aquela voz melodiosa com sotaque francês, ficava gravada na nossa lembrança desde o primeiro instante
Aquele jeito de andar meio gingão que eu comparava a um bailarino sempre a ensaiar os passos da próxima dança
Ah! e aquela samarra quentinha com gola de pele de raposa que ele usava e que as miúdas faziam questão de experimentar…
Inicialmente, achei-o tão infantil, tão metediço, tão vaidoso, que num primeiro impulso senti desprezo e jamais seria uma das que esvoaçavam á volta dele.
Mas o destino quis que ele usasse o mesmo autocarro que eu, e rapidamente, reparou em mim
Nem queria acreditar quando um dia em que voltávamos para casa, ao entardecer, depois de um dia de aulas, ao entrar no autocarro, fez-me sinal para me sentar junto dele e nos dias seguintes sempre a mesma coisa, e oferecia-me a samarra emprestada para eu não ter frio durante os 2km que ainda iria percorrer a pé, já que a paragem dele era mesmo ali…mas não, nunca vesti aquela samarra!!
Logo pela manhã todos os dias era brindada pelo sorriso e o bom dia de hálito fresco, com cheiro a pasta de dentes, e como eu já gostava daquilo!!!

A vida foi-se tornando mais bela
Fui sonhando acordada..
Já tinha um mundo só meu!
O dia a dia tornava-se menos duro
O sol começava a brilhar de novo
E…
Eu já não via mais nada á frente!…
Como ignorar aquela atenção que me dispensava sistematicamente?!
Quando aparecia na sala de convívio com um bolo que comprara para mim, quando me dizia” se não vais ter aula agora, eu fico contigo para não ficares sozinha”, mesmo quando estávamos em grupos de amigos distintos, havia sempre, mesmo de longe, um acenar de mão, aquele jeito tão peculiar nele de inclinar a cabeça e sorrir…
Havia como que uma cumplicidade grandiosa entre nós que jamais soube explicar.
Fiz meus, os amigos dele, para mais perto dele me encontrar.
As festas que organizava em sua casa, os piqueniques que fazíamos, aquele anexo da casa, que lhe foi cedido pelos pais para juntar os amigos e que fomos decorando todos juntos, com luzes psicadélicas, almofadões pelo chão, uma lareira sempre acesa no Inverno, passou a ser quase a razão do meu viver.
Tinha encontrado uma forma de me enraizar naquele novo mundo quase pré-histórico que me acolheu, mas com o passar do tempo as coisas foram mudando um pouco, pois perdida de paixão, mas ainda com uma nesga de raciocínio fui percebendo o quanto algumas coisas estavam a mudar.
Eu sabia que era apenas uma amiga, mas amigos não passam horas de mão dada numa discoteca, não andam pelas ruas de mão dada, nem tão pouco trocam um beijo, o meu primeiro beijo, que se existe sétimo Céu, então eu fui ao sétimo Céu, senti-me flutuar acima da realidade, o mundo parou naquele momento e ouvi campainhas, não sei vindas de onde, ouvi cânticos celestiais descendo por um arco-íris de cores inebriantes, foi o meu momento supremo de êxtase …
Foi, depois desse beijo, o marco que separou a menina da mulher que eu já era e ainda não tinha percebido.


Depois, tudo mudou.
Ele mudou…

Tinha o Céu e o Inferno a contra-pesarem e ao mesmo tempo a destruírem todos os sonhos que eu construíra sem bases, sem alicerces, apenas assentes no meu querer. O Céu quando era merecedora das suas atenções, o Inferno quando parecia que nem me via e ele passou a ser assim: Tão depressa largava tudo e todos para estar comigo, como passava por mim, fazia “olhinhos” e de seguida era como se não me conhecesse, como se eu não existisse e, eu sentia-me morrer aos poucos!
Todo este sentimento que me dilacerava o coração e com todos os dissabores da minha vida, eu sentia que uma terrível depressão ia tomando conta do meu ser.
Ela veio, instalou-se e quase me destruiu, quase enlouqueci…
Não vou relatar, nem sequer vou tentar tirar do meu esquecimento tudo o que se seguiu, pois foi tão mau, tão terrível que jurei a mim própria jamais recordar…
Fugi…
Tinha que fugir.
Se queria encontrar-me novamente, tinha que ir para bem longe, ainda que todo o meu ser me dissesse “fica” a pouca razão que ainda me restava dizia “vai”…
Passava largas temporadas fora, mas quando voltava, sentia que me abeirava de novo do abismo, pois em qualquer esquina da cidade deparava com ele, sempre cordial, sorridente, cheio de novidades, novos amigos, novas namoradas…
E, eu fugia de novo, não dele, mas de mim própria, do que ainda sentia…
Com tudo isto passaram-se quantos anos?!! Cinco…seis?!!
Já nem sabia!
Já não era aquela menina sonhadora, aprendera á custa de tantos “pontapés”que os sonhos se sumiam como a água que escorre por entre os dedos e desaparece na terra seca e árida
Deparei-me com uma nova mulher, os meus princípios de menina certinha, pudica, coerente, responsável, deram lugar a uma pessoa seca, rude, agreste e um pouco irresponsável, que tanto se lhe dava ir para a esquerda, como para a direita!
Voltei decidida a conquistar o meu quinhão de felicidade junto dele, ainda que, por pouco tempo! Que importava se ele não me amava! eu amava pelos dois! E que importava se eu seria mais uma que lhe passava pelas mãos?!!
Não admitia que nada nem ninguém interpelasse os meus pensamentos e me dissesse ou fizesse ver o quanto eu estava errada!
Já sabia nessa altura que os caminhos que ele trilhava o estavam a levar por um caminho que possivelmente não teria retorno, mas que me importava isso?
Foi assim que tempos mais tarde me vi num café da cidade esperando por ele, para seguirmos juntos uma estrada que para mim já se adivinhava ladeada de flores coloridas tal se sentia o meu coração


Ah juventude!
Quanta vontade de saciar aquele sentimento que me consumia…
Hoje, quando os pensamentos se atropelam e a saudade me invade, rabisco os meus caderninhos onde sempre escrevia as pequenas vitorias e grandes derrotas daquele tempo, deparei-me com estes versos que um dia escrevi…

Dia 24 de Agosto de 1983

Fiquei esperando no Café Jardim
Ouvi o telefone tocar
Não esperava que fosse para mim
Ao ouvir tua voz
Meu coração estremeceu
Disseste: -espera por mim!
Vou mais tarde, pois algo aconteceu.
Não quis saber que algo foi
Pois eu já estava maravilhada
Só de pensar que iríamos percorrer
Juntos aquela estrada
Nervosa e impaciente
Eu fumava um cigarro
A todo o momento eu esperava
Ver surgir o teu branco carro
Que intermináveis me pareceram os minutos
Em que esperei por ti
Mas mais longos foram os anos
Em que pensando em ti sofri
Finalmente tu surgiste
Calças pretas, camisa cor do mar
Dirigiste-te para mim
Deus!!! Como vou deixar de te amar?!!
Nossos olhos se fixaram
Nossos rostos se aproximaram
Recordei aquele dia
Em que nossas bocas se juntaram
E lá seguimos no “Fiat Mirafiori”
Aquela estrada sem fim
Quem dera que fosse verdade
Pelo menos para mim!

Foram dias de intensa felicidade na praia, pesca submarina que ele fazia com os amigos que estavam connosco, enquanto alguns de nós os esperava-mos naqueles rochedos junto á praia…
Calcorreávamos as ruas repletas de gentes, turistas e veraneantes, subíamos e descíamos o elevador do Sitio até á praia sempre em espírito de camaradagem e extrema alegria. As noites sempre diferentes, discotecas, cinemas, grandes jantaradas, momentos inesquecíveis que partilhávamos todos até quando eles faziam os charros para eles, com a “erva” que eu carregava nos bolsos do meu blusão de ganga, nem sequer me passava pela cabeça o perigo que eu corria se fosse apanhada pela “bófia”…
Mas…
A dura realidade
Uma das suas me aprontou
Foi aquele amor lindo
Que repentinamente findou…
Eu Jurei a mim própria
E até uma vela a Nossa Senhora ofereci…
Nunca mais recordar
Nem chorar por ti…



Derrotada, mas consciente que me livrara de um furacão que me arrastava para o mesmo buraco negro em que ele se afundava, fui á minha vida.
Não posso dizer que foi fácil, mas resignei-me…
Quanto mais vontade tinha de me aproximar de novo, mas distancia eu me forçava a impor entre nós, pois percebia nitidamente que ele não me queria levar com ele. Numa réstia de sensatez arranjou maneira, e que maneira!...para eu me afastar de vez.


Anos mais tarde, ainda na mesma cidade deparo com ele de novo, mas minha vida já era outra, não tinha esquecido, isso nunca!! Mas sentia-me tranquila, muito feliz até com a minha nova vida. Tomamos um café juntos, falamos de nossas vidas, a dele sempre errante, ansiando por novos horizontes todos os dias… soube depois que usava sempre camisolas de mangas compridas para esconder as marcas das seringas com que injectava as drogas que lhe corriam nas veias…
Anos mais tarde ainda soube que falsificava a assinatura do pai nos chorudos cheques que levantava para comprar drogas e manter aquele antro de autenticas orgias em que se tornara a sua vida.
Depois…numa derradeira tentativa, o pai mandou-o para bem longe, para Itália, para um centro de desintoxicação e daí para França, o seu país, onde, do jeito dele organizou a vida.

Não mais o vi, mas sei que vem todos os anos de férias. Não mais me deparei com ele nas ruas da cidade, mas todos os inícios de cada Agosto de cada ano eu penso que eventualmente o poderei encontrar.
Devolvidos mais de 17/18 anos em que o vi pela última vez, por vezes ainda sonho com ele…mas nos sonhos ele está sempre tão distante, sempre inatingível!

…mas o meu despertar é sempre tão feliz, tão doce, tão sereno que se estende pelo resto do dia…
Porque será?


M.V.

domingo, 29 de maio de 2011

Irena Sendler...a Mãe das crianças do holocausto...

A Mãe das crianças do Holocausto

“A razão pela qual resgatei as crianças tem origem no meu lar, na minha infância. Fui educada na crença de que uma pessoa necessitada deve ser ajudada com o coração, sem importar a sua religião ou nacionalidade. - Irena Sendler ”

Quando a Alemanha Nazi invadiu o país em 1939, Irena era enfermeira no Departamento de bem estar social de Varsóvia, que organizava os espaços de refeição comunitários da cidade. Ali trabalhou incansavelmente para aliviar o sofrimento de milhares de pessoas, tanto judias como católicas. Graças a ela, esses locais não só proporcionavam comida para órfãos, anciãos e pobres como lhes entregavam roupas, medicamentos e dinheiro.

Em 1942, os nazis criaram um gueto em Varsóvia, e Irena, horrorizada pelas condições em que ali se sobrevivia, uniu-se ao Conselho para a Ajuda aos Judeus, Zegota. Ela mesma contou:


"Consegui, para mim e minha companheira Irena Schultz, identificações do gabinete sanitário, entre cujas tarefas estava a luta contra as doenças contagiosas. Mais tarde tive êxito ao conseguir passes para outras colaboradoras. Como os alemães invasores tinham medo de que ocorresse uma epidemia de tifo, permitiam que os polacos controlassem o recinto."

Quando Irena caminhava pelas ruas do gueto, levava uma braçadeira com a estrela de David, como sinal de solidariedade e para não chamar a atenção sobre si própria. Pôs-se rapidamente em contacto com famílias, a quem propôs levar os seus filhos para fora do gueto, mas não lhes podia dar garantias de êxito. Eram momentos extremamente difíceis, quando devia convencer os pais a que lhe entregassem os seus filhos e eles lhe perguntavam:
"Podes prometer-me que o meu filho viverá?". Disse Irena, "Que podia prometer, quando nem sequer sabia se conseguiriam sair do gueto?" A única certeza era a de que as crianças morreriam se permanecessem lá. Muitas mães e avós eram reticentes na entrega das crianças, algo absolutamente compreensível, mas que viria a se tornar fatal para elas. Algumas vezes, quando Irena ou as suas companheiras voltavam a visitar as famílias para tentar fazê-las mudar de opinião, verificavam que todos tinham sido levados para os campos da morte.


Irena Sendler em Varsóvia, 2005Ao longo de um ano e meio, até à evacuação do gueto no Verão de 1942, conseguiu resgatar mais de 2.500 crianças por várias vias: começou a recolhê-las em ambulâncias como vítimas de tifo, mas logo se valia de todo o tipo de subterfúgios que servissem para os esconder: sacos, cestos de lixo, caixas de ferramentas, carregamentos de mercadorias, sacas de batatas, caixões... nas suas mãos qualquer elemento transformava-se numa via de fuga.


Irena vivia os tempos da guerra pensando nos tempos de paz e por isso não fica satisfeita só por manter com vida as crianças. Queria que um dia pudessem recuperar os seus verdadeiros nomes, a sua identidade, as suas histórias pessoais e as suas famílias. Concebeu então um arquivo no qual registava os nomes e dados das crianças e as suas novas identidades.

Árvore plantada no Yad Vashem em homenagem a Irena Sendler

Os nazis souberam dessas actividades e em 20 de Outubro de 1943; Irena Sendler foi presa pela Gestapo e levada para a infame prisão de Pawiak onde foi brutalmente torturada. Num colchão de palha encontrou uma pequena estampa de Jesus Misericordioso com a inscrição: “Jesus, em Vós confio”, e conservou-a consigo até 1979, quando a ofereceu ao Papa João Paulo II.

 Ela, a única que sabia os nomes e moradas das famílias que albergavam crianças judias, suportou a tortura e negou-se a trair seus colaboradores ou as crianças ocultas. Quebraram-lhe os ossos dos pés e das pernas, mas não conseguiram quebrar a sua determinação.


Foi condenada à morte.


Enquanto esperava pela execução, um soldado alemão levou-a para um "interrogatório adicional". Ao sair, gritou-lhe em polaco "Corra!". No dia seguinte Irena encontrou o seu nome na lista de polacos executados. Os membros da Żegota tinham conseguido deter a execução de Irena subornando os alemães, e Irena continuou a trabalhar com uma identidade falsa.
Em 1944, durante o Levantamento de Varsóvia, colocou as suas listas em dois frascos de vidro e enterrou-os no jardim de uma vizinha para se assegurar de que chegariam às mãos indicadas se ela morresse.
Ao acabar a guerra, Irena desenterrou-os e entregou as notas ao doutor Adolfo Berman, o primeiro presidente do comité de salvação dos judeus sobreviventes.
Lamentavelmente, a maior parte das famílias das crianças tinha sido morta nos campos de extermínio nazis.

De início, as crianças que não tinham família adoptiva foram cuidadas em diferentes orfanatos e, pouco a pouco, foram enviadas para a Palestina.

As crianças só conheciam Irena pelo seu nome de código "Jolanta". Mas anos depois, quando a sua fotografia saiu num jornal depois de ser premiada pelas suas acções humanitárias durante a guerra, um homem chamou-a por telefone e disse-lhe: "Lembro-me da sua cara. Foi você quem me tirou do gueto." E assim começou a receber muitas chamadas e reconhecimentos públicos.

Em 1965, a organização Yad Vashem de Jerusalém outorgou-lhe o título de Justa entre as Nações e nomeou-a cidadã honorária de Israel.

Em Novembro de 2003 o presidente da República Aleksander Kwaśniewski, concedeu-lhe a mais alta distinção civil da Polónia: a Ordem da Águia Branca.
Irena foi acompanhada pelos seus familiares e por Elżbieta Ficowska, uma das crianças que salvou, que recordava como "a menina da colher de prata".

Proposta para o Nobel da Paz

Funeral de Irena Sendler.Irena Sendler foi apresentada como candidata para o prémio Nobel da Paz pelo Governo da Polónia. Esta iniciativa pertenceu ao presidente Lech Kaczyński e contou com o apoio oficial do Estado de Israel através do primeiro-ministro Ehud Olmert, e da Organização de Sobreviventes do Holocausto residentes em Israel.


As autoridades de Oświęcim (Auschwitz) expressaram o seu apoio a esta candidatura, já que consideraram que Irena Sendler era uma dos últimos heróis vivos da sua geração, e que tinha demonstrado uma força, uma convicção e um valor extraordinários frente a um mal de uma natureza extraordinária.


O prémio desse ano, no entanto, foi dado a Al Gore pela sua defesa do meio-ambiente.


João Neves

segunda-feira, 16 de maio de 2011

LIZETE BAESSA...Anjo de Chelas...


...O COLO GRANDE DA TIA PRETA...


 Lizete Baessa. Num blogue, após assistir a um documentário na RTP2 sobre ela, alguém lhe chamou "o anjo de Chelas". Difícil explicar o que faz: acolhe crianças, pode-se dizer. Antes, passavam o dia na rua, partiam o bairro, metiam-se em sarilhos. Com ela mudaram. Porquê, difícil dizer. Ela diz que é amor, eles dizem que seja o que for que ela fez e disse mudou tudo. Ao ponto de os fazer desejar "uma vida normalmente"

Das cinco à meia-noite, a casa enche. Qual será o segredo?

Tem cinco anos e uma colher de pau na mão. Ao princípio não fala, envergonhado, meio escondido no colo da "tia preta". Brinca com uma colher
de pau, a "sete e quinhentos". A sete e quinhentos, assim crismada, é o instrumento disciplinador da casa, mais o "banco do mocho", uma pedra grande junto à entrada onde os culpados se sentam de castigo. São a pontuação das regras - e há muitas - que estabelecem a ordem no pequeno T2 de Chelas onde, por vezes, chegam a coincidir duas dezenas de crianças e adolescentes. Hoje são menos, uns 10 (estão sempre a entrar e a sair), entre os 17 e os cinco anos.
Como ele, o da colher de pau, sem mãe desde os 15 dias. Vive com o pai, uma avó e os irmãos mais velhos mas é aqui, na casa de Lizete Baessa, a "tia preta", que passa grande parte do dia. É aqui que lancha (e lancha agora uma tijela de cereais com leite, servida pelo Niná,o mais velho do grupo, frequentador da casa há quatro anos) que janta, que vê televisão, que brinca com o puzzle que trouxe de casa. É aqui que aprende a pedir por favor e a dizer obrigado, a cumprimentar as visitas, a fazer a sua parte nas tarefas domésticas, a cumprir os deveres da escola. "Os miúdos entram em minha casa e há uma escala de serviço. Eles acatam com uma grande facilidade as minhas regras. Sabem que quando digo que não é não, sim é sim. Não há talvez. A única coisa que eles dizem é 'com a tia pode-se conversar'. E sabem que quando se portam mal os ponho de castigo. Tenho crianças que têm várias personalidades. Quando estão comigo são uma coisa, com os pais insultam os pais, batem nos pais. Tenho dos recém nascidos aos 18 anos..."
Tem crianças, diz. Chama-lhes "os meus meninos". Um destes dias, um menino de três anos que vive no mesmo prédio entrou-lhe pela casa dentro e anunciou: "Agora sou teu filho". Sorri, um sorriso encantado. "Filhos, filhos nunca tive. Já criei um miúdo que os meus sobrinhos descobriram a viver na rua, ali junto à fonte luminosa, aos 13 anos. Tinha-se zangado com a família. Trouxe-o para casa e ele ficou. Dizia que não tinha mãe." No quarto, fotos do menino agora homem casado, com a mulher, rivalizam com a espécie de altar que guarda a do pai, na entrada da casa. Pedro Baessa, o primeiro e único negro deputado na Assembleia Nacional de Salazar, um moçambicano com seis filhos dos quais Lizete foi a mais nova. "Vim para Portugal em 1967, com 14 anos. Meteram-me num colégio interno, detestei. Estava habituada à liberdade de África, a uma casa cheia de gente... Foi com os meus pais que aprendi a acolher os outros. A casa deles era um lar, era um colégio, era a pensão cá-te-quero. Cresci naquele ritmo, fiquei com aquela veia. Gosto de dar sem receber nada em troca."

 
Nada não será. Quando em Maio foi operada a um tumor no peito e ficou uma semana internada, uma senhora também do bairro que costuma ajudá-la a tomar conta dos miúdos ficou com eles esse tempo. Ou seja, iam ter a casa dela, a "tia branca", em vez de à casa da tia preta. "Não correu bem", diz Lizete. "Eles deram com ela em doida , portaram-se muito mal, e ela agora decidiu afastar-se um bocado". Consciente de que o mau comportamento dos seus meninos não seria alheio ao medo de a perder - alguns, antes da operação, desapareceram, como se recusassem enfrentar a hipótese -, conta a história com um indisfarçado enlevo, o de quem reconhece que, afinal, recebe: "Eles dão-me muito amor". O milagre, se suave, não ocorreu sem escolhos. "Esta gente tem muita falta de carinho. Ao princípio sofri um bocado porque não estavam habituados a receber atenção. As pessoas desconfiavam das minhas intenções, do que eu realmente quereria. Vieram-me pôr coisas aqui à porta: uma cabeça de galinha, pele de coelho, farinha, sal..."

O que fez? Meteu conversa com os miúdos, foi-se aproximando. E eles dela. "Via-os por aí, na rua, fazia-me confusão estarem ali todo o dia. A escola é de vez em quando. É o estragar, o partir, o tratar mal, o não sei quê. Aqui encontram calor, amor..."Más experiências? Abana a cabeça. "Às vezes temos uns arrufos. Mas eles voltam. E mudam. É tão bom vê-los mudar." Está aqui, na Flamenga, Chelas, há 14 anos. Um bairro, como se costuma dizer, "problemático". "O que é que se entende por problemático? É quando a polícia cerca o bairro porque há quem venda droga? Nos bairros ditos não problemáticos não há problemas?". Ela, diz, gosta. "Gosto, somos nós que fazemos os bairros. Em todos os sítios onde tenho passado tenho inclinação para dar um sorriso, alguma cor... Não tenho problema nenhum em dizer que vivo em Chelas. Vivo no Rock in Rio." Ri. "E as pessoas dizem: e sais à rua sem problema nenhum? As pessoas têm a ideia que se dá um passo e eles matam, se olha e eles fulminam. Mas o bairro tem coisas boas. Há sempre alguém que ajuda, que dá a mão". Também há o resto, claro: os elevadores escavacados, as portas partidas, o lixo atirado das janelas. "Eles estragam onde vivem. É uma raiva de chamar a atenção. Estragam as próprias casas e depois esperam que venha alguém arranjar."

O apartamento minúsculo mas bem cuidado é seu - comprou-o à Gebalis, a empresa municipal que gere o bairro e à qual solicitou um espaço "para as crianças, onde possa fazer o que faço aqui, com mais condições". Como não quer criar uma instituição ou sequer uma associação para o efeito, pediu a uma instituição católica da zona, a fundação Maximiliano Kolbe, para gerir os espaço - "Ficavam como entidade patronal". Mas a coisa não arranca. "Um senhor quis ajudar, patrocinar, mas como é da igreja evangélica criou-se um sururu... Tentei explicar que isto não tem nada a ver com religião, é um problema humano. Sou católica, mas que tem isso a ver?" Agora, diz, como o "bispo evangélico" traz comida e dinheiro (dar de comer a tanta criança não sai barato), os párocos começaram a trazer também dádivas. "Ainda ontem vieram trazer iogurtes, uma garrafa de óleo e trinta euros".

O "espaço" que falta é uma espécie de projecto de grupo. Niná e a Bela, os mais crescidos, até estão a fazer um curso de "educação e formação". "Entramos com o sexto e acabamos com o nono ano", explica o Niná. "E se houver o espaço podemos lá trabalhar. Experiência não nos falta." Faz um gesto largo, risonho, sobre as crianças espalhadas na sala de 12 metros quadrados, e que lhe obedecem sem discutir.


A transição entre o rés-do-chão da ex-secretária (foi a sua profissão durante anos até que a doença determinou uma baixa prolongada e a aproximou, pela permanência, das crianças do bairro)e um lugar institucional poderá não ser tão óbvio ou fácil como Lizete Baessa parece crer. Perder-se-á, decerto, o aspecto espontâneo desta obra - porque de uma obra se trata. Talvez se ganhe na dimensão: "Há muito miúdo que se perde... Mas penso que sem isto se perderiam muitos mais. Convido-os a vir, fazer esta casa como sua. Mas digo: 'não te obrigo, quando não quiseres não vens'. Eles vêm porque querem. Há calor humano, há amor. Eles não têm e os pais também não tiveram nem têm para dar. E buscam a tia preta."

Diário de Noticias – 13/Dezembro/2008
FERNANDA CÂNCIO



João Neves


quinta-feira, 28 de abril de 2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

JUMA E COSTÓDIA

                            ...uma história de amor fraterno...

Juma era um aluno negro, filho do Enfermeiro Cristóvão Januário, do Hospital da Ilha de Moçambique. Aluno do Externato Liceal Mouzinho de Albuquerque - 1969.
Custódia, uma aluna negra, interna, filha de um dos poucos Administradores de cor, natural de Moçambique e na altura colocado no Dondo - Distrito da Beira. Aluna do Colégio Nossa Senhora das Vitórias - 1972.

Lembrava-me muito bem deles, quando cheguei a Nampula a 28 de Agosto de 1992.

Depois de hospedada na casa de Hóspedes da Diocese de Nampula, recebida por D. Manuel Vieira Pinto, e pelo Governador Gamito, com quem almocei. Fui levada ao Secretário Padre Martins, estivera em tempos no colégio de S. Paulo, em Porto Amélia -1970.

E preparei o início da minha viagem e objectivos para a partida para a Ilha de Moçambique.
Procurei saber o que era feito de colegas…
Depois de olhar perdidamente para lugares que procurava identificar…só o amor e saudade podia levar á magia de repor tudo no lugar…
Saíra de Moçambique a 28 de Julho de 1976, rumo á Rússia, por fim Portugal…

Saíra de Caia… passara pelos Campos de Alfabetização da Gorongoza…

Avistar-me-ia com o Ministro Chissano e o Ministro Chipande, levava comigo, uma carta de Sua Excia Presidente Samora Machel, entregue por Dr. Sérgio Vieira e Dr. Aquino de Bragança.

…A libertação de meu marido.

…A despedida no Aeroporto do Eng.º José Carrilho.

O meu juramento a Lina Magaia, General Pachinuápa, Dra.Graça Simbine Machel…que voltaria…

Doente de mal de amor, de dor, totalmente perdida nos turbilhões de emoções mal geridas, insatisfeita, parti um dia de Macau rumo a África, com um destino: Moçambique…e lá vivi até 2001.

Ilha de Moçambique, pela manhã…nos últimos bancos…ouço a missa dada pelo Padre Lopes…
Procurei saber o que era feito de Juma e Custódia…que marcaram a minha juventude.

Era cedo no tempo, pois era momento de se negociar a Paz.

Custódia era de Sofala e por lá ficou…que seu pai tinha sido executado…outros que tinha sido morto numa emboscada…
…Tinha medo de ouvir que também ela partiu durante a guerra…

Por meses mantive-me ocupada com o trabalho…mas um dia…já decorria um ano de Paz…de volta á Ilha de Moçambique…vinda de Cabo Delgado com o meu marido… Procurei o pai de Juma, já com mais dados enviados pelo meu pai, que estava em Portugal. Fora ali conhecido como o Sr. Secretário, ou Metamira.

O pai de Juma vivia na Ponta da Ilha…já muito velho…
…As lágrimas correram no seu rosto…olhando os livros que trazia comigo…e o retrato dos estudantes nas escadas do Externato Liceal Mouzinho de Albuquerque…abraçou-me...
Juma foi ceifado numa vida de Professor Primário, colocado no Alua…teimava em ver o pai e não se esquecia dos seus alunos…Neste percurso de vai e vem, entre Nacaroa e Namapa…o autocarro que o transportava é apanhado numa emboscada e morrem todos carbonizados - 1991…perto da Missão do Alua onde era um dedicado educador…
…O pai chorava porque não tinha corpo e alma para ir chorar o seu filho…meu marido…na altura comigo…ofereceu-se para nos levar a Alua, a 400KM e procurar o lugar... Assim foi…

Naquele mato, entre machambas de mandioca e milho, restava uma carcaça de um autocarro…ali…uma grande cruz posta pela Missão…todos descansavam em paz…com ajuda do Padre Lopes e o Padre Ramon, da missão, rezou-se uma missa campal…

1995 – Maputo - Setembro, sou internada de urgência devido a um colapso total de cansaço e esgotamento.

Na clínica privada do Hospital Central de Maputo. Uma cura de sono de um mês. Tinha vivido dois anos de grandes emoções, viagens de milhares de quilómetros, querer tudo fazer, estar em todo o lado. Perdi-me na noção do tempo, das horas, o meu corpo pedia trabalho e não dormia.

Um dia a Enf. Olga Maccô, diz-me que a Médica Psiquiatra, Chefe da Clínica e Hospital de Psiquiatria de Maputo – para lá das Maotas, vinha ver-me a pedido do médico, Director do Hospital Distrital de Pemba e da Deputada Judite Maccô.
De olhos serrados vejo uma mulher negra da minha idade. Falava da chegada da Alemanha, onde fora a um congresso…pediu a minha ficha e pôs os óculos.

No quarto, foi até ao fundo e abriu as persianas, olhei para ela…"pode-me fechar isso?"…veio ao pé de mim…puxou uma cadeira, limpou-me as lágrimas, segurou a minha mão...e ouvi…"Fátima Manuela, tanto tempo." …

…Vi-a na penumbra do passado, olhos negros, de trancinhas, na nuca desenhos bem feitos como carreirinhos, no meio do mato. Ouvia gargalhadas nas escadarias das camaratas…"Custódia…hoje de cabelo "PUFF"? passa a ferro, dizia a São Pereira, como eu e aqui a Fátima Manuela"…. Ouvia ao longe como de costume, quando era carapau frito e no refeitório, acabava num jarro de água.

O teu cabelo já não é "PUFF"?...passas a ferro?...e dei comigo a rir e a chorar. Responde-me…"não Fátima Manuela, ainda te ganho em inteligência. Trato do cabelo”...

Ás gargalhadas, abri melhor os olhos e disse-lhe…"procurei por ti, já lá vão três anos, mas tinha medo que a resposta era não te ver mais. Sofala no conflito...Custódia falou-me da família, dos filhos, do que fazia, do trabalho de Hospital aberto para os doentes com depressões e sempre que podia estávamos juntas… Curou-me dos medos, deu-me muita coragem e muito amor… Mandou-me de volta aos meus filhos… que renegava por serem um travão no meu trabalho… Falou com Diogo, com Joana, com os meus pais para Portugal. No dia que parti…fui vê-la ao consultório e perguntei-lhe…”como me conheceste?”...só me respondeu…"com esses olhos, esse sorriso…nada mudaste, continua assim, vai…estarei aqui sempre que precisares…á tua espera…

Respondi… “és a pérola que seguro na mão… salvaste uma grande mulher, minha mãe, de chorar a perca de uma filha, e a minha filha a perca de uma mãe.

 Não quis despedidas, corri pelo corredor ao fundo…

Esperava-me Nuno Palmeira, marido de minha amiga Luisa Nunes Carrapichana Palmeira, que me levaria de volta a Pemba e aos meus filhos. Nuno, fora também o amigo que me internara em Maputo, e a quem vinha entregue no avião.
Quando nos voltamos a ver, deu-me força para que enfrentasse Portugal e a perca dos meus Pais.
Já em Portugal, decorria 2002, falei dos meus medos, do meu cansaço, pediu-me que me tratasse, pois tinha o Síndrome de Postura, ligada a uma depressão profunda .

Custódia…uma grande médica, que vive e dá a sua vida por um Grande País.

Um dia, uma carta no correio, devolvida, que lhe escrevi…quando parti...
“Escrever um livro é um momento muito só e muito nosso. O escrever um livro puxa por nós muitas emoções, todos nós temos dentro, queimando, a chama da santa loucura. Eu senti-me necessária e esta é uma das melhores sensações que um ser humano pode ter. As minhas emoções são cavalos selvagens.
Um dia escreverei um livro do que nos ensinou e o que nos transmitiu, a vivência dentro dos claustros, jardins, mocidades, retiros, orações ouvidas, gritos ao longe quando a noite cai… suores, odores…a vida é aquilo que fazemos dela, tem raízes ascendentes, no background da família, que o louco sempre foi incluído na linha de vida".

O telefone toca…Custódia está em Portugal…no Porto… Participa num congresso como Oradora convidada…é a Delegada da O.M.S., para a saúde mental e as depressões. Investigadora do projecto Aricepete-Boston.

…E lá estava eu, desta vez na plateia, logo na 3ªfila, em 2004,Fundação Serralves…
…Abraçamo-nos…ouvia calada as minhas palavras ditas com rapidez…não queria que o tempo acabasse…

Quando partiu…só me pediu…”…cuida de ti…ainda tens muito para dar… e agora dá-me o papel que escreveste!”…leu…e a rir…disse-me que…”era a maior…senão a melhor declaração de um louco…”

Um postal de Boston. «ESCREVE…QUE É DOS LOUCOS QUE SE LÊM MELHORES LIVROS.».



Maria Manuela Marques Pinto


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

...no interior no nosso Índico...




   ...Ana Delgado...uma macua no interior no nosso Índico...costa de Moçambique...praia das Chocas...Nacala...Pemba...





terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

...andam tristes as acácias de Nampula...

Morte em Nampula

Por: MANUEL VILAS-BOAS

São menos agora os meninos da rua em Nampula. Das centenas que eram, não restam mais do que umas escassas dezenas. Para onde foram?

Andam tristes as acácias de Nampula. Não há porta ou janela que não tenha grades. As greves fazem ecoar o descontentamento dos trabalhadores. Há silêncios na cidade e bocas caladas... Já lá vai mais de uma década sobre o fim da guerra civil e resta um país empobrecido. As crianças, esses filhos de ninguém, encheram a cidade, de quase 400 mil habitantes, a transbordar pelos bairros populares, lugares de toda a miséria.

Mas são menos agora os meninos da rua em Nampula, revela-nos a polícia. Das centenas que eram, não restam mais do que umas escassas dezenas. Para onde foram estes meninos da rua, carne para todas as mesas, pergunta-se insistentemente na capital do Norte de Moçambique, assolada, há mais de meio ano, por denúncias de rapto e tráfico de menores, de desaparecimento e assassínio de pessoas, com corpos mutilados.

Na escola primária Parque Popular, com 700 alunos, na cidade, nada consta, oficialmente, sobre o rapto de crianças e tráfico de órgãos humanos, mas nas ruas desatam-se histórias, contadas ali mesmo por crianças e adultos.
E... de repente, Nampula toma lugar de destaque nos olhos do mundo. A 15 de Julho de 2003, corre pela cidade o caso do pequeno Félix Mário, de 9 anos. Há duas semanas que estava no bairro do Namicopo, sob custódia de Dionísio Armindo, de 17 anos, que se aprontava para o vender por oitenta milhões de meticais, cerca de 3200 euros. Só a ausência do casal sul-africano, a quem se destinava esta venda, impediu que o tráfico se concretizasse. As religiosas do mosteiro Mater Dei tomaram conhecimento do caso e apresentaram-no à polícia. Dionísio viria a ser condenado a sete anos de cadeia, a 5 de Março de 2004, por «crime de ocultação, troca e descaminho de menores de forma frustrada». O casal, Gary O’Connor, sul-africano, e Tanja Skytte, dinamarquesa, sobre quem recaem acusações graves de tráfico, permanecem em liberdade, sob termo de residência e identidade. Dedicam-se há quatro anos à exploração de um aviário e de um netcafé em Nampula.

Outros casos estranhos tinham acudido aos olhos e ouvidos das monjas do mosteiro, situado a 10 quilómetros da cidade, no termo do aeroporto, a confinar com a herdade do casal sul-africano. A 12 de Outubro de 2002, Samira apareceu morta, aos 12 anos, sem órgãos internos. Em Março e Julho de 2003 são descobertas sepulturas de uma mulher adulta e de uma jovem estudante, inundada em sangue. A 4 de Setembro, Mário Cintura, de 22 anos, foi interceptado por trabalhadores do casal africano. Na refrega, Mário perdeu a catana e o carvão que vendia para sustento da mulher e de dois filhos. Foi então atado pelas mãos, depois preso pelos pés com uma corda aos barrotes de uma dependência da quinta. O prisioneiro não tem dúvidas sobre as intenções dos sequestradores. «Eles queriam matar-me e tirar-me o que tenho na barriga.» Foi salvo pela chegada de estranhos ao local.
Estes e outros casos são denunciados por carta às autoridades moçambicanas, a 13 de Setembro de 2003, assinada pelo arcebispo de Nampula, D. Tomé Makhweliha, pelo padre Carlos Ferreira, reitor do seminário interdiocesano, pela irmã Juliana, superiora do mosteiro Mater Dei, e por Elilda dos Santos, leiga consagrada da arquidiocese de S. Paulo, no Brasil.

Provas dos factos denunciados foram pedidas à polícia e aos tribunais. Estão já no terreno novos investigadores, depois da apresentação do relatório preliminar dado como inconclusivo. Eduardo Julião Balane, director da temida PIC, a Polícia de Investigação Criminal, não tem ainda respostas, mas revela que, em Nacala, no ano 2000, foi presa uma quadrilha por ter assassinado três crianças, a quem extraíram os órgãos para práticas tradicionais.


A olhar criticamente a evolução da situação esteve sempre Arlindo Pinto, missionário comboniano português, há 13 anos em Nampula. Surpreendeu-o a intensidade dos casos na capital do medo. «Tudo devia ter sido mais célere, mas este é o país do medo, característica principal do povo macua.»

Após as denúncias, tomadas em coro pelo colectivo dos missionários em serviço em Moçambique, baixaram os raptos e o desaparecimento de pessoas na região de Nampula. Também as avionetas e os carros de vidros fumados se ausentaram dos alegados lugares do crime. O arcebispo, D. Tomé Makhweliha, rompeu, por fim, o silêncio, que se tinha imposto, limitado à assinatura de documentos. Esteve já no Maputo, reunido, ao mais alto nível, com os governantes de um país, com eleições presidenciais agendadas para este ano. O prelado reiterou o seu apoio a todas as denúncias que partiram da sua diocese.

Quando voltarão, então, a sorrir as acácias da cidade, envolta em montanhas de granito?
 in "Além Mar" - Abril de 2004