sexta-feira, 23 de agosto de 2013

...faz uma lista...

 
 
 
 

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?



domingo, 28 de abril de 2013

ÁFRICA - O BERÇO DA PAIXÃO


E agora?
Agora é limpar as lágrimas, engolir em seco, aguentar a frustração e esperar que o tempo passe…
Não dizem que ele é um bom aliado para os males do coração?!
Mas...
O pior é conseguir fazer parar o pensamento!
Como se faz isso?!
Dá-se umas cabeçadas na parede,abana-se o cérebro e tudo se esquece?
Se assim fosse…
Todos os desencantamentos amorosos se resolviam facilmente
Sente-se um aperto no peito, o coração oprimido, a alma em frangalhos
E dói dilaceradamente…
Dói sobretudo a renuncia, a certeza de que não se pode voltar atrás, nem no tempo, nem nas palavras…
Juntam-se todos os pedacinhos de cada recordação e reconstitui-se a história:
Recua-se algumas décadas, mais de três, quase quatro…
Tenta-se reunir, na lembrança cada acontecimento vivido naquela época
São momentos únicos de pura nostalgia, puro deslumbramento de uma vivencia feliz numa terra colorida, com os seus cheiros e costumes tão peculiares e tão distantes no tempo e nos quilómetros...
Quem dera poder retroceder
E começar de novo...
Aquele rostinho moreno de menino na flor da idade
 
E ela...
Uma menininha meiga e tímida…
O sol quente, tão quente como só África tem…
O farfalhar das folhas das palmeiras
O caminhar naquele chão de terra vermelha
O murmurar das águas calmas e mornas
A brisa da baía trazendo o cheiro a maresia
Hummm…
Respira-se fundo
Enche-se o peito de ar
E principalmente de alegria de viver
 
De sonhos cor-de-rosa
De uma paixão desmedida pela vida
De amor…
Amor puro de adolescente!
O brotar de um sentimento novo
É assim que a vida tem valor…
O calcorrear as vegetações á beira da baía á procura dos batráquios que se levam para a aula de ciências, onde são dissecados e estudados
A professora é um fenómeno de ideias inovadoras
E as aulas…
Sempre de uma animação impar
Os olhares que se trocam
O toque simples e inesperado das mãos…
O bater apressado do coração
Um tempo tão curto!
Mas ao mesmo tempo…
Um tempo tão preenchido
Que jamais se esquece…
Principalmente porque:
Ele deixou-lhe uma pequena lembrança
Aquela foto...
Que ela guarda anos a fio com especial carinho e sem saber porquê!
Os tempos mudam
E as redes sociais fazem milagres!!
Uma ideia surge...
Porque não procura-lo no FB?!
Basta escrever o nome e um simples clique
E...
Ei-lo!
A primeira impressão:
Meu Deus
Não pode ser...
Nem parece ele!
Mas depois de examinar bem algumas fotos
É ele…
Sem sombra de duvida
É ele!!
Aquele momento nada significa
Assim como não significam os meses seguintes em que se troca uma ou outra palavra…
Ele lembra-se!!
Vivem em países distantes, com vidas tão opostas e com 5 horas de fuso horário diferente, que raramente se conseguem encontrar na net, para uma breve troca de palavras…
Porém…
O destino,
Só pode ser o destino que apronta e desapronta, que começa e termina historias que nunca passarão disso mesmo!!
“Oi boneca…
Estou no Panamá, dentro do avião á espera que descole a caminho de NYC
Se deixares de me lêr
É porque o avião levantou voo”
São minutos esfusiantes, carregados de sentimentos contraditórios, recordações…
A partir daí, começa a troca de emails, as chamadas telefónicas…
A promessa e um reencontro…
E só se vive para isso!
Que se dane todo o resto
Mas…
As mentalidades chocam
Por vezes existem palavras e atitudes
Contraditórias
Incompreensíveis
Que agridem
Magoam
Ferem…
A distância impede o diálogo
Surge o caus
O inconformismo
A insegurança
As cobrança
O desentendimento
O afastamento...
Depois vem a ressaca
O arrependimento...
Ela devia ter sido mais tolerante
Mais paciente
Menos impulsiva
Menos vingativa
Mas não...
Deitou tudo a perder
E agora?!
Que fazer?
nada!!

Dói, dói, dói...
Mas nada do que ela possa fazer ou dizer,remediará alguma coisa!
Pois...ele diz que nada nunca mais mudará nada
É o afastamento total, radical, determinado...
Resta a dura realidade de que faça o que fizer, diga o que disser, ele não voltará a dirigir-lhe a palavra
Uma certeza porém, que teima em não querer aceitar...
Era uma história inacabada e que apenas voltou para por termo a algo que tinha ficado mal resolvido no passado
As histórias reais são assim...
Nem todas terminam bem
E, esta foi apenas mais uma
Mas a esperança, essa... só os anos que estão por vir, a fará esmorecer!

M. C.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

...o que nos devia unir...


…”Nas últimas semanas que passou em Lourenço Marques, Inácio Ribeiro comprou todas as ferramentas que conseguiu. Depois dos acontecimentos de 7 de Setembro de 1974, sabia que não poderia ficar muito mais tempo em Moçambique e recusava-se a deixar lá as poupanças que amealhara à custa de uma vida de trabalho como torneiro mecânico e das rendas de um prédio que construíra na Rua de Portalegre, no bairro da Malhangalene.
 
Levantava dez mil escudos por semana – o máximo permitido – e guardava o dinheiro num cofre escondido debaixo de dois azulejos com fundo falso junto à banheira em vez de o entregar aos cuidados do Consulado de Portugal como fizeram muitos portugueses. Depois de constituir uma reserva, estudou a melhor maneira de levar consigo mais do que os cinco mil escudos regulamentares. Como as notas não lhe valeriam de nada , converteu o dinheiro em objetos para enviar por via marítima e vender na metrópole.
 
O investimento era arriscado porque a Frelimo considerava sabotagem económica retirar de Moçambique automóveis, motos e uma série de outros bens. Se o mandassem abrir os caixotes, teria sarilhos, mas ou arriscava ou ficava sem nada. Disfarçou as cargas proibidas o melhor que pôde: desmantelou uma moto Suzuki vermelha nova e escondeu as peças num contentor; encaixou um faqueiro de prata dentro da porta de um Alfa Romeo Sud pago à última hora e encheu o depósito de combustível com moedas de vinte escudos.

“Descobri que eram feitas de uma liga de prata e trouxe as que consegui. Não andei a vendê-las na rua, mas houve uma casa de penhores que as comprou ao quilo.” Com o resto do dinheiro adquiriu cinquenta caixas de folha de serrote e várias ferramentas de elevada qualidade que dissimulou no meio das mobílias. Deu-se ao trabalho  de desparafusar  a placa de isolamento da porta do frigorifico para esconder os títulos de propriedade do prédio da Rua de Portalegre, na esperança de um dia poder provar que era o dono do imóvel.

Estava preparado para despachar tudo por via marítima e enfrentar as consequências se fosse descoberto quando um conhecido lhe perguntou:



“Senhor Inácio, quer que não abram os seus caixotes?”

O homem explicou-lhe que, por uns trocos, alguns elementos da Frelimo estavam dispostos a fechar os olhos ao que saía do país. E Inácio, como muitos milhares de portugueses a quem foi dada essa oportunidade, nem hesitou.
Cada um transportou o que pôde: na maioria dos casos, carros, motos, algumas mobílias e objetos de estimação. Mas quem tinha jóias ou diamantes fez os possíveis por os levar consigo, sabendo que teriam sempre valor em caso de necessidade…”

 

“Na década de 1970, este era um cenário comum em Portugal, sobretudo nos meios rurais. Em todo o país, apenas 29% das casas tinham, em simultâneo, água canalizada, eletricidade, banheira e retrete; em Lisboa o valor subia para 51%, mas, em Bragança, não passava dos 8%, ficando a maioria das habitações privadas destas condições básicas. No Alentejo, a situação não era muito diferente.”…



In “Os que vieram de África” de Rita Garcia


...quando pedi uma Coca-Cola disseram-me que não havia...
…para os que vieram de África tudo isto significava um atraso que os surpreendeu e criou outro desanimo em relação ao futuro que os esperava…no entanto, considero que o que nos une não é só a saudade da terra que nos viu nascer e crescer…não é só a saudade do contacto estreito, direto e até diário com a natureza esplendorosa…não é só os laços de amizade e fraternidade…o que nos une é também o desprezo com que fomos recebidos nesta terra que diziam ser a nossa Pátria…o que nos une é a forma como fomos violentados…o que nos une é, ainda, a sigla desprezível com que nos marcaram para toda a vida...retornados…eu que nem aqui nasci e cresci…eu que ainda hoje leio no meu cadastro fiscal a informação de Nacionalidade: NÃO PORTUGUÊS.
…para que a nossa memória não seja curta…é tudo isto que nos devia unir…

 

João Neves



 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Os nossos amigos ainda são os de África...




Entre os que vieram de África, há amarguras por resolver.
Nunca perdoaram aos vários Governos o facto do Estado não os ter compensado pelos bens que deixaram em África.
Entre 1976 e 1980, deram entrada no Instituto para a Cooperação Económica (futuro Instituto da Cooperação Portuguesa) quarenta e seis mil pedidos de compensação por perda de imóveis, depósitos e outros pertences abandonados no ultramar.
Essa mágoa é apenas um dos factores que os une.
Hoje, milhares de portugueses que vieram de África alimentam a nostalgia em páginas do Facebook, sites e blogues dedicados às lembranças de outrora.
 É lá que partilham fotografias e histórias, procuram pessoas a quem perderam rasto, marcam almoços anuais para reencontrarem velhos amigos e trazerem o ultramar à Europa.
Separadas as dificuldades do inicio, os “retornados” afirmaram-se no mercado de trabalho nacional e é quase unânime que o seu espírito empreendedor imprimiu um novo dinamismo à economia portuguesa.
Mas para Victor Cerqueira  há uma adaptação que continua por se cumprir.
“Os nossos amigos ainda são os de África, o nosso círculo é o mesmo – o que quer dizer que a integração emocional não ficou completa”.

In “Os que vieram de África” de Rita Garcia.

segunda-feira, 25 de março de 2013

As tradições dos Macuas


As tradições dos Macuas
Por: ALBERTO VIEGAS

Os Macuas - povo da floresta - são uma tribo de origem banta. Em tempos habitavam na zona dos Grandes Lagos (República Democrática do Congo). Depois deslocaram-se em direcção ao sul da África. Actualmente são o grupo étnico mais numeroso de Moçambique. Eles são um povo caracterizado pela sua inclinação natural para o sorriso, que se traduz muitas vezes em sonoras e prolongadas gargalhadas.

Para a tribo Macua, o sorriso é um sinal de amizade e de que se pode criar uma boa relação. Quando chega alguém que não conhecem, sorriem-lhe na mesma. Deste modo, ele saberá que não tem nada a temer.
Os macuas recorrem também ao sorriso para apagar as ofensas. O ofendido, por sua vez, espera que aquele que o ofendeu lhe retribua outro sorriso para demonstrar que não queria ferir-lhe o coração. Basta um sorriso e acontecerá a reconciliação.
 
Há, porém, momentos em que os macuas não riem nunca: perante uma pessoa com deficiências mentais, um idoso ou durante uma celebração solene.
A hospitalidade é outro valor muito importante para a tribo macua. Por mais pobres que sejam, todas as famílias possuem sempre uma habitação reservada para os hóspedes, os parentes, os amigos ou os peregrinos e partilham com eles tudo quanto têm, a ponto de oferecer ao recém-chegado a própria cama, onde eles dormiram nessa noite.
Quando um desconhecido chama à porta da cabana, se tem saúde, os donos da casa perguntam-lhe onde vivem os seus parentes. Mas se é um doente, não lhe fazem qualquer pergunta. Acolhem-no sempre.
Se a família está a tomar uma refeição, o hóspede não pode recusar-se a tomar assento e comer com eles, tomando o alimento do prato de onde se servem todos, o qual está colocado ao centro. Se, porventura, o hóspede recusa, isto é uma grave ofensa para a família que o acolhe. Mesmo que não tenha apetite, deve lavar as mãos, comer do que a mulher cozinhou e voltar a lavar as mãos.

A saudação entre as pessoas é feita quase que ao modo de um ritual. Quando saúdam um chefe ou cujo cargo obriga a uma consideração particular, fazem-no de modo humilde e respeitoso. Se se aproximam de frente, acompanham as palavras de saudação com um rítmico bater das mãos.
 
Aquele que encontra um grupo de pessoas reunidas, sempre que alguém do grupo se aproxima para o saudar, pousa primeiro no chão, a uma certa distância, tudo o que leva na mão. Saúdam-se sempre com a mão direita, a mão forte, mostrando claramente que não guarda nada contra ele. O saudado não tem nada a temer.
Se a saudação for feita com a mão esquerda, considerada a mão débil e inofensiva, pode sugerir que na outra mão há um punhal. O melhor é usar sempre as duas mãos, infundindo deste modo maior confiança e tranquilidade.
 
Os anciãos recebem uma grande veneração entre os macuas. Ninguém dirige a palavra a um ancião estando de pé. Este sentir-se-ia ofendido. Pelo contrário, aquele que lhe fala senta-se ou põe-se de cócoras.
Nas refeições, o primeiro a lavar as mãos, na única bacia que passa por todos, é o ancião. Também é ele que se serve primeiro dos alimentos e que dá início à refeição. Ao ancião, compete ainda ser o primeiro a terminar a refeição. Todos os outros, mesmo que não tenham apetite, devem continuar a comer. O ancião merece todo o respeito.
No dia-a-dia, quando um jovem está sentado numa cadeira, numa pedra ou no chão, mas num lugar mais elevado, quando passa um ancião terá que descer e, pelo menos, pôr-se de cócoras.
Um valor muito importante entre os macuas é a solidariedade. Unem-se solidariamente de modo particular face à doença. Quando numa família alguém adoece, todos os vizinhos se sentem obrigados a fazer-lhe uma visita, de manhã cedo ou à tardinha. E ninguém vai de mãos vazias, mas com comida, água, lenha...
Se o doente piora, o chefe da família vizinha e outros adultos dormem junto à casa, velando no aprisco e sempre prontos para prestar uma ajuda quando for preciso.
No caso de morte, a solidariedade aumenta. Há quem se ofereça para ir avisar os parentes que vivem mais longe. Outro cava a sepultura. Outro ainda encarrega-se de arranjar o lençol para envolver o defunto. Entretanto, já se reuniram as pessoas que lavarão o corpo. As mulheres vão buscar a água e preparam a comida para todos os presentes.
 
Depois do funeral, os parentes e vizinhos passam três noites consecutivas na casa da família enlutada. Ao quarto dia, varre-se a casa e limpa-se o pátio. Passado um mês de luto, corta-se o cabelo à viúva e aos outros membros da família e os hóspedes regressam às suas casas.

 
 
 
 
 

sábado, 16 de março de 2013

Joana Simeão...e o 7 de Abril...em Moçambique...


...à procura da verdade...um simples contributo para a história...em homenagem a todos aqueles que sofreram na carne...a todos os que perderam a vida por...um País mais livre, justo e fraterno...


"Aos alunos…Dra Joana Simeão.
Dei hoje a minha demissão.
Chegou a hora do adeus.
Passámos juntos horas de franca camaradagem, misturadas de momentos de guerra fria , sem dúvida.
Agradeço-vos estes momentos de vivência profunda.
A hora é grave.
Eu estou a 100% no combate por um Moçambique Livre, Justo e Fraterno.
Notas (escolares): Serão justas. Ninguém ficará lesado.

Abraços Joana Simeão"




A Mulher é a guardiã  da espiritualidade humana.
É a matriz da vida.
É a personificação da grande Deusa.
É a que acolhe, cria e desenvolve os processos de vida.
É a perfeição mais perfeita e completa do Universo.
Contudo, todos estes atributos podem não passar de poesia quando olhamos para o passado e presente da mulher no nosso país.
Esta reflexão vem a propósito de mais um 7 de Abril, dia consagrada pela Frelimo como sendo o dia da mulher moçambicana.
Em Moçambique, na fase pós-independência, a constituição da primeira República estabeleceu direitos iguais para homens e mulheres. Não obstante este facto, a situação da mulher em Moçambique continua a ser influenciada predominantemente pela tradição e pelas atitudes e estruturas do passado. A falta de capacidade de gerência para o melhoramento das receitas e da segurança alimentar das famílias; a persistente divisão do trabalho na base do género; o analfabetismo, o HIV/SIDA e a mortalidade materno infantil têm constituído obstáculos para a participacao da mulher em novos empreendimentos e na vida pública. Os dados oficiais apontam que Moçambique tem mais de 19,889 milhões de habitantes (2006). Mesmo considerando a existência de alguns centros urbanos relevantes como Maputo, Beira e Nampula, a maior parte da população vive nas áreas rurais, distante das principais vias de comunicação. E, para o “agrado” do “género masculino”, a maioria de cidadãos é constituída por mulheres.
Sendo a maioria de cidadãos residentes em áreas rurais, não deixa de ser conveniente, oportuno e urgente apelar que se reforce o olhar para o empoleiramento da mulher a partir do própria zona rural. É um exercício difícil se feito a partir do ponto em que me encontro (cidade capital e zona privilegiada dessa cidade). O que me importa afirmar nesta data consagrada a mulher em Moçambique é que chega de discursos prenhes de maquiavelismos, com alguns a acumularem privilégios pessoais nas cidades em nome da mulher rural. Na verdade, o que se assiste é uma grande exclusão deste grupo de mulheres na gestão e solução dos seus próprios problemas, quer à nível local, nacional e internacional. Penso que é tempo da mulher rural ocupar o seu espaço, na qualidade de legítima porta-voz dos seus problemas, e não permitir que o seu espaço continue a ser usurpado por mulheres que nada têm a haver com a sua realidade. E pode-se tomar como exemplo o que existe noutros quadrantes. Os governos da Índia, China, Bangladesh, Brasil e alguns países da América Latina são pioneiros na promoção da mulheres rurais, criando-lhes condições para a sua participação directa nos fóruns regionais, internacionais e outros, como forma de as estimular na área especifica em que estão inseridas, pois entende-se que a zona rural é a base de desenvolvimento dos subdesenvolvidos.

No nosso país, infelizmente, as coisas estão invertidas. Os grupos que participam nestas cimeiras importantes de desenvolvimento ao nível mundial são constituídos por senhoras residentes em capitais provinciais, senão mesmo apenas na cidade capital do país (Maputo), preterindo-se a mulher rural que sofre na carne a “dor” de ser mulher numa sociedade em que a tradição dá privilegio ao homem.
A mulher moçambicana, como em outros países do continente africano, participou na luta de libertação nacional, assumindo tarefas femininas e outras directamente relacionadas com a actividade militar. A maioria das guerrilheiras não tiveram uma evolução notória no panorama político e social moçambicano. Com a excepção de Graça Machel (que pouco se sabe o quanto se embrenhou pela matas de Cabo Delgado e Niassa a procura da independência), nenhuma das guerrilheiras que lutaram lado-a-lado com homens naqueles tempos dificeis atingiu, após a luta de libertação, um lugar de destaque no panorama político do país. Quanto muito, ocuparam alguns cargos de direcção (femininas, entenda-se) e de subalternidade na ex-Assembleia Popular durante a vigência do sistema mono partidário. Isto visava apenas emprestar certa credibilidade ao consagrado na constituição. Tal como jamais se admitiu uma mulher chefe de família, as mulheres na era samoriana mantiveram-se da mesma forma submissas ao homem.
Na esteira do actual debate de quem deve ser considerado herói nacional, comemora-se hoje o 7 de Abril dia morte de Josina Machel, considerada Heroína pelo partido Frelimo dentro de um específico contexto Histórico.
O que se sabe e que se lê sobre Josina Machel é que foi esposa de Samora Machel; que foi uma das mulheres que “revolucionou” o papel da mulher na luta de libertação nacional. É dito também que foi uma das fundadoras da OMM e que morre vítima de doença a 7 de Abril 1971. Não se conhece discurso político nenhum desta “heroína”, para além de algumas pessoas que com ela privaram afirmarem que não passava de uma pessoa como outra qualquer, que teve apenas a “sorte” de ser a esposa do então líder.
Nesta data de 7 de Abril, o que pretendemos e o que questionamos é a heroicidade de Josina. O que diferenciou Josina de outras mulheres combatentes naquela altura que também participaram na luta pela independência? O que fez dela uma mulher especial e que as outras não fizeram? Infelizmente, até hoje, ainda não existem estudos que nos mostrem uma grande diferença entre esta senhora e outras que também deram suas vidas heroicamente. Mas em Moçambique existem exemplos de mulheres de fibra. O exemplo da Dra. Joana Simeão pode se considerar um caso ímpar se visto com “olhos de ver” nos dias de hoje. Por conveniências políticas (neste país de todos nós), pouco se sabe sobre a trajectória dessa senhora, senão que foi reaccionária e traidora. Contudo, os poucos registos que existem ilustram que em 1974/1975 em Moçambique estava-se perante uma mulher de fibra, de facto, que na sua época havia ultrapassado algumas barreiras.
 


Com efeito, mulher moçambicana da etnia macua, Joana Simeão foi uma das poucas académicas de raça negra que se notabilizou nos anos 60 antes da independência nacional. Assassinada pela Frelimo por possuir uma visão política social diferente, se analisadas hoje os seus depoimentos televisivos e escritos, podemos chegar a conclusão de que se não lhe fosse tirada a vida seria uma grande mulher e, quiça, fonte de inspiração de muitas jovens, imediatamente após a conquista da independência. E, escusado é dizer o quão era necessário para as moçambicanas (na época) uma fonte de inspiração viva. Penso que Joana, muito teria contribuído para esta democracia nascida pela via do sangue e violência. De certa forma, embora alguns círculos ligados ao poder político em Moçambique comprometam-na com o regime salazarista (o que nunca se comprovou, documental ou detalhadamente), para todos os efeitos, Joana Simeão foi um caso excepcional da emancipação da mulher moçambicana. Contra toda a regra consuetudinária, foi a primeira mulher de Moçambique a bater-se, ombro à ombro, com homens na matéria de governação de um estado soberano. Na época, nenhuma mulher de raça negra, para não dizer de qualquer outra raça em Moçambique, foi tão longe quanto ela. Era uma mulher esclarecida que, não se comparando a muitas que viriam a ser cooptadas à heroínas por conveniências políticas, se pôs a brandir a sua valentia de não submissão cega. Tinha uma arma, o saber, que em 1975 teria sido uma mais-valia para a consecução do progresso da mulher em Moçambique. E, desde já, seria interessante que os jornalistas moçambicanos, sobretudo os ligados a estações televisivas como a STV, Miramar e outras, em colaboração com RTP, retransmitissem as entrevistas dessa figura, para que no presente todos possamos ajuizar. E isto pode ser feito por via de um programa específico, de natureza política e social, visando esclarecer os que não viveram na época os sinuosos caminhos da descolonização portuguesa. Aqui – proponho – chamar-se-iam também os que lhe vilipendiaram na época (muitos ainda vivem) para apresentarem os seus argumentos e documentos da então acusação.
Quando de fala de 7 de Abril e de heróis nacionais o que se pretende não é negar a eventual heroicidade de Josina. Tal como é discutível a sua heroicidade, pretende-se, acima de tudo, que haja uma data consensual alusiva a mulher moçambicana, de modo a que todas as sensibilidades da esfera social moçambicana se sintam identificadas. E, penso que isto não é pedir demais, pois após longos anos de colonização estrangeira, a mulher rural moçambicana, enfrentou inúmeras adversidades durante a construção do Estado independente; viveu uma ditadura do proletariado imposta pela Frelimo e posteriormente a guerra civil; passou pelo processo de mudanças quer no plano económico, político e social; passou por um estado de guerra de armas num sistema de partido único, para um estado de “paz aparente” num sistema democrático parlamentar, mas continua a enfrentar a pobreza; doenças endémicas e exclusão social, pois não obstante o processo de transformações do séc. XX, acompanhado pelo grande desafio que é globalização, ou mundialização neste limiar do sec. XXI, a mulher rural de Moçambique continua sendo o estandarte em que alguns se apoiam para alcançarem privilégios nas cidades capitais. Urge pôr fim a isto, e pôr a mulher rural a frente dos seus problemas. O sonho de Joana Simeão mantêm-se vivo.

*Linette Olofsson
Deputada suplente
Circulo Eleitoral de Zambézia

 
 
 
A certidão de óbito
A nota que a seguir se transcreve, aliás, se republica, 28 anos depois, é, de per si, esclarecedora.
“No espírito das tradições, usos e costumes da luta de libertação nacional, o Comité Político Permanente da Frelimo reuniu e condenou por fuzilamento os seguintes desertores e traidores do povo e da causa nacional, os quais já foram executados: Uria Simango; Lázaro Kavandame; Júlio Razão Nilia; Joana Simeão e Paulo Gumane. Em ordem a evitar possíveis reacções negativas, nacionais ou internacionais, que podem advir em consequência do fuzilamento destes contra-revolucionários, a Comissão Política publica esta acta como decisão revolucionária do partido Frelimo e não como acta judicial”, lê-se no referido documento.
 
Assumindo ser “necessário um «dossier» estabelecendo a história criminal completa desses indivíduos, assim como as suas confissões aos elementos do D.D/S.I que os interrogaram, declaração das testemunhas, julgamento e sentença”, o Comité Político Permanente do partido Frelimo ordenou ainda que “um comunicado deverá ser emitido pelo camarada Comandante-Chefe (Samora Moisés Machel), no qual se anunciará a execução dos contra-revolucionários acima mencionados”.
No mesmo documento lê-se ainda que “foi decidido nomear um comité para compilar o dossier e preparar a comunicação pública”.
“O camarada Comandante-em-chefe decidiu que o comité fosse dirigido pelo camarada Sérgio Viera e adicionalmente terá os seguintes camaradas: Óscar Monteiro, José Júlio de Andrade, Matias Xavier e Jorge Costa.
A Luta continua. Maputo, 29/7/80.
O ministro da segurança, Jacinto Veloso”.
 
...tenho um sonho...que os meus netos um dia leiam estes escritos e sintam o quão rica foi a minha vida na minha Pátria...se bem que...se me perguntarem o que é a minha Pátria...direi...não sei...

João Neves
 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Homenagem às mulheres


Só quando os homens chegam a uma certa idade é que podem dizer com certeza que as mulheres são melhores do que eles em tudo - mesmo na bola, a carregar pianos, a lutar com jacarés ou nas outras coisas em que ganhávamos quando éramos mais novos e brutos e fortes.
Quando se é adolescente, desconfia-se que elas são melhores.
Nos vintes, fica-se com a certeza.
Nos trintas, aprende-se a disfarçar.
Nos quarentas, ganha-se juízo e desiste-se.
Nos cinquentas, começa-se a dar graças a Deus que seja assim.
Os homens que discordam são os que não foram capazes de aprender com as mulheres (por exemplo, a serem homenzinhos), por medo ou vaidade ou estupidez.
Geralmente as três coisas.

Desde pequenino, habituei-me que havia sempre pelo menos uma mulher melhor do que eu. Começou logo com a minha linda e maravilhosa mãe, cuja superioridade - que condescendia, por amor, em esconder de vez em quando - tem vindo a revelar-se cada vez mais.
As mulheres são melhores e estão fartas de sabê-lo.
Mas, como os gatos, sabem que ganham em esconder a superioridade.

Os desgraçados dos cães, tal como os homens, são tão inseguros e sedentos de aprovação que se deixam treinar.
Resultado: fartam-se de trabalhar e de fazer figuras tristes, nas casas e nas caças e nos circos.


Os gatos, sendo muito mais inteligentes, acrobatas e jeitosos, sabem muito bem que o exibicionismo vai levar à escravatura vil.

Isto não é conversa de engate.
É até um tira-tesões.
Mas é a verdade.
...E é bonita."


Texto publicado por Miguel Esteves Cardoso – 08-03-2009


P.S. – Eu sei que depois das Mulheres lerem este texto, que eu subscrevo completamente, vão dizer que eu e o Miguel Esteves Cardoso somos uns gentlemen’s…ou que somos muito simpáticos.

Também sei que os Homens vão dizer que somos uns “pinga-amores”…ou que estamos até a perturbar a classe...ou que já estou nos "cinquentas"...


Mas quero dizer que não se trata nada disso.

É a verdade.
A minha felicidade sempre dependeu das mulheres. A minha estrada sempre teve o apoio de mulheres…Se sou feliz é graças às mulheres da minha vida.

Para as mulheres da minha vida vai o meu reconhecimento,admiração, carinho e amor.
Para as minhas Macuas, mulheres da minha Tribo, vai todo o meu carinho e agradecimento por fazerem parte da minha história de vida.


Para as Mulheres em geral vai a minha vénia e saudação.










João Neves

domingo, 6 de maio de 2012

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Retalhos



Vou tentar em poucas palavras, descrever o que tenho para contar.



Estando eu na espera de um atendimento público, chama-me a atenção uma senhora, pela forma como descrevia ali a sua presença.
Sentindo-se acompanhada aproveitou a ocasião para ir desfiando um pouco das histórias, da sua solidão. Não lhe dei muita importância no momento, evitando que houvesse mais intimidade. Falou do amor d...a sua vida, de um casamento de 52 anos, sem mancha. Falava com ternura, com amor.
Mas às tantas, aborda a vida do filho, denunciando o rol de companheiras que tem, ao invés do exemplo de casa e que não se conformava. Aí, não suportei mais o meu silêncio e pedi-lhe que houvesse alguma brandura da sua parte em relação ao filho, pois provavelmente, ele tanto se esgota de viver à procura. Pedi-lhe que olhasse, por esse ponto de vista.
Com a minha observação, tinha acabado de fazer uma amiga!
Percebi de imediato que seria uma amiga especial.
Com a idade de 83 anos, nem sequer questionei o tempo da nossa recente amizade, podia ser uns minutos e de forma intensa, em que o carinho e a ternura se misturassem. E assim foi,em pouco mais de meia hora, uma intensa troca de afeto. Falamos desde a antena da televisão, até à roupa que está guardada para usar no dia do seu funeral, tudo foi dito e nada perguntado. Mas também me disse, que ouve a voz do marido, que é uma sua impressão, seja lá o que for verdadeira ou falsa, mas acalenta-a. Também me disse que o filho, único, nasceu no hospital e ao contrário de agora, naquele tempo, os nascimentos não se programavam, aconteciam.

Mas disse-me, o que eu julgo de mais importante. Um marido que nunca ousou questionar, o seu governar dos dinheiros e da casa, que nunca ousou bater uma porta com mais força, que nunca ousou desrespeitar. No meio daquele rol de uma graça de senhora, de um carinho imenso, às tantas diz-me:
Imagine e vê-lo nu, nunca o vi. Nem ele a mim. Bastava-nos apalpar para ver e tudo acontecia.
No atendimento onde nos encontrávamos, chamam pelo seu número e depois pelo meu. A conversa fica interrompida, julgando que jamais ela voltaria a falar-me.
Nisto, sinto uma mão no meu ombro, viro-me e com a mesma ternura, diz-me que se chamava Augusta, que ali perto vivia e questiona-me como me chamava.
Despede-se com um imenso sorriso terno, dizendo-me: -Gostei de Si!


Estes são os retalhos de hoje, de uma amizade que ficou eterna…



Cristina Vilhena



segunda-feira, 9 de abril de 2012

quinta-feira, 1 de março de 2012

...doçura.....cândida...



Talvez digam sensível demais, nostálgica que escreve ela hoje aqui...para alguns de nós... uns presentes outros ausentes? ...pelo menos recata a privacidade de cada um que passou pela sua vida, em intensa paixão e dedicação... primeiro nome vá lá não...se atreveu a mais.
Inspiração, emoção de momento, recordações e quem sabe um bela homenagem e dedicação pelas suas reguilices de criança que ainda hoje é...criança amante do mundo, criança totalmente dedicada a todos pela sua vida fora.
Verdadeiro pássaro Voador entregou desde o seu nascimento a sua vida aos que mais precisam de si...feita para amar, amar sim com muita intensidade...mas não o amor que cada um de nós ansiava, a sua entrega total de amante e mulher...casamentos foram marcados e desmarcados pela sua irradia fuga ao amor... namoros desmanchados pela sua fuga...dedicada sim, mas nunca aceitando compromissos de maior responsabilidade...
Apenas queria ser mãe...mãe solteira, nada de apegos...isso era coisa de gente frágil que se entregava para um dia mais tarde vir a se magoar profundamente... Não se enganou esta nossa menina.


Menina querida e mimada por muitos de nós, surpreende-nos com o mais profundo pedido:

Perdão, Zé, José, Carlos, Pedro, Dadito, Manuel, Jorge...deixado ansioso com um casamento que tanto esperavas, simplesmente com a palavra sincera de que não eras o amor da minha vida.
Fui reguila demais...brinquei sério talvez demais no jogo ...do amor ...e tu Manuel que aqui te encontras bem presente, tu sabes!!!! ...até podia ter dado muito certo... Carlos... como a vida é irónica amigo... alguém na altura me disse que tinha de ter na minha vida um homem como tu...demos ambos tantas voltas e trambolhões...hoje sei que estás só...como o Jorge e o Emanuel...lembras loiro danado dos cartings, cavalos...tu e a tua familia...juntos com a minha...que voltas tentaram dar.... fugia...não te atendia o telefone... apenas dizia... não sou mulher de me deixar comprar por ninguém...... e venci sempre as minhas decisões....soube que alguns de vocês hoje estão completamente sós...e ainda sofrem por alguém que não conseguiu retribuir tanto amor e dedicação.... antes que possa ser tarde demais...escrevo e transmito o meu maior sentimento de perdão e gratidão pelo vosso amor...entrega total no passado... com a esperança que alguns vejam o manuscrito...que a alguns de vocês se assim tiver de ser...e acontecer...chegue esta minha dedicação e homenagem a todos os MEU GRANDES AMORES DE JUVENTUDE...




Bem hajam...
 Lizete Lopo



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

...Somos cinco...



Na hora de pôr a mesa, éramos cinco...
...o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu…
Depois, a minha irmã mais velha... casou-se.
Depois, a minha irmã mais nova casou-se.
Depois, o meu pai morreu...
Hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco...

...menos a minha irmã mais velha que está na casa dela...
...menos a minha irmã mais nova que está  na casa dela...
...menos o meu pai…
...menos a minha mãe viúva...
Cada um deles é um lugar vazio nesta mesa onde...
...como sozinho...
Mas irão estar sempre aqui.
Na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
Enquanto um de nós estiver vivo…
...seremos sempre cinco...


Poema de José Luís Peixoto.
 
...oferecido pela Kázinha...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Triste África

Olhem para a cara de Jean-Pierre Bemba, o líder da oposição congolesa. Eu sempre acreditei que olhar para a cara das pessoas ajuda muito a perceber quem são. Concordo que a receita é falível: há gente com aspecto de boa pessoa e que, afinal, não é recomendável e vice-versa. E há caras que não dizem tudo, de bom ou de mau, acerca do seu portador. Mas, para quem conhece um bocadinho a África Negra e a sua classe política, a cara do sr. Bemba diz tudo ou quase tudo sobre o que há a esperar dele no dia em que conseguir chegar à presidência da República Democrática do Congo. A menos que estejamos perante uma notável excepção ao meu critério de adivinhar carácteres a partir das caras, a do sr. Bemba traz as marcas inconfundíveis da generalidade dos políticos negros africanos da última geração. Um catálogo de horrores: nepotismo, prepotência, violência, cupidez e, fatalmente, corrupção.


Agora, olhem para a cara do sr. Joseph Kabila, o seu rival e actual Presidente da RDC: a outra face da mesma moeda. O Presidente Joseph Kabila sucedeu a seu pai — coisa habitual nestas paragens —, o distinto Laurent-Desiré Kabila, cuja presidência será sobretudo recordada pela ruína do país e o estendal de cadáveres deixados para trás. Kabila-pai tinha sucedido ao imortal Mobutu Sese Zeko, uma espécie de estereótipo de ditador africano, de quem Bemba e o pai foram estreitos aliados. Dois clãs em luta pelos despojos do país, coisa comum na África Negra. Depois de vinte anos de guerras, golpes e contragolpes, o ex-Zaire e ex-Congo Belga, um dos mais ricos países africanos, está reduzido à miséria, à ineficácia e à corrupção e exposto às intromissões e cobiças do seu poderoso vizinho angolano.


Voltemos ao sr. Bemba, herdeiro de uma colossal fortuna deixada por seu pai e empresário cujos exemplos mais admirados são o marselhês Bernard Tapie e o milanês Silvio Berlusconi, dois príncipes da alta finança europeia que a Justiça perseguiu e condenou por toda a espécie de falcatruas possíveis no ramo. No final de 2006, Bemba regressou do exílio para fundar o MLC e concorrer às eleições. Derrotado por Kabila, gritou à fraude (o que, mais do que provavelmente, é verdade) e transformou o MLC numa milícia militar, apoiada pela Líbia e outros países africanos e acusada pela ONU de práticas de canibalismo. Em Março passado, o MLC saiu do mato e desceu às ruas de Kinshasa, tentando tomar o poder pela mais antiga das formas locais de o fazer. Derrotado também nas ruas, Bemba refugiou-se na Embaixada da África do Sul, e a situação caiu num impasse. Foi então que a diplomacia portuguesa teve uma ideia luminosa: mediar a saída negociada (e necessariamente provisória) de Bemba do país e da cena política. Aproveitar o passaporte português da mulher, uma luso-brasileira filha de um emigrante português, e dos filhos e aproveitar o facto de o sr. Bemba ser proprietário de uma casa na Quinta do Lago, no Algarve (como já sucedia com o seu ‘padrinho’ Mobutu), assim proporcionando uma saída airosa a ambas as partes. Se os esforços do embaixador Alfredo Duarte Costa tiverem sucesso, a nossa diplomacia consegue, de facto, uma lança em África: proporciona uma saída para a crise, que Kabila tem de agradecer, e fica nas boas graças do sr. Bemba, para o dia em que este, milhar de mortos a mais ou a menos, consiga enfim sentar-se no trono do Leopardo. O desfecho diplomático está iminente e apenas aguarda que Kabila resista à tentação de tentar deitar a mão ao seu rival para o cortar às postas e se decida a assinar um papel, deixando-o sair.
Como se pode imaginar, aos congoleses, à excepção dos milicianos e arregimentados de ambos os lados, tanto se lhes faz Kabila como Bemba. Quem ficar com o poder enriquecerá — ele e a sua corte; o resto da população continuará na miséria, à espera do milagre impossível do dia em que o Congo, como o resto da África Negra, seja governado por homens sérios, competentes e com vontade de servir o seu país.


Desçamos um pouco mais abaixo e a leste, onde temos o caso-limite do Zimbabwe, desse louco criminoso que é Robert Mugabe. Como escreveu há dias a Conferência Episcopal do Zimbabwe, ali o poder perdeu já qualquer resquício de vergonha, de pudor, de condescendência para com a miséria do povo ou de respeito pelos direitos humanos mais elementares. A oposição é espancada, presa e torturada à vista de todos, os jornalistas estrangeiros são expulsos, o desemprego atinge os 80%, e a fantástica Reforma Agrária de Mugabe, que correu com os melhores agricultores africanos, que eram os rodesianos brancos, trouxe a fome aos campos e às cidades superlotadas. No seu delírio de psicopata, Mugabe não encontrou melhor plano do que mandar o Exército desterrar da capital, Harare, centenas de milhares de pessoas que não tinham para onde ir.



Em Harare esteve há duas semanas o ministro dos Estrangeiros de Angola, que lá foi oferecer apoio militar a Mugabe e proclamar a solidariedade ‘anticolonialista’ do regime de José Eduardo dos Santos. Depois, o ministro veio a Lisboa e sentou-se numa mesa ao lado do nosso MNE, Luís Amado. Perguntaram a Amado se, perante a situação no Zimbabwe e o isolamento a que o regime foi votado pela União Europeia, ele ponderava a possibilidade de não convidar Mugabe para a Cimeira Europa-África, prevista para a presidência portuguesa da UE. O MNE deve ter estremecido, antes de responder convictamente que não: imaginar que Portugal pudesse comprometer aquilo que está previsto ser o «achievement» da nossa presidência, arriscando-se a que os países africanos boicotassem a Cimeira por ‘solidariedade anticolonialista’ com o Zimbabwe, é simplesmente antipatriótico. Seria o mesmo que convidar o Governo português, por exemplo, a perguntar a Luanda para onde vão as receitas do petróleo angolano que não entram no Orçamento do Estado.
‘Provocações’ dessas não se fazem aos africanos. Eles são muito sensíveis às intromissões ‘colonialistas’ dos brancos nos seus assuntos: em especial se forem europeus e, pior ainda, antigas potências coloniais em África. Eles não se importam de ser neocolonizados pelos indianos e agora pelos chineses, que estão a tomar conta de África em busca de energia e terras cultiváveis. Como antes não se importavam com os negócios ruinosos feitos com russos ou americanos, desde que as ‘nomenclaturas’ locais, bem entendido, fossem devidamente recompensadas. Mas, para os europeus, as regras são muito mais duras e exigem, como ponto prévio, que só há negócios em África se se seguir estritamente a diplomacia dos interesses e jamais a dos valores. É preciso ficar muito calado, olhar para o lado, fingir que não se vê e não se sabe e, sendo possível, como fazem Portugal e França, conseguir que os seus dirigentes tenham sempre um «pied à terre» na Côte d’Azur ou no Algarve, para criarem laços de afinidade e cumplicidade connosco.


Um dia, quando se fizer a história da África desaparecida, haveremos de chegar à conclusão de que, muito pior e muito mais imperdoável do que os cinco séculos de colonialismo europeu, foram estas cinco décadas de cumplicidade com o que há de pior em África.





Miguel Sousa Tavares


Publicado em 9 de Abril de 2007 - Expresso Multimedia