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sábado, 23 de abril de 2016

A CAÇA AO JACARÉ NO MEU LAGO "AMARAMBA"



A CAÇA AO JACARÉ NO MEU LAGO "AMARAMBA"

“…o meu Pai estava de pé no barco a motor com a espingarda...dois berlindes brilhavam nas águas de uma noite escura como bréu e eu enrolada num cobertor ao colo da minha Avó Olímpia:
- Não espirres agora!- disse ela. O meu Pai diz que é imaginação minha, mas eu lembro-me como se fosse ontem...de todos os pormenores!”

O jantar como habitualmente era cedo. Creio que toda a gente em Moçambique, e ainda por mais no mato, jantava quase logo após o pôr do sol. Os mais velhos conversavam um pouco, sabiam o que se passava através do rádio a bateria, enquanto fixavam a fogueira da outra margem: lá estava ela, a luzir em labaredas gigantes como se queria: era o Sr. Raposo a dizer “estou aqui, estou bem!”, a nossa transmitia-lhe exatamente a mesma coisa: tranquilidade. Éramos só nós, os nossos pescadores e famílias. Eu lá ia à minha vidinha brincar com os moleques ao pé das palhotas que estavam em volta do acampamento…até que chegava a hora da ida para a faina. 


Íamos em fila indiana! Um "petromax" iluminava o caminho e creio que havia outro atrás, por causa dos leões, até que chegávamos ao lago. O meu Lago Amaramba!
Os pescadores subiam para o barco, grande, castanho, feito pelo nosso carpinteiro e projetado pelo meu tio João (solteirão habilidoso, inteligente, gostava de Hemingway, também ele exímio pescador de jacarés, mas nunca gostou de mim, nunca assumiu que na família pudesse haver alguém com sangue negro). Eles iam para um lado, para a pesca do campango, do mucupa, do itíla...


A caça ao jacaré era feita a bordo do barco a motor. O meu Pai levava a espingarda, o focador –com o foco de luz- , o remador –com um pau comprido para fazer deslizar o barco quando parava o motor a fim de não afugentar os répteis- e o pescador que levava a fateicha, um pau com um gênero de anzol para puxar o jacaré depois de morto.


A superfície das águas eram exploradas pelo foco de luz. O jacaré apenas era perceptível pelos olhos que brilhavam à luz que serpenteava o lago- apenas eles e as narinas permanecem fora da água-. O tiro era certeiro, bem no meio dos olhos. Depois com a fateicha, puxava-se o jacaré, pegava-se nele- tudo muito rápido, caso contrário ele afunda- e punha-se no barco. Um ou dois por noite. 

No Rio Lugenda sim, a caça era proveitosa, 8 a 10 por caçada! Aí sei que nunca fui. Nem nunca fui à caça no Rio Lúrio.

Os jacarés são répteis bem adaptados ao meio ambiente e dominam bem o seu habitat. Ao contrário do possam pensar o jacaré não é lento, se se sentir ameaçado ou perturbado, ou mesmo se lhe aparecer algum pitéu nos seus momentos de banho de sol à beira do lago ou rio, corre a uma velocidade impressionante. Dentro da água, em caso de ataque, é difícil escapar-lhe e geralmente o fim é trágico; ele é um exímio nadador.


Na manhã seguinte tirava-se a pele para secar, a carne comiam-na os abutres.
O peixe trazido pelos pescadores era aberto e seco com sal...
Eram assim os dias/noites quando ia para o acampamento no Lago Amaramba...
...M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O-S!


Iolanda Ribeiro.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

MACACHULA


Existem situações incríveis que nos deixam a pensar…
Há 2 anos atrás ouvi falar muito de um oftalmologista e resolvi procura-lo na esperança de um milagre…
Era um dia de inverno e chovia tanto! Lembro que entrei no consultório já de noite.
Quando chamaram pelo meu nome, fui ter com o médico do qual ouvia dizer maravilhas sobre operações á vista
Um cinquentão de cabelos brancos, charmosíssimo, bem-falante, e de uma simpatia extrema que me deixou encantada, mas também super desiludida com o prognóstico que me deu, mas isso é outra história…
Fui para casa derrotada, desiludida, mas com uma sensação incrível de familiarização com o rosto bonito e sorridente do médico.

Nos dias seguintes, aquilo não me saía da ideia e comecei a ligar os pontos: O nome, o ser de Moçambique (que já nem lembro porquê, essa conversa veio á tona) …tinha que ser ele!
O mundo é uma aldeia e existem coincidências incríveis!
E…quando voltei ao consultório, não resisti e tive que perguntar:
- O senhor Dtor não é o João Paulo que vivia na Matola e costumava ir para casa da “família Oliastro”?
Olhou-me de alto a baixo antes de responder:
- Sou…
- Eu sou a vizinha da frente…
O rosto dele iluminou-se mais ainda se possível e apertou-me num abraço alegre e com uma satisfação tão grande que me contagiou e de repente estávamos naquela época e recordamos tantas coisas! Sobretudo as noitadas em casa da “família Oliastro”, naquele tempo da guerra em que nos refugiávamos todos em casa do meu vizinho da frente, porque a casa tinha um esconderijo secrecto no sótão que usaríamos caso fosse preciso…
Os adultos munidos de armas, ficavam de vigia e nós (a malta nova), passávamos o tempo jogando cartas e conversa fora até adormecer-mos…
Inevitavelmente tivemos que falar dos nossos amigos, no fundo eu tinha uma certa esperança que ele me conseguisse dar algumas notícias sobre eles, mas nada de nada!
Estes acasos da vida por vezes desencadeiam lembranças que julgamos adormecidas para sempre no cérebro. Acontecimentos de vida que nos levaram a perder os nossos amigos de infância e adolescência e até os nossos pertences que eram parte integrante de todos nós e que ficaram para sempre perdidos na história de todas as nossas vidas!
Penso que estávamos em 1974…
Interiorizo o meu pensamento e volto a viver aqueles momentos que tinha jurado esquecer definitivamente, pois não gosto de recordações ruins, essas eu procuro bloquear no meu cérebro…
Mas porque África, quer queira-mos, quer não, mesmo a distâncias milenares, está sempre presente nas nossas vidas, já que as lembranças são uma constante em cada dia mais quente, em cada semelhante de pele cor de ébano que por nós passa, em cada supermercado que vende frutas tropicais e outros artigos. Em cada palavra, nome de certos utensílios, que por força do hábito, jamais deixaremos de utilizar. África mesmo longe faz parte do quotidiano de cada um de nós, que de lá veio…
A cidade de Lourenço Marques começava a dar indícios que tudo começava a despencar e brevemente estaria a ferro e fogo, cabia a cada um tentar salvar a pele, já que no meio de todo aquele caus, era a única coisa que importava.
Enquanto uns tentavam passar a fronteira para a Africa do Sul apenas com a roupa que tinham no corpo, e outros eram chacinados selvaticamente, havia ainda os que tentavam a sorte de conseguirem embarcar no primeiro avião que os trouxesse a porto seguro, neste caso a Metrópole!
Meu pai, teimoso e com as suas ideias mirabolantes, sentindo-se um “Tarzan rei na selva “já que era lá que se sentia bem e achava que lá estaríamos protegidos de todo aquele inferno, optou por nos fazer largar o conforto da nossa casa da Matola e rapidamente, antes que se fizesse tarde, metemo-nos ao caminho…
Decorridas já algumas 12 horas em que viajávamos por uma estrada interminável, o calor amolecia-nos, a roupa colava ao corpo transpirado, os pneus do jipe deixavam o rasto no alcatrão derretido pelo calor e o nosso destino, que só o meu pai conhecia, nunca mais chegava!
Foi uma viagem para esquecer, tal o desânimo, o desespero, a insatisfação de termos que suportar tudo aquilo que aos olhos do meu pai era a coisa mais natural do mundo, mas que para nós era a entrada para o inferno.


Há muito que havíamos saído da estrada de alcatrão e o jipe rodava lenta e cautelosamente por uma picada obrigando-nos a embrenharmo-nos mais e mais no coração da selva
Tinha perdido a noção de quanto tempo já havia passado, quando se nos deparou uma pequena aldeia indígena.
Logo fomos cercados por olhos escuros e curiosos, principalmente dos mufanas que davam mostras de nunca terem visto um ser humano de outra cor.
Meu pai falou com uns quantos homens em landim e de seguida continuamos por aquela densa selva sem trilho á vista, apenas seguiam alguns homens á frente que cortavam a ramagem das árvores e tentavam alargar uma clareira por onde o jipe pudesse passar…
Algum tempo depois, meu pai parou o jipe, mandou-nos sair, e encaminhou-nos para a beira de uma vala enorme, que em épocas de chuva seria um ribeiro, mas que naquela altura estava completamente seco e coberto de plantas verdejantes.
Pacientemente e por ordem dele, ficamos a aguardar, nem nós sabíamos o quê, mas aos poucos íamos percebendo o desenrolar da situação…
Entretanto começam a chegar mais homens que descarregam o jipe.
Convém salientar que íamos munidos de tudo o que era necessário para uma estadia prolongada e o mais confortável possível por aquelas paragens
Foram cortadas varias árvores de pequeno porte, mas muito fraudulentas e com elas cobriram o jipe, de maneira que se confundisse com a restante selva de uma densidade abismal
E então começou a nossa peregrinação a pé…
Alguns homens continuavam a abrir caminho com as catanas. Eu, meu irmão e minha mãe íamos no meio, em fila indiana, o meu pai logo atrás com uma arma na mão, não fosse aparecer alguma fera de repente, e os restantes homens atrás carregando todos os nossos pertences!
Não sei quanto tempo caminhamos, mas foi bem á vontade umas duas horas
Por fim o nosso destino…
O acampamento do “Macachula”, um negro forte e guerreiro que sempre acompanhava o meu pai pelo mato, ora em caçadas, ora em insistentes procuras de madeiras exóticas para o meu pai exportar para a África do Sul
Um acampamento com uma única palhota, um enorme cajueiro, uma mesa e cadeiras debaixo do cajueiro, por perto o típico fogão africano, que consistia numa fogueira com três pedras formando um triangulo, que serviam de base ás panelas onde cozinhavam os alimentos.
Foram colocados 2 colchões em cima das esteiras, junto do pé do cajueiro, que seriam as camas do meu pai e meu irmão.
A mim e minha mãe, foi-nos destinado a palhota como quarto…
A minha vista abarcou o horizonte possível de enxergar e foi-me dado observar por entre o matagal que estávamos junto a um rio de extenso caudal, mas que por ser época seca apenas corriam uns escassos fios, nuns lados mais largos, noutros mais estreitos, de água cristalina…
E, enquanto a minha mãe, (por gestos e tendo quando necessário o meu pai como interprete) e as mulheres do “Macachula” tentavam organizar a nossa estadia, corri a procurar o meu bikini e juntamente com o meu irmão rolamos por uma encosta abaixo desembocando no rio…
Por ventura nos lembramos dos crocodilos que poderiam ser os donos e senhores daquelas águas e em qualquer local poderiam estar á espreita de alguma presa fácil?!
Não!!
Não lembramos de nada disso, apenas aquela água que corria suavemente sem destino, nos convidava a entrar nela e foi divinal…
Podemos finalmente refrescar-nos e deliciarmo-nos, pois com aquela água ali á mão todo o resto era mais fácil de suportar, mas n demorou muito que n ouvíssemos o meu pai aos berros e a fazer sinais para que saíssemos dali rapidamente
Os crocodilos!
Ai os crocodilos!

Eu cá n vi nada…
Nem o meu irmão, mas corremos a bom correr para junto de meu pai que n largava a arma…
Fomos terminantemente proibidos de voltar para o rio.
“E agora que vamos fazer aqui neste fim de mundo sem nada de nada?”
O nosso velho rádio de pilhas era o meu companheiro, assim como o meu caderninho onde escrevia como se falasse com uma amiga imaginária…
Á noite acendia-se o petromax e á roda da fogueira víamos e ouvíamos as danças e cantorias das mulheres e filharada do “Macachula”, contarem as suas histórias que meu pai nos traduzia.
Ao longe, muito ao longe, via-mos os clarões das queimadas nas planícies, que se vislumbravam com mais intensidade durante a noite.
Logo pela manhã, as mulheres do “Macachula”, com as latas vazias á cabeça e os filhos nas costas, presos pelas capulanas, faziam as suas peregrinações a caminho de alguma nascente algures e traziam água para o acampamento.
Meu irmão inspecionando cuidadosamente a beira do rio, conseguiu descobrir um local onde poderia pescar e assim passava horas a pescar e por incrível que parecesse havia sempre uns camarõezinhos para o jantar, tal era a fartura dos ditos cujos!
O único conforto que sentia era á noite quando, ao lusco-fusco, depois dos banhos improvisados entre o matagal numa grande bacia, minha mãe e eu nos íamos deitar nos lençóis brancos e macios que cheiravam a saudade da nossa casa da Matola.
Numa dessas noites quentes de céu estrelado, tendo como música de fundo o piar das aves noturnas e o coaxar das rãs no rio e o petromax dava uma ajuda á pouca claridade da lua, eu preparava-me para mais uma noite na palhota…
Já lá dentro e disposta a deitar-me lembrei-me que não tinha dado o meu beijo de boa noite ao meu pai como era de praxe. Levantei-me e abri a improvisada porta de madeira cheia de gretas, por onde entrava o ar que circulava dentro da palhota, mas um enorme baque no chão fez-me recuar e dar um grito, o “Macachula” de catana na mão, como um guardião, sempre espreitando o perigo, correu para a entrada da palhota e como quem corta cebola em cima de uma tabua, deu umas valentes catanadas numa cobra enorme que estava na porta e quando eu a abri, caio no chão. Ainda hoje me arrepio só de pensar que durante a noite poderia ter um encontro imediato com aquela horrível criatura.
Fiquei em choque e naquela noite não dormimos dentro da palhota
As notícias iam chegando pelo rádio aquele fim de mundo e só passados uns 15 dias meu pai resolveu que era chegada a hora de retornarmos para a civilização
A guerra é tramada, é bem pior que todo o desconforto que passamos, bem pior que qualquer selva cheia de perigos, era o que íamos percebendo á medida que nos aproximávamos de novo de Lourenço Marques…
Casas queimadas que ainda fumegavam, autocarros cheios de gente carbonizada, pessoas errando sem destino…
A entrada na minha rua fez-se em silêncio, a própria rua era um silêncio de morte, deserta, de casas com portas abertas, desocupadas, pois os meus vizinhos, na ansia de quererem fugir, deixaram tudo para trás. Apenas o nosso vizinho da frente e já de malas feitas também, ainda restava, pois a família já tinha passado toda para a África do Sul. Foi aí que perdi o rasto aos meus amigos…


A nossa casa continuava ali impecável á nossa espera e foi como entrar num santuário que nos resguardaria de todos os perigos. É com imensas saudades que recordo a minha casa grande, muito grande, com enormes janelas, já naquele tempo com grades, todas as janelas de todas as casas tinham grades. A porta da “copa” com duas portas, típico costume em países tropicais. O meu quintal era grande, com muitas árvores de frutos. Ao fundo do quintal era a garagem e logo por detrás, os aposentos do meu “mainato”, que naquela altura do campeonato já nem o tínhamos, pois a situação tornava as pessoas desconfiadas.

Percebíamos, nos sons distantes de rajadas de metralhadora que o perigo continuava a rondar
E foi quando começou a germinar a ideia na cabeça do meu pai, que a melhor opção era virmos para a Metrópole…
Retornados ou refugiados, chamem-lhe o que quiserem…mas são cicatrizes que jamais irão sarar!


Celeste Vieira



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Saudades da minha terra.



Saudades de África

De tempos a tempos sinto saudades de África, pela ausência de um conjunto de coisas que se vivem lá e que cá não se têm, sobretudo quando o frio me enregela os movimentos e me esfria os sentidos.



Tenho saudades do calor intenso salpicado por uma densa humidade, do cheiro misturado a terra molhada com frutas frescas, da sensação que por lá o tempo pára, permitindo-nos vivências redobradas, da ilusória receptiva disponibilidade que se procura ter entre todos, sem na verdade se ter.


Tenho saudades das praias de águas tépidas e transparentes habitadas por uma infinidade de espécies, das areias finas e dos coqueiros que, de vez em quando, libertam de forma natural um fruto, emitindo um som inigualável.


Tenho saudades da vegetação e dos animais, da vida ao ar livre e em contacto com a natureza, onde se aprende por observação directa, escutando as explicações de quem nos parece ter nascido ensinado, com dons e conhecimentos próprios, só possíveis naquelas terras, que vão sendo transmitidos de pais para filhos, sem paragens.

Tenho saudades de rir sem parar, de me sentir criativa quando procuro conchas ou cocos para decorar interiores, depois de os tratar e envernizar, de ouvir músicas ternas e envolventes, de inventar receitas para partilhar com um alguém que sinto como especial.




Tenho saudades dos mercados e das palaiês, das frutas e de tudo quanto se pode fazer com elas, dos peixes com nomes estranhos e do marisco com os mesmo nomes e aparências diferentes.


Tenho saudades de sentir saudades da civilização e do desenvolvimento, do cinema e do frio, dos livros e de vinhos caros, do conforto e de um centro comercial onde se possa gastar dinheiro a comprar coisas que nunca nos farão falta.


Tenho saudades até um dia voltar.

in  http://africadetodossonhos.blogspot.pt/





domingo, 28 de abril de 2013

ÁFRICA - O BERÇO DA PAIXÃO


E agora?
Agora é limpar as lágrimas, engolir em seco, aguentar a frustração e esperar que o tempo passe…
Não dizem que ele é um bom aliado para os males do coração?!
Mas...
O pior é conseguir fazer parar o pensamento!
Como se faz isso?!
Dá-se umas cabeçadas na parede,abana-se o cérebro e tudo se esquece?
Se assim fosse…
Todos os desencantamentos amorosos se resolviam facilmente
Sente-se um aperto no peito, o coração oprimido, a alma em frangalhos
E dói dilaceradamente…
Dói sobretudo a renuncia, a certeza de que não se pode voltar atrás, nem no tempo, nem nas palavras…
Juntam-se todos os pedacinhos de cada recordação e reconstitui-se a história:
Recua-se algumas décadas, mais de três, quase quatro…
Tenta-se reunir, na lembrança cada acontecimento vivido naquela época
São momentos únicos de pura nostalgia, puro deslumbramento de uma vivencia feliz numa terra colorida, com os seus cheiros e costumes tão peculiares e tão distantes no tempo e nos quilómetros...
Quem dera poder retroceder
E começar de novo...
Aquele rostinho moreno de menino na flor da idade
 
E ela...
Uma menininha meiga e tímida…
O sol quente, tão quente como só África tem…
O farfalhar das folhas das palmeiras
O caminhar naquele chão de terra vermelha
O murmurar das águas calmas e mornas
A brisa da baía trazendo o cheiro a maresia
Hummm…
Respira-se fundo
Enche-se o peito de ar
E principalmente de alegria de viver
 
De sonhos cor-de-rosa
De uma paixão desmedida pela vida
De amor…
Amor puro de adolescente!
O brotar de um sentimento novo
É assim que a vida tem valor…
O calcorrear as vegetações á beira da baía á procura dos batráquios que se levam para a aula de ciências, onde são dissecados e estudados
A professora é um fenómeno de ideias inovadoras
E as aulas…
Sempre de uma animação impar
Os olhares que se trocam
O toque simples e inesperado das mãos…
O bater apressado do coração
Um tempo tão curto!
Mas ao mesmo tempo…
Um tempo tão preenchido
Que jamais se esquece…
Principalmente porque:
Ele deixou-lhe uma pequena lembrança
Aquela foto...
Que ela guarda anos a fio com especial carinho e sem saber porquê!
Os tempos mudam
E as redes sociais fazem milagres!!
Uma ideia surge...
Porque não procura-lo no FB?!
Basta escrever o nome e um simples clique
E...
Ei-lo!
A primeira impressão:
Meu Deus
Não pode ser...
Nem parece ele!
Mas depois de examinar bem algumas fotos
É ele…
Sem sombra de duvida
É ele!!
Aquele momento nada significa
Assim como não significam os meses seguintes em que se troca uma ou outra palavra…
Ele lembra-se!!
Vivem em países distantes, com vidas tão opostas e com 5 horas de fuso horário diferente, que raramente se conseguem encontrar na net, para uma breve troca de palavras…
Porém…
O destino,
Só pode ser o destino que apronta e desapronta, que começa e termina historias que nunca passarão disso mesmo!!
“Oi boneca…
Estou no Panamá, dentro do avião á espera que descole a caminho de NYC
Se deixares de me lêr
É porque o avião levantou voo”
São minutos esfusiantes, carregados de sentimentos contraditórios, recordações…
A partir daí, começa a troca de emails, as chamadas telefónicas…
A promessa e um reencontro…
E só se vive para isso!
Que se dane todo o resto
Mas…
As mentalidades chocam
Por vezes existem palavras e atitudes
Contraditórias
Incompreensíveis
Que agridem
Magoam
Ferem…
A distância impede o diálogo
Surge o caus
O inconformismo
A insegurança
As cobrança
O desentendimento
O afastamento...
Depois vem a ressaca
O arrependimento...
Ela devia ter sido mais tolerante
Mais paciente
Menos impulsiva
Menos vingativa
Mas não...
Deitou tudo a perder
E agora?!
Que fazer?
nada!!

Dói, dói, dói...
Mas nada do que ela possa fazer ou dizer,remediará alguma coisa!
Pois...ele diz que nada nunca mais mudará nada
É o afastamento total, radical, determinado...
Resta a dura realidade de que faça o que fizer, diga o que disser, ele não voltará a dirigir-lhe a palavra
Uma certeza porém, que teima em não querer aceitar...
Era uma história inacabada e que apenas voltou para por termo a algo que tinha ficado mal resolvido no passado
As histórias reais são assim...
Nem todas terminam bem
E, esta foi apenas mais uma
Mas a esperança, essa... só os anos que estão por vir, a fará esmorecer!

M. C.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

...o que nos devia unir...


…”Nas últimas semanas que passou em Lourenço Marques, Inácio Ribeiro comprou todas as ferramentas que conseguiu. Depois dos acontecimentos de 7 de Setembro de 1974, sabia que não poderia ficar muito mais tempo em Moçambique e recusava-se a deixar lá as poupanças que amealhara à custa de uma vida de trabalho como torneiro mecânico e das rendas de um prédio que construíra na Rua de Portalegre, no bairro da Malhangalene.
 
Levantava dez mil escudos por semana – o máximo permitido – e guardava o dinheiro num cofre escondido debaixo de dois azulejos com fundo falso junto à banheira em vez de o entregar aos cuidados do Consulado de Portugal como fizeram muitos portugueses. Depois de constituir uma reserva, estudou a melhor maneira de levar consigo mais do que os cinco mil escudos regulamentares. Como as notas não lhe valeriam de nada , converteu o dinheiro em objetos para enviar por via marítima e vender na metrópole.
 
O investimento era arriscado porque a Frelimo considerava sabotagem económica retirar de Moçambique automóveis, motos e uma série de outros bens. Se o mandassem abrir os caixotes, teria sarilhos, mas ou arriscava ou ficava sem nada. Disfarçou as cargas proibidas o melhor que pôde: desmantelou uma moto Suzuki vermelha nova e escondeu as peças num contentor; encaixou um faqueiro de prata dentro da porta de um Alfa Romeo Sud pago à última hora e encheu o depósito de combustível com moedas de vinte escudos.

“Descobri que eram feitas de uma liga de prata e trouxe as que consegui. Não andei a vendê-las na rua, mas houve uma casa de penhores que as comprou ao quilo.” Com o resto do dinheiro adquiriu cinquenta caixas de folha de serrote e várias ferramentas de elevada qualidade que dissimulou no meio das mobílias. Deu-se ao trabalho  de desparafusar  a placa de isolamento da porta do frigorifico para esconder os títulos de propriedade do prédio da Rua de Portalegre, na esperança de um dia poder provar que era o dono do imóvel.

Estava preparado para despachar tudo por via marítima e enfrentar as consequências se fosse descoberto quando um conhecido lhe perguntou:



“Senhor Inácio, quer que não abram os seus caixotes?”

O homem explicou-lhe que, por uns trocos, alguns elementos da Frelimo estavam dispostos a fechar os olhos ao que saía do país. E Inácio, como muitos milhares de portugueses a quem foi dada essa oportunidade, nem hesitou.
Cada um transportou o que pôde: na maioria dos casos, carros, motos, algumas mobílias e objetos de estimação. Mas quem tinha jóias ou diamantes fez os possíveis por os levar consigo, sabendo que teriam sempre valor em caso de necessidade…”

 

“Na década de 1970, este era um cenário comum em Portugal, sobretudo nos meios rurais. Em todo o país, apenas 29% das casas tinham, em simultâneo, água canalizada, eletricidade, banheira e retrete; em Lisboa o valor subia para 51%, mas, em Bragança, não passava dos 8%, ficando a maioria das habitações privadas destas condições básicas. No Alentejo, a situação não era muito diferente.”…



In “Os que vieram de África” de Rita Garcia


...quando pedi uma Coca-Cola disseram-me que não havia...
…para os que vieram de África tudo isto significava um atraso que os surpreendeu e criou outro desanimo em relação ao futuro que os esperava…no entanto, considero que o que nos une não é só a saudade da terra que nos viu nascer e crescer…não é só a saudade do contacto estreito, direto e até diário com a natureza esplendorosa…não é só os laços de amizade e fraternidade…o que nos une é também o desprezo com que fomos recebidos nesta terra que diziam ser a nossa Pátria…o que nos une é a forma como fomos violentados…o que nos une é, ainda, a sigla desprezível com que nos marcaram para toda a vida...retornados…eu que nem aqui nasci e cresci…eu que ainda hoje leio no meu cadastro fiscal a informação de Nacionalidade: NÃO PORTUGUÊS.
…para que a nossa memória não seja curta…é tudo isto que nos devia unir…

 

João Neves



 

segunda-feira, 25 de março de 2013

As tradições dos Macuas


As tradições dos Macuas
Por: ALBERTO VIEGAS

Os Macuas - povo da floresta - são uma tribo de origem banta. Em tempos habitavam na zona dos Grandes Lagos (República Democrática do Congo). Depois deslocaram-se em direcção ao sul da África. Actualmente são o grupo étnico mais numeroso de Moçambique. Eles são um povo caracterizado pela sua inclinação natural para o sorriso, que se traduz muitas vezes em sonoras e prolongadas gargalhadas.

Para a tribo Macua, o sorriso é um sinal de amizade e de que se pode criar uma boa relação. Quando chega alguém que não conhecem, sorriem-lhe na mesma. Deste modo, ele saberá que não tem nada a temer.
Os macuas recorrem também ao sorriso para apagar as ofensas. O ofendido, por sua vez, espera que aquele que o ofendeu lhe retribua outro sorriso para demonstrar que não queria ferir-lhe o coração. Basta um sorriso e acontecerá a reconciliação.
 
Há, porém, momentos em que os macuas não riem nunca: perante uma pessoa com deficiências mentais, um idoso ou durante uma celebração solene.
A hospitalidade é outro valor muito importante para a tribo macua. Por mais pobres que sejam, todas as famílias possuem sempre uma habitação reservada para os hóspedes, os parentes, os amigos ou os peregrinos e partilham com eles tudo quanto têm, a ponto de oferecer ao recém-chegado a própria cama, onde eles dormiram nessa noite.
Quando um desconhecido chama à porta da cabana, se tem saúde, os donos da casa perguntam-lhe onde vivem os seus parentes. Mas se é um doente, não lhe fazem qualquer pergunta. Acolhem-no sempre.
Se a família está a tomar uma refeição, o hóspede não pode recusar-se a tomar assento e comer com eles, tomando o alimento do prato de onde se servem todos, o qual está colocado ao centro. Se, porventura, o hóspede recusa, isto é uma grave ofensa para a família que o acolhe. Mesmo que não tenha apetite, deve lavar as mãos, comer do que a mulher cozinhou e voltar a lavar as mãos.

A saudação entre as pessoas é feita quase que ao modo de um ritual. Quando saúdam um chefe ou cujo cargo obriga a uma consideração particular, fazem-no de modo humilde e respeitoso. Se se aproximam de frente, acompanham as palavras de saudação com um rítmico bater das mãos.
 
Aquele que encontra um grupo de pessoas reunidas, sempre que alguém do grupo se aproxima para o saudar, pousa primeiro no chão, a uma certa distância, tudo o que leva na mão. Saúdam-se sempre com a mão direita, a mão forte, mostrando claramente que não guarda nada contra ele. O saudado não tem nada a temer.
Se a saudação for feita com a mão esquerda, considerada a mão débil e inofensiva, pode sugerir que na outra mão há um punhal. O melhor é usar sempre as duas mãos, infundindo deste modo maior confiança e tranquilidade.
 
Os anciãos recebem uma grande veneração entre os macuas. Ninguém dirige a palavra a um ancião estando de pé. Este sentir-se-ia ofendido. Pelo contrário, aquele que lhe fala senta-se ou põe-se de cócoras.
Nas refeições, o primeiro a lavar as mãos, na única bacia que passa por todos, é o ancião. Também é ele que se serve primeiro dos alimentos e que dá início à refeição. Ao ancião, compete ainda ser o primeiro a terminar a refeição. Todos os outros, mesmo que não tenham apetite, devem continuar a comer. O ancião merece todo o respeito.
No dia-a-dia, quando um jovem está sentado numa cadeira, numa pedra ou no chão, mas num lugar mais elevado, quando passa um ancião terá que descer e, pelo menos, pôr-se de cócoras.
Um valor muito importante entre os macuas é a solidariedade. Unem-se solidariamente de modo particular face à doença. Quando numa família alguém adoece, todos os vizinhos se sentem obrigados a fazer-lhe uma visita, de manhã cedo ou à tardinha. E ninguém vai de mãos vazias, mas com comida, água, lenha...
Se o doente piora, o chefe da família vizinha e outros adultos dormem junto à casa, velando no aprisco e sempre prontos para prestar uma ajuda quando for preciso.
No caso de morte, a solidariedade aumenta. Há quem se ofereça para ir avisar os parentes que vivem mais longe. Outro cava a sepultura. Outro ainda encarrega-se de arranjar o lençol para envolver o defunto. Entretanto, já se reuniram as pessoas que lavarão o corpo. As mulheres vão buscar a água e preparam a comida para todos os presentes.
 
Depois do funeral, os parentes e vizinhos passam três noites consecutivas na casa da família enlutada. Ao quarto dia, varre-se a casa e limpa-se o pátio. Passado um mês de luto, corta-se o cabelo à viúva e aos outros membros da família e os hóspedes regressam às suas casas.

 
 
 
 
 

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

VOZ DA SELVA

Rondava o ano de 1968/69
Por imposição de trabalho da Serração Mecânica, com sede em Lourenço Marques, meu pai teve que mudar-se com armas e bagagem para um acampamento no meio do nada em plena selva Moçambicana.
Nós (eu, meu irmão e minha mãe), sem termos voto na matéria, tivemos que o acompanhar…
Hoje, recordando o passado, sou feliz e agradeço a meu pai, por ter vivido de perto e na primeira pessoa, acontecimentos tão enriquecedores que só aquela África que nós tanto amamos, nos proporcionou.
Escolhi esta historiazinha, porque é uma sequência de vários acontecimentos que se desenrolaram na mesma altura:
Se bem me lembro, chegamos ao Litane, numa manhã cinzenta e orvalhada pelo cacimbo da noite.
O cenário pareceu-me tão desolador que ainda hoje o comparo com um campo de guerra depois de uma batalha…
Uma clareira, a centenas de quilómetros da povoação mais próxima, onde havia sido desbravada alguma floresta para assim poderem instalar um acampamento. Nele constava uma serração de madeiras, que era o posto de trabalho do meu pai, uma pequena casinha de madeira, pintada de cinzento com o telhado de chapa galvanizada com uma enorme varanda, que seria a nossa casa, uma cantina que era onde os empregados se abasteciam de tudo o que precisavam, desde alguns alimentos, roupa, calçado, etc.
Nas zonas circundantes, por entre as árvores e extenso matagal que nos rodeava, viviam os negros, empregados da serração, que ali se deslocavam todos os dias para exercerem as suas funções e onde meu pai era o encarregado…
As noites silenciosas de África eram únicas, apenas interrompidas pelo coaxar das rãs e pelo pipilar das aves nocturnas.
Nós gostávamos de nos deitarmos nas esteiras no chão, tendo o céu estrelado como tecto e ouvíamos a VOZ DA SELVA, uma emissora Sul-africana, proibida, mas naquele fim de mundo, nada era proibido!
As noites mais animadas eram aquelas em que o meu pai ia à caça e nos levava, por vezes, só regressávamos de manhã, pois perdíamo-nos, já que os guias que levávamos embebedavam-se e esqueciam os caminhos…
No dia seguinte a uma caçada, havia sempre festa no acampamento, pois o meu pai distribuía a carne pelos empregados.
O acontecimento que mais me marcou naquele ano de 69 foi a morte do meu cão “Paulino”pois teve uma morte horrível e isso quase que nos atingiu fisicamente…mas passo a explicar:
Uma manhã, surgiu lá no acampamento um cão enorme com um comportamento muito estranho.
O Mafaiate (nosso empregado) quando se apercebeu foi logo chamar o “patrão” (meu pai), mas quando ele lá chegou já o dito cão tinha feito estragos irreparáveis:
Surgiu na minha frente, mas tentou atirar-se a minha mãe, que entretanto pegara numa vassoura, felizmente, para nós, o “Paulino”desviou a atenção do dito cão para ele e, azar do meu cãozinho, foi o escolhido para ser uma bola, debaixo das patas enormes daquela fera enraivecida.
Quando o meu pai chegou, já o dito cujo tinha abalado.
O “Paulino”estava todo mordido mas vivo, embora bastante combalido.
Meu pai tratou dele e quando melhorou, prendeu-o ao fundo da machamba, pois achava que o cão tinha sido contaminado, estava com raiva e ia morrer….
Fiquei chocadíssima!!!A machamba era cercada por tábuas muito altas, para proteger as hortas dos animais selvagens, que por onde passavam destruíam tudo.
Sempre que eu podia ia pelo lado de fora da machamba e espreitava por entre as tábuas para ver o meu bichinho, não via nada de anormal, apenas via tristeza nos olhos dele e achava que era por estar preso. Meu pai achando que se tinha enganado no prognóstico, resolveu soltá-lo passadas algumas semanas, já que ele aparentava estar muito bem, mas apesar de não nos fazer mal, ele atirava-se aos restantes cães, coisa que anteriormente não acontecia….
Voltou a ser preso e pouco depois teve vários ataques de fúria contra o Mafaiate, pois era ele que o tratava, deixou de comer e quando o fui espreitar pela ultima vez, olhou-me com ódio, ou talvez com loucura, sim…hoje acho que dos olhos dele emanava loucura!!
Com o cão morto, havia a incerteza se também estávamos contaminados pois brincávamos com ele…
Nessa mesma manhã com toda a urgência possível, meu pai mandou preparar o Land Rover e partimos rumo a Maoel, o acampamento mais próximo que de nós se encontrava…
Mas…e porque, todos os dias, tínhamos um camião que se deslocava de Maoel ao Litane a fim de transportar as madeiras que meu pai preparava na serração e que depois eram exportadas para a África do Sul, e que também, nos abastecia de tudo o que era necessário, o motorista e seu ajudante, já havia alguns dias que se queixavam que era complicado passar, pois andava um búfalo ferido que os esperava no caminho e por vezes os fazia perder muito tempo, uma vez que o búfalo era teimoso e não se desviava do trilho por onde a Izuzu tinha que passar.
Nessa manhã e temendo o encontro com o búfalo, meu pai que era um amante inveterado da caça grossa e como sempre fazia, quando nos deslocávamos para algum lado no mato, metemo-nos os quatro dentro da cabine do jipe e com uma arma de caça grossa ( carabina calibre 375) em cima das nossas pernas, que normalmente ia dentro do respectivo saco, mas daquela vez e por ter receio de não ter tempo, se o búfalo aparecesse até ia fora do saco e pronta a disparar…
E o inevitável aconteceu…na zona onde o motorista dizia que o búfalo aparecia, meu pai afrouxou a marcha do jipe e todos nós apurámos a visão na esperança de o vermos e a certa altura minha mãe diz:

-Estou a ver qualquer coisa a mexer junto daquela árvore,!!


Meu pai que, repentinamente, também se apercebeu, saiu porta fora do jipe mesmo com ele em marcha lenta e até se esqueceu de o parar, por sorte nossa, o trilho era tão fundo que o jipe acabou por parar sem sair da picada.
Meu pai mandou dois tiros para aquele vulto enorme por entre as árvores, esperou uns segundos e avançou mais um pouco com a arma em posição de fazer fogo novamente caso fosse preciso, mas perdeu de vista o tal vulto e temendo ir mais em frente e já que o nosso tempo urgia, voltou para junto de nós, pegou numa catana e foi dar umas catanadas na árvore onde o búfalo estivera encostado, para marcar o sitio, pois na nossa volta era propósito do meu pai procurar o bicho
Seguimos o nosso destino até Maoel onde chegamos já tarde avançada
Dirigimo-nos a casa do Sr. Gonçalves, a quem contamos o sucedido e depois de comermos algo partimos rumo a Manjacaze, onde se encontrava o hospital mais próximo.
Não recordo bem, mas tenho uma vaga ideia de que fomos logo atendidos com toda a urgência e começamos por levar uma injecção na barriga, cada um, e isso continuaria dos dias seguintes durante uma semana. Depois de medicados, meu pai resolve voltar para Maoel, onde esperávamos ir jantar e pernoitar, mas o jipe depois de algumas horas de caminhada resolve pregar uma partida e quedou-se num sítio onde não se via viva alma e ali tivémos que passar a noite os quatro dentro da cabine do jipe e por sorte, meu pai à saída do Litane disse para minha mãe pôr mantas no jipe pois nunca se sabia o que nos esperava e bom jeito nos fizeram…

Ao romper da madrugada, passaram uns franceses que pararam e nos ofereceram café e bolos, logo de seguida passou um padeiro que ia fazer a distribuição do pão, porque afinal de contas até nem estávamos muito longe da povoação Álvaro de Castro. Meu pai aproveitou a boleia do padeiro e foi ver se arranjava um mecânico para arranjar o jipe.
Passado algum tempo regressou com outro jipe que “chovou” o nosso até á oficina do mecânico e enquanto que se arranjava o jipe fomos almoçar a casa do administrador de Álvaro de Castro que por coincidência o meu pai já conhecia e que já não se viam havia muitos anos.
Depois do jipe arranjado, retornamos para Maoel, isto numa sexta-feira de tarde, onde jantámos e pernoitámos em casa do Sr. Gonçalves.
No sábado de manhã e depois de termos levado outra dose na barriga, regressámos ao Litane com as restantes injecções onde o enfermeiro de Maoel iria todos os dias dar-nos as que faltavam.
Quando de novo passamos no sítio onde o meu pai tinha dado os tiros ao búfalo, meu pai parou o jipe e inspeccionou o local, mas não se sentindo muito á vontade achou por bem continuar-mos para o Litane e então no Domingo manhã cedo reuniu uns quantos homens e munidos de catanas e alguns cães partiram ao encontro do dito búfalo.
Ao fim da manhã o meu pai estava de volta com o bicho e ainda quente pois tinha morrido naquela manhã.
Foi uma grande festa no acampamento, pois a carne foi toda distribuída pelos empregados da firma.
Esta, entre outras histórias, fizeram a história do meu percurso por aquela terra mágica que jamais esqueceremos e quem nasceu ou viveu e passou por situações idênticas, sabe bem do que falo…
Que todas as recordações da nossa África nos façam felizes pois tivemos um passado rico de experiências, nem todas boas é certo, mas vivemos um mundo de aventuras múltiplas, temos um passado digno de ser recordado, porque afinal,

Lá…

...VIVEMOS !!!

...e não apenas… PASSAMOS PELA VIDA!!!


A todos um bem-haja.



...DEDICO ESTA NARRATIVA AO MEU PAI
RECENTEMENTE FALECIDO...


                                    Maria Vieira

sábado, 17 de outubro de 2009

Olá


Olá
Sou a Alda, nova participante nesta tribo. O Gerente convidou e eu aceitei.
Não sou macua, mas ele acha que eu tenho alma macua.
Quem sou eu afinal? 
No meu perfil algumas palavras me definem, mas eu sou alguém, como todos vós, que viveu numa terra linda, paradisíaca , Moçambique - (Inhaminga, Dondo e Beira). Tinha 12 anos apenas, estava no início da minha adolescência, quando amigos, familiares e sonhos foram deixados para trás.
É com lágrimas nos olhos que recordo o dia 30 de Dezembro de 1974. 
Tantos anos passaram e as memórias permanecem. Memórias: de acordar cedinho e sentir o cheiro do capim molhado da cacimba; do sabor daquele cajú que eu própria assava no meu quintal; de subir a uma mangueira, apanhar mangas verdes, comê-las com sal e, depois, á noite sentir dores na mimba (barriga) e ouvir os ralhetes da mãe; ver o pôr do sol escaldante e cheirar o ar que trazia o aroma de uma queimada ao longe; de adormecer ao som das marimbas, lá longe, muito longe, tiritiriri.....
já li textos de outros xamuares e , de facto, há coisas que nos unem, a memória de  uma infância, adolescência e adultez felizes, conforme a época das nossas vidas lá passada. Hoje, através da net, ela tinha de ser mesmo inventada para nós, não é verdade???? encontramo-nos, alguns já não é possível, pois, partiram, fica a memória e a saudade. Cabe, então, a nós que ainda cá estamos fazer perdurar essa memória.
Hoje fico por aqui .... até á proxima ...


E... obrigada João pelo convite.