segunda-feira, 25 de março de 2013

As tradições dos Macuas


As tradições dos Macuas
Por: ALBERTO VIEGAS

Os Macuas - povo da floresta - são uma tribo de origem banta. Em tempos habitavam na zona dos Grandes Lagos (República Democrática do Congo). Depois deslocaram-se em direcção ao sul da África. Actualmente são o grupo étnico mais numeroso de Moçambique. Eles são um povo caracterizado pela sua inclinação natural para o sorriso, que se traduz muitas vezes em sonoras e prolongadas gargalhadas.

Para a tribo Macua, o sorriso é um sinal de amizade e de que se pode criar uma boa relação. Quando chega alguém que não conhecem, sorriem-lhe na mesma. Deste modo, ele saberá que não tem nada a temer.
Os macuas recorrem também ao sorriso para apagar as ofensas. O ofendido, por sua vez, espera que aquele que o ofendeu lhe retribua outro sorriso para demonstrar que não queria ferir-lhe o coração. Basta um sorriso e acontecerá a reconciliação.
 
Há, porém, momentos em que os macuas não riem nunca: perante uma pessoa com deficiências mentais, um idoso ou durante uma celebração solene.
A hospitalidade é outro valor muito importante para a tribo macua. Por mais pobres que sejam, todas as famílias possuem sempre uma habitação reservada para os hóspedes, os parentes, os amigos ou os peregrinos e partilham com eles tudo quanto têm, a ponto de oferecer ao recém-chegado a própria cama, onde eles dormiram nessa noite.
Quando um desconhecido chama à porta da cabana, se tem saúde, os donos da casa perguntam-lhe onde vivem os seus parentes. Mas se é um doente, não lhe fazem qualquer pergunta. Acolhem-no sempre.
Se a família está a tomar uma refeição, o hóspede não pode recusar-se a tomar assento e comer com eles, tomando o alimento do prato de onde se servem todos, o qual está colocado ao centro. Se, porventura, o hóspede recusa, isto é uma grave ofensa para a família que o acolhe. Mesmo que não tenha apetite, deve lavar as mãos, comer do que a mulher cozinhou e voltar a lavar as mãos.

A saudação entre as pessoas é feita quase que ao modo de um ritual. Quando saúdam um chefe ou cujo cargo obriga a uma consideração particular, fazem-no de modo humilde e respeitoso. Se se aproximam de frente, acompanham as palavras de saudação com um rítmico bater das mãos.
 
Aquele que encontra um grupo de pessoas reunidas, sempre que alguém do grupo se aproxima para o saudar, pousa primeiro no chão, a uma certa distância, tudo o que leva na mão. Saúdam-se sempre com a mão direita, a mão forte, mostrando claramente que não guarda nada contra ele. O saudado não tem nada a temer.
Se a saudação for feita com a mão esquerda, considerada a mão débil e inofensiva, pode sugerir que na outra mão há um punhal. O melhor é usar sempre as duas mãos, infundindo deste modo maior confiança e tranquilidade.
 
Os anciãos recebem uma grande veneração entre os macuas. Ninguém dirige a palavra a um ancião estando de pé. Este sentir-se-ia ofendido. Pelo contrário, aquele que lhe fala senta-se ou põe-se de cócoras.
Nas refeições, o primeiro a lavar as mãos, na única bacia que passa por todos, é o ancião. Também é ele que se serve primeiro dos alimentos e que dá início à refeição. Ao ancião, compete ainda ser o primeiro a terminar a refeição. Todos os outros, mesmo que não tenham apetite, devem continuar a comer. O ancião merece todo o respeito.
No dia-a-dia, quando um jovem está sentado numa cadeira, numa pedra ou no chão, mas num lugar mais elevado, quando passa um ancião terá que descer e, pelo menos, pôr-se de cócoras.
Um valor muito importante entre os macuas é a solidariedade. Unem-se solidariamente de modo particular face à doença. Quando numa família alguém adoece, todos os vizinhos se sentem obrigados a fazer-lhe uma visita, de manhã cedo ou à tardinha. E ninguém vai de mãos vazias, mas com comida, água, lenha...
Se o doente piora, o chefe da família vizinha e outros adultos dormem junto à casa, velando no aprisco e sempre prontos para prestar uma ajuda quando for preciso.
No caso de morte, a solidariedade aumenta. Há quem se ofereça para ir avisar os parentes que vivem mais longe. Outro cava a sepultura. Outro ainda encarrega-se de arranjar o lençol para envolver o defunto. Entretanto, já se reuniram as pessoas que lavarão o corpo. As mulheres vão buscar a água e preparam a comida para todos os presentes.
 
Depois do funeral, os parentes e vizinhos passam três noites consecutivas na casa da família enlutada. Ao quarto dia, varre-se a casa e limpa-se o pátio. Passado um mês de luto, corta-se o cabelo à viúva e aos outros membros da família e os hóspedes regressam às suas casas.

 
 
 
 
 

sábado, 16 de março de 2013

Joana Simeão...e o 7 de Abril...em Moçambique...


...à procura da verdade...um simples contributo para a história...em homenagem a todos aqueles que sofreram na carne...a todos os que perderam a vida por...um País mais livre, justo e fraterno...


"Aos alunos…Dra Joana Simeão.
Dei hoje a minha demissão.
Chegou a hora do adeus.
Passámos juntos horas de franca camaradagem, misturadas de momentos de guerra fria , sem dúvida.
Agradeço-vos estes momentos de vivência profunda.
A hora é grave.
Eu estou a 100% no combate por um Moçambique Livre, Justo e Fraterno.
Notas (escolares): Serão justas. Ninguém ficará lesado.

Abraços Joana Simeão"




A Mulher é a guardiã  da espiritualidade humana.
É a matriz da vida.
É a personificação da grande Deusa.
É a que acolhe, cria e desenvolve os processos de vida.
É a perfeição mais perfeita e completa do Universo.
Contudo, todos estes atributos podem não passar de poesia quando olhamos para o passado e presente da mulher no nosso país.
Esta reflexão vem a propósito de mais um 7 de Abril, dia consagrada pela Frelimo como sendo o dia da mulher moçambicana.
Em Moçambique, na fase pós-independência, a constituição da primeira República estabeleceu direitos iguais para homens e mulheres. Não obstante este facto, a situação da mulher em Moçambique continua a ser influenciada predominantemente pela tradição e pelas atitudes e estruturas do passado. A falta de capacidade de gerência para o melhoramento das receitas e da segurança alimentar das famílias; a persistente divisão do trabalho na base do género; o analfabetismo, o HIV/SIDA e a mortalidade materno infantil têm constituído obstáculos para a participacao da mulher em novos empreendimentos e na vida pública. Os dados oficiais apontam que Moçambique tem mais de 19,889 milhões de habitantes (2006). Mesmo considerando a existência de alguns centros urbanos relevantes como Maputo, Beira e Nampula, a maior parte da população vive nas áreas rurais, distante das principais vias de comunicação. E, para o “agrado” do “género masculino”, a maioria de cidadãos é constituída por mulheres.
Sendo a maioria de cidadãos residentes em áreas rurais, não deixa de ser conveniente, oportuno e urgente apelar que se reforce o olhar para o empoleiramento da mulher a partir do própria zona rural. É um exercício difícil se feito a partir do ponto em que me encontro (cidade capital e zona privilegiada dessa cidade). O que me importa afirmar nesta data consagrada a mulher em Moçambique é que chega de discursos prenhes de maquiavelismos, com alguns a acumularem privilégios pessoais nas cidades em nome da mulher rural. Na verdade, o que se assiste é uma grande exclusão deste grupo de mulheres na gestão e solução dos seus próprios problemas, quer à nível local, nacional e internacional. Penso que é tempo da mulher rural ocupar o seu espaço, na qualidade de legítima porta-voz dos seus problemas, e não permitir que o seu espaço continue a ser usurpado por mulheres que nada têm a haver com a sua realidade. E pode-se tomar como exemplo o que existe noutros quadrantes. Os governos da Índia, China, Bangladesh, Brasil e alguns países da América Latina são pioneiros na promoção da mulheres rurais, criando-lhes condições para a sua participação directa nos fóruns regionais, internacionais e outros, como forma de as estimular na área especifica em que estão inseridas, pois entende-se que a zona rural é a base de desenvolvimento dos subdesenvolvidos.

No nosso país, infelizmente, as coisas estão invertidas. Os grupos que participam nestas cimeiras importantes de desenvolvimento ao nível mundial são constituídos por senhoras residentes em capitais provinciais, senão mesmo apenas na cidade capital do país (Maputo), preterindo-se a mulher rural que sofre na carne a “dor” de ser mulher numa sociedade em que a tradição dá privilegio ao homem.
A mulher moçambicana, como em outros países do continente africano, participou na luta de libertação nacional, assumindo tarefas femininas e outras directamente relacionadas com a actividade militar. A maioria das guerrilheiras não tiveram uma evolução notória no panorama político e social moçambicano. Com a excepção de Graça Machel (que pouco se sabe o quanto se embrenhou pela matas de Cabo Delgado e Niassa a procura da independência), nenhuma das guerrilheiras que lutaram lado-a-lado com homens naqueles tempos dificeis atingiu, após a luta de libertação, um lugar de destaque no panorama político do país. Quanto muito, ocuparam alguns cargos de direcção (femininas, entenda-se) e de subalternidade na ex-Assembleia Popular durante a vigência do sistema mono partidário. Isto visava apenas emprestar certa credibilidade ao consagrado na constituição. Tal como jamais se admitiu uma mulher chefe de família, as mulheres na era samoriana mantiveram-se da mesma forma submissas ao homem.
Na esteira do actual debate de quem deve ser considerado herói nacional, comemora-se hoje o 7 de Abril dia morte de Josina Machel, considerada Heroína pelo partido Frelimo dentro de um específico contexto Histórico.
O que se sabe e que se lê sobre Josina Machel é que foi esposa de Samora Machel; que foi uma das mulheres que “revolucionou” o papel da mulher na luta de libertação nacional. É dito também que foi uma das fundadoras da OMM e que morre vítima de doença a 7 de Abril 1971. Não se conhece discurso político nenhum desta “heroína”, para além de algumas pessoas que com ela privaram afirmarem que não passava de uma pessoa como outra qualquer, que teve apenas a “sorte” de ser a esposa do então líder.
Nesta data de 7 de Abril, o que pretendemos e o que questionamos é a heroicidade de Josina. O que diferenciou Josina de outras mulheres combatentes naquela altura que também participaram na luta pela independência? O que fez dela uma mulher especial e que as outras não fizeram? Infelizmente, até hoje, ainda não existem estudos que nos mostrem uma grande diferença entre esta senhora e outras que também deram suas vidas heroicamente. Mas em Moçambique existem exemplos de mulheres de fibra. O exemplo da Dra. Joana Simeão pode se considerar um caso ímpar se visto com “olhos de ver” nos dias de hoje. Por conveniências políticas (neste país de todos nós), pouco se sabe sobre a trajectória dessa senhora, senão que foi reaccionária e traidora. Contudo, os poucos registos que existem ilustram que em 1974/1975 em Moçambique estava-se perante uma mulher de fibra, de facto, que na sua época havia ultrapassado algumas barreiras.
 


Com efeito, mulher moçambicana da etnia macua, Joana Simeão foi uma das poucas académicas de raça negra que se notabilizou nos anos 60 antes da independência nacional. Assassinada pela Frelimo por possuir uma visão política social diferente, se analisadas hoje os seus depoimentos televisivos e escritos, podemos chegar a conclusão de que se não lhe fosse tirada a vida seria uma grande mulher e, quiça, fonte de inspiração de muitas jovens, imediatamente após a conquista da independência. E, escusado é dizer o quão era necessário para as moçambicanas (na época) uma fonte de inspiração viva. Penso que Joana, muito teria contribuído para esta democracia nascida pela via do sangue e violência. De certa forma, embora alguns círculos ligados ao poder político em Moçambique comprometam-na com o regime salazarista (o que nunca se comprovou, documental ou detalhadamente), para todos os efeitos, Joana Simeão foi um caso excepcional da emancipação da mulher moçambicana. Contra toda a regra consuetudinária, foi a primeira mulher de Moçambique a bater-se, ombro à ombro, com homens na matéria de governação de um estado soberano. Na época, nenhuma mulher de raça negra, para não dizer de qualquer outra raça em Moçambique, foi tão longe quanto ela. Era uma mulher esclarecida que, não se comparando a muitas que viriam a ser cooptadas à heroínas por conveniências políticas, se pôs a brandir a sua valentia de não submissão cega. Tinha uma arma, o saber, que em 1975 teria sido uma mais-valia para a consecução do progresso da mulher em Moçambique. E, desde já, seria interessante que os jornalistas moçambicanos, sobretudo os ligados a estações televisivas como a STV, Miramar e outras, em colaboração com RTP, retransmitissem as entrevistas dessa figura, para que no presente todos possamos ajuizar. E isto pode ser feito por via de um programa específico, de natureza política e social, visando esclarecer os que não viveram na época os sinuosos caminhos da descolonização portuguesa. Aqui – proponho – chamar-se-iam também os que lhe vilipendiaram na época (muitos ainda vivem) para apresentarem os seus argumentos e documentos da então acusação.
Quando de fala de 7 de Abril e de heróis nacionais o que se pretende não é negar a eventual heroicidade de Josina. Tal como é discutível a sua heroicidade, pretende-se, acima de tudo, que haja uma data consensual alusiva a mulher moçambicana, de modo a que todas as sensibilidades da esfera social moçambicana se sintam identificadas. E, penso que isto não é pedir demais, pois após longos anos de colonização estrangeira, a mulher rural moçambicana, enfrentou inúmeras adversidades durante a construção do Estado independente; viveu uma ditadura do proletariado imposta pela Frelimo e posteriormente a guerra civil; passou pelo processo de mudanças quer no plano económico, político e social; passou por um estado de guerra de armas num sistema de partido único, para um estado de “paz aparente” num sistema democrático parlamentar, mas continua a enfrentar a pobreza; doenças endémicas e exclusão social, pois não obstante o processo de transformações do séc. XX, acompanhado pelo grande desafio que é globalização, ou mundialização neste limiar do sec. XXI, a mulher rural de Moçambique continua sendo o estandarte em que alguns se apoiam para alcançarem privilégios nas cidades capitais. Urge pôr fim a isto, e pôr a mulher rural a frente dos seus problemas. O sonho de Joana Simeão mantêm-se vivo.

*Linette Olofsson
Deputada suplente
Circulo Eleitoral de Zambézia

 
 
 
A certidão de óbito
A nota que a seguir se transcreve, aliás, se republica, 28 anos depois, é, de per si, esclarecedora.
“No espírito das tradições, usos e costumes da luta de libertação nacional, o Comité Político Permanente da Frelimo reuniu e condenou por fuzilamento os seguintes desertores e traidores do povo e da causa nacional, os quais já foram executados: Uria Simango; Lázaro Kavandame; Júlio Razão Nilia; Joana Simeão e Paulo Gumane. Em ordem a evitar possíveis reacções negativas, nacionais ou internacionais, que podem advir em consequência do fuzilamento destes contra-revolucionários, a Comissão Política publica esta acta como decisão revolucionária do partido Frelimo e não como acta judicial”, lê-se no referido documento.
 
Assumindo ser “necessário um «dossier» estabelecendo a história criminal completa desses indivíduos, assim como as suas confissões aos elementos do D.D/S.I que os interrogaram, declaração das testemunhas, julgamento e sentença”, o Comité Político Permanente do partido Frelimo ordenou ainda que “um comunicado deverá ser emitido pelo camarada Comandante-Chefe (Samora Moisés Machel), no qual se anunciará a execução dos contra-revolucionários acima mencionados”.
No mesmo documento lê-se ainda que “foi decidido nomear um comité para compilar o dossier e preparar a comunicação pública”.
“O camarada Comandante-em-chefe decidiu que o comité fosse dirigido pelo camarada Sérgio Viera e adicionalmente terá os seguintes camaradas: Óscar Monteiro, José Júlio de Andrade, Matias Xavier e Jorge Costa.
A Luta continua. Maputo, 29/7/80.
O ministro da segurança, Jacinto Veloso”.
 
...tenho um sonho...que os meus netos um dia leiam estes escritos e sintam o quão rica foi a minha vida na minha Pátria...se bem que...se me perguntarem o que é a minha Pátria...direi...não sei...

João Neves
 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Homenagem às mulheres


Só quando os homens chegam a uma certa idade é que podem dizer com certeza que as mulheres são melhores do que eles em tudo - mesmo na bola, a carregar pianos, a lutar com jacarés ou nas outras coisas em que ganhávamos quando éramos mais novos e brutos e fortes.
Quando se é adolescente, desconfia-se que elas são melhores.
Nos vintes, fica-se com a certeza.
Nos trintas, aprende-se a disfarçar.
Nos quarentas, ganha-se juízo e desiste-se.
Nos cinquentas, começa-se a dar graças a Deus que seja assim.
Os homens que discordam são os que não foram capazes de aprender com as mulheres (por exemplo, a serem homenzinhos), por medo ou vaidade ou estupidez.
Geralmente as três coisas.

Desde pequenino, habituei-me que havia sempre pelo menos uma mulher melhor do que eu. Começou logo com a minha linda e maravilhosa mãe, cuja superioridade - que condescendia, por amor, em esconder de vez em quando - tem vindo a revelar-se cada vez mais.
As mulheres são melhores e estão fartas de sabê-lo.
Mas, como os gatos, sabem que ganham em esconder a superioridade.

Os desgraçados dos cães, tal como os homens, são tão inseguros e sedentos de aprovação que se deixam treinar.
Resultado: fartam-se de trabalhar e de fazer figuras tristes, nas casas e nas caças e nos circos.


Os gatos, sendo muito mais inteligentes, acrobatas e jeitosos, sabem muito bem que o exibicionismo vai levar à escravatura vil.

Isto não é conversa de engate.
É até um tira-tesões.
Mas é a verdade.
...E é bonita."


Texto publicado por Miguel Esteves Cardoso – 08-03-2009


P.S. – Eu sei que depois das Mulheres lerem este texto, que eu subscrevo completamente, vão dizer que eu e o Miguel Esteves Cardoso somos uns gentlemen’s…ou que somos muito simpáticos.

Também sei que os Homens vão dizer que somos uns “pinga-amores”…ou que estamos até a perturbar a classe...ou que já estou nos "cinquentas"...


Mas quero dizer que não se trata nada disso.

É a verdade.
A minha felicidade sempre dependeu das mulheres. A minha estrada sempre teve o apoio de mulheres…Se sou feliz é graças às mulheres da minha vida.

Para as mulheres da minha vida vai o meu reconhecimento,admiração, carinho e amor.
Para as minhas Macuas, mulheres da minha Tribo, vai todo o meu carinho e agradecimento por fazerem parte da minha história de vida.


Para as Mulheres em geral vai a minha vénia e saudação.










João Neves

domingo, 6 de maio de 2012

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Retalhos



Vou tentar em poucas palavras, descrever o que tenho para contar.



Estando eu na espera de um atendimento público, chama-me a atenção uma senhora, pela forma como descrevia ali a sua presença.
Sentindo-se acompanhada aproveitou a ocasião para ir desfiando um pouco das histórias, da sua solidão. Não lhe dei muita importância no momento, evitando que houvesse mais intimidade. Falou do amor d...a sua vida, de um casamento de 52 anos, sem mancha. Falava com ternura, com amor.
Mas às tantas, aborda a vida do filho, denunciando o rol de companheiras que tem, ao invés do exemplo de casa e que não se conformava. Aí, não suportei mais o meu silêncio e pedi-lhe que houvesse alguma brandura da sua parte em relação ao filho, pois provavelmente, ele tanto se esgota de viver à procura. Pedi-lhe que olhasse, por esse ponto de vista.
Com a minha observação, tinha acabado de fazer uma amiga!
Percebi de imediato que seria uma amiga especial.
Com a idade de 83 anos, nem sequer questionei o tempo da nossa recente amizade, podia ser uns minutos e de forma intensa, em que o carinho e a ternura se misturassem. E assim foi,em pouco mais de meia hora, uma intensa troca de afeto. Falamos desde a antena da televisão, até à roupa que está guardada para usar no dia do seu funeral, tudo foi dito e nada perguntado. Mas também me disse, que ouve a voz do marido, que é uma sua impressão, seja lá o que for verdadeira ou falsa, mas acalenta-a. Também me disse que o filho, único, nasceu no hospital e ao contrário de agora, naquele tempo, os nascimentos não se programavam, aconteciam.

Mas disse-me, o que eu julgo de mais importante. Um marido que nunca ousou questionar, o seu governar dos dinheiros e da casa, que nunca ousou bater uma porta com mais força, que nunca ousou desrespeitar. No meio daquele rol de uma graça de senhora, de um carinho imenso, às tantas diz-me:
Imagine e vê-lo nu, nunca o vi. Nem ele a mim. Bastava-nos apalpar para ver e tudo acontecia.
No atendimento onde nos encontrávamos, chamam pelo seu número e depois pelo meu. A conversa fica interrompida, julgando que jamais ela voltaria a falar-me.
Nisto, sinto uma mão no meu ombro, viro-me e com a mesma ternura, diz-me que se chamava Augusta, que ali perto vivia e questiona-me como me chamava.
Despede-se com um imenso sorriso terno, dizendo-me: -Gostei de Si!


Estes são os retalhos de hoje, de uma amizade que ficou eterna…



Cristina Vilhena



segunda-feira, 9 de abril de 2012

quinta-feira, 1 de março de 2012

...doçura.....cândida...



Talvez digam sensível demais, nostálgica que escreve ela hoje aqui...para alguns de nós... uns presentes outros ausentes? ...pelo menos recata a privacidade de cada um que passou pela sua vida, em intensa paixão e dedicação... primeiro nome vá lá não...se atreveu a mais.
Inspiração, emoção de momento, recordações e quem sabe um bela homenagem e dedicação pelas suas reguilices de criança que ainda hoje é...criança amante do mundo, criança totalmente dedicada a todos pela sua vida fora.
Verdadeiro pássaro Voador entregou desde o seu nascimento a sua vida aos que mais precisam de si...feita para amar, amar sim com muita intensidade...mas não o amor que cada um de nós ansiava, a sua entrega total de amante e mulher...casamentos foram marcados e desmarcados pela sua irradia fuga ao amor... namoros desmanchados pela sua fuga...dedicada sim, mas nunca aceitando compromissos de maior responsabilidade...
Apenas queria ser mãe...mãe solteira, nada de apegos...isso era coisa de gente frágil que se entregava para um dia mais tarde vir a se magoar profundamente... Não se enganou esta nossa menina.


Menina querida e mimada por muitos de nós, surpreende-nos com o mais profundo pedido:

Perdão, Zé, José, Carlos, Pedro, Dadito, Manuel, Jorge...deixado ansioso com um casamento que tanto esperavas, simplesmente com a palavra sincera de que não eras o amor da minha vida.
Fui reguila demais...brinquei sério talvez demais no jogo ...do amor ...e tu Manuel que aqui te encontras bem presente, tu sabes!!!! ...até podia ter dado muito certo... Carlos... como a vida é irónica amigo... alguém na altura me disse que tinha de ter na minha vida um homem como tu...demos ambos tantas voltas e trambolhões...hoje sei que estás só...como o Jorge e o Emanuel...lembras loiro danado dos cartings, cavalos...tu e a tua familia...juntos com a minha...que voltas tentaram dar.... fugia...não te atendia o telefone... apenas dizia... não sou mulher de me deixar comprar por ninguém...... e venci sempre as minhas decisões....soube que alguns de vocês hoje estão completamente sós...e ainda sofrem por alguém que não conseguiu retribuir tanto amor e dedicação.... antes que possa ser tarde demais...escrevo e transmito o meu maior sentimento de perdão e gratidão pelo vosso amor...entrega total no passado... com a esperança que alguns vejam o manuscrito...que a alguns de vocês se assim tiver de ser...e acontecer...chegue esta minha dedicação e homenagem a todos os MEU GRANDES AMORES DE JUVENTUDE...




Bem hajam...
 Lizete Lopo



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

...Somos cinco...



Na hora de pôr a mesa, éramos cinco...
...o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu…
Depois, a minha irmã mais velha... casou-se.
Depois, a minha irmã mais nova casou-se.
Depois, o meu pai morreu...
Hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco...

...menos a minha irmã mais velha que está na casa dela...
...menos a minha irmã mais nova que está  na casa dela...
...menos o meu pai…
...menos a minha mãe viúva...
Cada um deles é um lugar vazio nesta mesa onde...
...como sozinho...
Mas irão estar sempre aqui.
Na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
Enquanto um de nós estiver vivo…
...seremos sempre cinco...


Poema de José Luís Peixoto.
 
...oferecido pela Kázinha...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Triste África

Olhem para a cara de Jean-Pierre Bemba, o líder da oposição congolesa. Eu sempre acreditei que olhar para a cara das pessoas ajuda muito a perceber quem são. Concordo que a receita é falível: há gente com aspecto de boa pessoa e que, afinal, não é recomendável e vice-versa. E há caras que não dizem tudo, de bom ou de mau, acerca do seu portador. Mas, para quem conhece um bocadinho a África Negra e a sua classe política, a cara do sr. Bemba diz tudo ou quase tudo sobre o que há a esperar dele no dia em que conseguir chegar à presidência da República Democrática do Congo. A menos que estejamos perante uma notável excepção ao meu critério de adivinhar carácteres a partir das caras, a do sr. Bemba traz as marcas inconfundíveis da generalidade dos políticos negros africanos da última geração. Um catálogo de horrores: nepotismo, prepotência, violência, cupidez e, fatalmente, corrupção.


Agora, olhem para a cara do sr. Joseph Kabila, o seu rival e actual Presidente da RDC: a outra face da mesma moeda. O Presidente Joseph Kabila sucedeu a seu pai — coisa habitual nestas paragens —, o distinto Laurent-Desiré Kabila, cuja presidência será sobretudo recordada pela ruína do país e o estendal de cadáveres deixados para trás. Kabila-pai tinha sucedido ao imortal Mobutu Sese Zeko, uma espécie de estereótipo de ditador africano, de quem Bemba e o pai foram estreitos aliados. Dois clãs em luta pelos despojos do país, coisa comum na África Negra. Depois de vinte anos de guerras, golpes e contragolpes, o ex-Zaire e ex-Congo Belga, um dos mais ricos países africanos, está reduzido à miséria, à ineficácia e à corrupção e exposto às intromissões e cobiças do seu poderoso vizinho angolano.


Voltemos ao sr. Bemba, herdeiro de uma colossal fortuna deixada por seu pai e empresário cujos exemplos mais admirados são o marselhês Bernard Tapie e o milanês Silvio Berlusconi, dois príncipes da alta finança europeia que a Justiça perseguiu e condenou por toda a espécie de falcatruas possíveis no ramo. No final de 2006, Bemba regressou do exílio para fundar o MLC e concorrer às eleições. Derrotado por Kabila, gritou à fraude (o que, mais do que provavelmente, é verdade) e transformou o MLC numa milícia militar, apoiada pela Líbia e outros países africanos e acusada pela ONU de práticas de canibalismo. Em Março passado, o MLC saiu do mato e desceu às ruas de Kinshasa, tentando tomar o poder pela mais antiga das formas locais de o fazer. Derrotado também nas ruas, Bemba refugiou-se na Embaixada da África do Sul, e a situação caiu num impasse. Foi então que a diplomacia portuguesa teve uma ideia luminosa: mediar a saída negociada (e necessariamente provisória) de Bemba do país e da cena política. Aproveitar o passaporte português da mulher, uma luso-brasileira filha de um emigrante português, e dos filhos e aproveitar o facto de o sr. Bemba ser proprietário de uma casa na Quinta do Lago, no Algarve (como já sucedia com o seu ‘padrinho’ Mobutu), assim proporcionando uma saída airosa a ambas as partes. Se os esforços do embaixador Alfredo Duarte Costa tiverem sucesso, a nossa diplomacia consegue, de facto, uma lança em África: proporciona uma saída para a crise, que Kabila tem de agradecer, e fica nas boas graças do sr. Bemba, para o dia em que este, milhar de mortos a mais ou a menos, consiga enfim sentar-se no trono do Leopardo. O desfecho diplomático está iminente e apenas aguarda que Kabila resista à tentação de tentar deitar a mão ao seu rival para o cortar às postas e se decida a assinar um papel, deixando-o sair.
Como se pode imaginar, aos congoleses, à excepção dos milicianos e arregimentados de ambos os lados, tanto se lhes faz Kabila como Bemba. Quem ficar com o poder enriquecerá — ele e a sua corte; o resto da população continuará na miséria, à espera do milagre impossível do dia em que o Congo, como o resto da África Negra, seja governado por homens sérios, competentes e com vontade de servir o seu país.


Desçamos um pouco mais abaixo e a leste, onde temos o caso-limite do Zimbabwe, desse louco criminoso que é Robert Mugabe. Como escreveu há dias a Conferência Episcopal do Zimbabwe, ali o poder perdeu já qualquer resquício de vergonha, de pudor, de condescendência para com a miséria do povo ou de respeito pelos direitos humanos mais elementares. A oposição é espancada, presa e torturada à vista de todos, os jornalistas estrangeiros são expulsos, o desemprego atinge os 80%, e a fantástica Reforma Agrária de Mugabe, que correu com os melhores agricultores africanos, que eram os rodesianos brancos, trouxe a fome aos campos e às cidades superlotadas. No seu delírio de psicopata, Mugabe não encontrou melhor plano do que mandar o Exército desterrar da capital, Harare, centenas de milhares de pessoas que não tinham para onde ir.



Em Harare esteve há duas semanas o ministro dos Estrangeiros de Angola, que lá foi oferecer apoio militar a Mugabe e proclamar a solidariedade ‘anticolonialista’ do regime de José Eduardo dos Santos. Depois, o ministro veio a Lisboa e sentou-se numa mesa ao lado do nosso MNE, Luís Amado. Perguntaram a Amado se, perante a situação no Zimbabwe e o isolamento a que o regime foi votado pela União Europeia, ele ponderava a possibilidade de não convidar Mugabe para a Cimeira Europa-África, prevista para a presidência portuguesa da UE. O MNE deve ter estremecido, antes de responder convictamente que não: imaginar que Portugal pudesse comprometer aquilo que está previsto ser o «achievement» da nossa presidência, arriscando-se a que os países africanos boicotassem a Cimeira por ‘solidariedade anticolonialista’ com o Zimbabwe, é simplesmente antipatriótico. Seria o mesmo que convidar o Governo português, por exemplo, a perguntar a Luanda para onde vão as receitas do petróleo angolano que não entram no Orçamento do Estado.
‘Provocações’ dessas não se fazem aos africanos. Eles são muito sensíveis às intromissões ‘colonialistas’ dos brancos nos seus assuntos: em especial se forem europeus e, pior ainda, antigas potências coloniais em África. Eles não se importam de ser neocolonizados pelos indianos e agora pelos chineses, que estão a tomar conta de África em busca de energia e terras cultiváveis. Como antes não se importavam com os negócios ruinosos feitos com russos ou americanos, desde que as ‘nomenclaturas’ locais, bem entendido, fossem devidamente recompensadas. Mas, para os europeus, as regras são muito mais duras e exigem, como ponto prévio, que só há negócios em África se se seguir estritamente a diplomacia dos interesses e jamais a dos valores. É preciso ficar muito calado, olhar para o lado, fingir que não se vê e não se sabe e, sendo possível, como fazem Portugal e França, conseguir que os seus dirigentes tenham sempre um «pied à terre» na Côte d’Azur ou no Algarve, para criarem laços de afinidade e cumplicidade connosco.


Um dia, quando se fizer a história da África desaparecida, haveremos de chegar à conclusão de que, muito pior e muito mais imperdoável do que os cinco séculos de colonialismo europeu, foram estas cinco décadas de cumplicidade com o que há de pior em África.





Miguel Sousa Tavares


Publicado em 9 de Abril de 2007 - Expresso Multimedia

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Inhamata

De tempos a tempos as lembranças assolam-me a alma, como se de um relâmpago se tratasse e revejo acontecimentos da minha África tão longínqua…na minha infância e pré adolescência!

Esta história vou narrar, porque um dia destes remexi no passado, remexi nas gavetas lá de casa (dos meus pais) e encontrei umas fotos impressionantes: meu pai a exibir um dos seus troféus de caça. Uma jibóia enorme com alguns 3 metros, morta por ele e á paulada! Lembro tão bem de ele contar esta história!
Lá para as bandas do rio ao Sul do Save, em tempos, existiam algumas povoações, relativamente próximas, o que quer dizer que distavam mais de 200 quilómetros umas das outras, mas em África isso significa que é “ali”.



“INHAMATA”era o acampamento habitado pelos meus pais, já que meu pai era sócio de uma firma sediada em Lourenço Marques, mas era inevitável a permanência dele em acampamentos pelo mato, onde procurava e tratava as madeiras exóticas, que depois eram exportadas…
Eu apenas ali passava as férias e por isso vagas lembranças tenho de “INHAMATA”, mas recordo uma casa grande, toda ela de madeira, mas não era uma madeira qualquer, era daquelas madeiras que duram vidas, com uma enorme escadaria na parte frontal e outra igual nas traseiras!
Tinha um pormenor muito importante: era assente em estacas, tipo “palafitas” e isso provocava-me muitos pontos de interrogação, pois o mais certo seria uma casa assim ser construída numa lagoa, mas ali!! Num terreno tão seco e vegetativo? Mas claro que isso tinha uma explicação e que o meu pai me dava mas que não encaixava cá dentro muito bem: É que em época de muita chuva, formava-se á volta do acampamento uma enorme lagoa, e realmente…houve uma época em que, eu não estava presente, mas minha mãe ainda hoje fala muito nisso: ela e meu pai estiveram mais de 15 dias sem poderem sair de casa!!
As lembranças mais vincadas daquela casa eram os enormes e horripilantes estalos que a madeira dava, provocando-nos sustos de morte, mas depois que nos habituávamos, convivíamos com aquilo facilmente…a explicação que o meu pai nos dava para perdermos o medo, era que a madeira estalava com o calor abrasador que se fazia sentir!
Tinha lógica…mas o que não tinha lógica era eu por vezes, no quarto onde dormia, acordar e sentir que me mexiam no cabelo, eu olhava em volta e não via ninguém! Meu pai dizia que eu era tonta e que devia estar a sonhar…


Em pleno mato e onde por vezes os alimentos tardavam em chegar, já que se começava a viver tempos conturbados por causa da guerra que vinha descendo das terras do norte, minha mãe para assegurarem o próprio sustento, improvisou um forno para cozer pão, que consistia num bidon, com fundo, deitado na horizontal e enterrado até meio na terra, fez um lastro com matópe, improvisou uma porta com a parte de cima, que ela havia pedido a alguém para cortar e assim havia sempre pão fresco em casa, carne também não faltava, uma vez que meu pai era caçador e caçava os changos e os cabritos do mato, que tinham uma carne branquinha e era saborosa…
Aos fins-de-semana juntávamo-nos com outros europeus, na “CHIRINDA” uma povoação com campo de aviação, onde aterrava todas as semanas uma avioneta com tudo o que se necessitava!


Lembro de passar temporadas na “CHIRINDA” em casa do Sr. Oliveira, onde me juntava a duas miúdas mais velhas, vindas não me lembro de onde e tínhamos o hábito de “roubar” um jipe descapotável velho que por lá existia e por entre os coqueiros e palmeiras, com manobras inexperientes que até dava vontade aos negros de taparem os olhos com as mãos quando por eles passávamos, lá seguíamos em direcção ao campo de aviação para aí darmos azo a adrenalina que provocava em nós a velocidade que o jipe conseguia nos dar, e de cabelos ao vento era uma sensação de pura liberdade! Éramos nós, a planície, o firmamento e a loucura do momento!
Existia ainda uma outra povoação, onde nunca cheguei a ir, de nome “MACHANGA”, mas lembro e muito bem da convivência que tínhamos com o administrador e família de lá e do trágico acidente de que foi vitima nas cheias do “LIMPOPO” num dos anos em que tentava socorrer as pessoas, uma das hélices do helicóptero partiu e foi direitinha ao pescoço dele decapitando-o…



Mas a história da jibóia…pois a finalidade é contar essa história, começou porque bem pertinho da casa que habitávamos na “INHAMATA”existiam uns cajueiros rodeados de robustos arbustos onde ela se refugiava, talvez para fugir ao calor. Alguém que deu com ela, comunicou ao meu pai que, destemido como era avançou com um pau pontiagudo na mão, e metendo-o por entre os arbustos com o intuito de a fazer aparecer, rapidamente ela se mostrou, de boca arreganhada e língua de fora, meu pai recuava quando ela se mostrava em posição de ataque, mas avançava e picava-a sempre que ela se propunha fugir…andou naquilo algum tempo até que resolveu largar o pau e começou a puxa-la pelo rabo, por varias vezes, não a deixando ir longe, mas as mãos escorregavam naquela pele viscosa e húmida…não achando outra alternativa, pensou que o jeito era tentar esmagar-lhe a cabeça e procurou fazer isso com o pau, mas ela parecia ler-lhe os pensamentos e escondia a cabeça…não foi fácil, mas depois de varias tentativas e decorrido, sabe-se lá quanto tempo, finalmente conseguiu apanhar-lhe a cabeça a jeito e esmagou-a, ficando assim aquele monstro aniquilado!
O que foi feito da pele?
Lembro que o meu pai a mandou curtir… não sei o fim que levou…

Depois que abandonamos definitivamente “INHAMATA”, meu pai acabou por nos contar que se dizia por aqueles sítios que a casa era assombrada e…ainda hoje estremeço ao lembrar-me daqueles estalos da madeira, dos saltos que dava na cama quando acordava com aqueles estrondos que mais pareciam trovões ribombando em cima de nós!
Num entardecer suave e ameno em que esperávamos calmamente sentados na escadaria das traseiras da casa, pela noite que se avizinhava, uma enorme e negra ave, saiu alvoraçada de entre as nossas pernas e sumiu-se no horizonte…meu pai atirou para o ar um “figas diabo” e nós atónitos apenas nos interrogámos com os olhos e comentamos no momento, que raio teria sido aquilo?! mas rapidamente deixamos de falar no assunto como se de uma coisa natural se tivesse tratado, mas não! de natural aquilo não teve nada!

E África era toda esta simplicidade, toda esta liberdade, todos estes perigos e mistérios…

Vivia-se uma vida tão simples...tão pacífica...tão calma...tão desprovida de luxos...e éramos tão felizes!
Mas que magia tinha aquele mundo que apesar dos pesares nos deixou a todos que por lá passamos tantas saudades?
…por isso eu por vezes digo:


África não se explica! África sente-se…


Nos mil e um ruídos que ecoam na noite…nas trovoadas tropicais que parecem autênticos dilúvios de água morna e nos fazem crer que o mundo vai desabar…no som dos tambores das batucadas ao longe pela noite a dentro…no clarão das queimadas sumido no horizonte…no coaxar das rãs nos machongos…nas corujas que vêem de encontro ao pára-brisas encandeadas pelas luzes dos faróis quando se viaja de noite pelas picadas intermináveis…no cheiro da terra molhada de que tanto se fala, mas só cheirando se consegue ter uma verdadeira noção…na convivência com as osgas que coabitam as nossas casas e nos parece normal…longos tules brancos pendentes do tecto para nos proteger dos mosquitos enquanto dormimos…no cheiro da formiga cadáver quando esmagada…tudo isso é África…


África é muito mais ainda… é régulo, é marimbas, é capim, cacimbo, embondeiro, é lagoas enormes que asseguram a sobrevivência das feras em plena selva, é planícies a perder de vista, é florestas tão densas que nem um raio de sol consegue penetrar e ir beijar o chão, no entanto as plantas crescem verdes, viçosas e nos oferecem os seus cheiros típicos e o seu oxigénio puro, é onde o céu é mais azul e o sol brilha mais, é coqueiro, jambalau, sura, praias desertas de sonho, de águas calmas, mornas e cheias de vida marinha, lanho, machamba, mandioca, matapa, capulana, machibombo, marula, um amanhecer esplendoroso, o por do sol mais lindo que alguma vez vi…

África…Moçambique… o nosso paraíso perdido, está lá!

Continua lá…apesar de nos parecer tãooo longeee…está apenas a 10 horas de distância!
E pensem que: querer é poder, por isso n desistam de realizar o vosso sonho...
Eu voltei… contra tudo e contra todos, voltei…fui reviver, por poucos dias, o meu sonho africano, e fui tão feliz!


Maria  Vieira

sexta-feira, 17 de junho de 2011

JUVENTUDE INCONSEQUENTE

Acabava de chegar…

Desolação, tristeza, lágrimas de raiva e frustração eram as minhas companheiras...
Dias intermináveis em que deixava o desanimo tomar conta de mim e na velha lareira da minha humilde casinha que me acolheu na aldeia, o tempo passava por mim e eu, sem me dar conta, de tão abstraída estar da realidade, nada fazia…apenas deixava passar o tempo com os olhos presos á lenha que crepitava na lareira.
Dias e dias de intenso inverno que em Março ainda se fazia sentir, que no fundo já eram mais amenos mas, para mim, o inverno tinha começado mal eu metera os pés fora do avião naquele inicio de Março de 76...
Meu Deus…como eu ainda choro ao recordar!!
Até para nos aquecermos nas longas noites de gelo, as peles dos animais que o meu pai tinha trazido para cá como troféus das suas proezas como caçador em África, eram as nossas mantas!
Muito a custo despertei e segui em frente, pois apercebi-me que era o mínimo que podia fazer por mim, e com a morte na alma comecei a aceitar as coisas e as pessoas que me rodeavam

Todos os dias percorria 2km a pé debaixo de chuva, gelo, vento, por estrada barrenta que nunca tinha visto alcatrão, para ir apanhar o autocarro que me levava á cidade onde era o liceu.
Foi muito dura a adaptação, mas com a convivência dos colegas, começava a integrar-me.
No entanto sentia-me, interiormente, tão carente, tão desesperada, que se não arranjasse algo forte que me ocupasse os pensamentos e me ajudasse a construir castelos de sonhos, me desmoronava completamente.
E…
Foi quando reparei em alguém, na sala de convívio do liceu…
De estatura mediana, tinha um jeito característico de ser que encantava quem o rodeava
Sempre cercado de miúdas que eram como moscas á sua volta e ele sempre distribuindo sorrisos, piscadelas de olho, beijos e abraços, sem quê nem porquê…
Que olhos!!
Verdes como enormes lagoas de águas cristalinas e superficiais, salpicadas de nenúfares amarelos.
Boca carnuda que quando se abria num sorriso, nos obrigava a sorrir também
Aquela voz melodiosa com sotaque francês, ficava gravada na nossa lembrança desde o primeiro instante
Aquele jeito de andar meio gingão que eu comparava a um bailarino sempre a ensaiar os passos da próxima dança
Ah! e aquela samarra quentinha com gola de pele de raposa que ele usava e que as miúdas faziam questão de experimentar…
Inicialmente, achei-o tão infantil, tão metediço, tão vaidoso, que num primeiro impulso senti desprezo e jamais seria uma das que esvoaçavam á volta dele.
Mas o destino quis que ele usasse o mesmo autocarro que eu, e rapidamente, reparou em mim
Nem queria acreditar quando um dia em que voltávamos para casa, ao entardecer, depois de um dia de aulas, ao entrar no autocarro, fez-me sinal para me sentar junto dele e nos dias seguintes sempre a mesma coisa, e oferecia-me a samarra emprestada para eu não ter frio durante os 2km que ainda iria percorrer a pé, já que a paragem dele era mesmo ali…mas não, nunca vesti aquela samarra!!
Logo pela manhã todos os dias era brindada pelo sorriso e o bom dia de hálito fresco, com cheiro a pasta de dentes, e como eu já gostava daquilo!!!

A vida foi-se tornando mais bela
Fui sonhando acordada..
Já tinha um mundo só meu!
O dia a dia tornava-se menos duro
O sol começava a brilhar de novo
E…
Eu já não via mais nada á frente!…
Como ignorar aquela atenção que me dispensava sistematicamente?!
Quando aparecia na sala de convívio com um bolo que comprara para mim, quando me dizia” se não vais ter aula agora, eu fico contigo para não ficares sozinha”, mesmo quando estávamos em grupos de amigos distintos, havia sempre, mesmo de longe, um acenar de mão, aquele jeito tão peculiar nele de inclinar a cabeça e sorrir…
Havia como que uma cumplicidade grandiosa entre nós que jamais soube explicar.
Fiz meus, os amigos dele, para mais perto dele me encontrar.
As festas que organizava em sua casa, os piqueniques que fazíamos, aquele anexo da casa, que lhe foi cedido pelos pais para juntar os amigos e que fomos decorando todos juntos, com luzes psicadélicas, almofadões pelo chão, uma lareira sempre acesa no Inverno, passou a ser quase a razão do meu viver.
Tinha encontrado uma forma de me enraizar naquele novo mundo quase pré-histórico que me acolheu, mas com o passar do tempo as coisas foram mudando um pouco, pois perdida de paixão, mas ainda com uma nesga de raciocínio fui percebendo o quanto algumas coisas estavam a mudar.
Eu sabia que era apenas uma amiga, mas amigos não passam horas de mão dada numa discoteca, não andam pelas ruas de mão dada, nem tão pouco trocam um beijo, o meu primeiro beijo, que se existe sétimo Céu, então eu fui ao sétimo Céu, senti-me flutuar acima da realidade, o mundo parou naquele momento e ouvi campainhas, não sei vindas de onde, ouvi cânticos celestiais descendo por um arco-íris de cores inebriantes, foi o meu momento supremo de êxtase …
Foi, depois desse beijo, o marco que separou a menina da mulher que eu já era e ainda não tinha percebido.


Depois, tudo mudou.
Ele mudou…

Tinha o Céu e o Inferno a contra-pesarem e ao mesmo tempo a destruírem todos os sonhos que eu construíra sem bases, sem alicerces, apenas assentes no meu querer. O Céu quando era merecedora das suas atenções, o Inferno quando parecia que nem me via e ele passou a ser assim: Tão depressa largava tudo e todos para estar comigo, como passava por mim, fazia “olhinhos” e de seguida era como se não me conhecesse, como se eu não existisse e, eu sentia-me morrer aos poucos!
Todo este sentimento que me dilacerava o coração e com todos os dissabores da minha vida, eu sentia que uma terrível depressão ia tomando conta do meu ser.
Ela veio, instalou-se e quase me destruiu, quase enlouqueci…
Não vou relatar, nem sequer vou tentar tirar do meu esquecimento tudo o que se seguiu, pois foi tão mau, tão terrível que jurei a mim própria jamais recordar…
Fugi…
Tinha que fugir.
Se queria encontrar-me novamente, tinha que ir para bem longe, ainda que todo o meu ser me dissesse “fica” a pouca razão que ainda me restava dizia “vai”…
Passava largas temporadas fora, mas quando voltava, sentia que me abeirava de novo do abismo, pois em qualquer esquina da cidade deparava com ele, sempre cordial, sorridente, cheio de novidades, novos amigos, novas namoradas…
E, eu fugia de novo, não dele, mas de mim própria, do que ainda sentia…
Com tudo isto passaram-se quantos anos?!! Cinco…seis?!!
Já nem sabia!
Já não era aquela menina sonhadora, aprendera á custa de tantos “pontapés”que os sonhos se sumiam como a água que escorre por entre os dedos e desaparece na terra seca e árida
Deparei-me com uma nova mulher, os meus princípios de menina certinha, pudica, coerente, responsável, deram lugar a uma pessoa seca, rude, agreste e um pouco irresponsável, que tanto se lhe dava ir para a esquerda, como para a direita!
Voltei decidida a conquistar o meu quinhão de felicidade junto dele, ainda que, por pouco tempo! Que importava se ele não me amava! eu amava pelos dois! E que importava se eu seria mais uma que lhe passava pelas mãos?!!
Não admitia que nada nem ninguém interpelasse os meus pensamentos e me dissesse ou fizesse ver o quanto eu estava errada!
Já sabia nessa altura que os caminhos que ele trilhava o estavam a levar por um caminho que possivelmente não teria retorno, mas que me importava isso?
Foi assim que tempos mais tarde me vi num café da cidade esperando por ele, para seguirmos juntos uma estrada que para mim já se adivinhava ladeada de flores coloridas tal se sentia o meu coração


Ah juventude!
Quanta vontade de saciar aquele sentimento que me consumia…
Hoje, quando os pensamentos se atropelam e a saudade me invade, rabisco os meus caderninhos onde sempre escrevia as pequenas vitorias e grandes derrotas daquele tempo, deparei-me com estes versos que um dia escrevi…

Dia 24 de Agosto de 1983

Fiquei esperando no Café Jardim
Ouvi o telefone tocar
Não esperava que fosse para mim
Ao ouvir tua voz
Meu coração estremeceu
Disseste: -espera por mim!
Vou mais tarde, pois algo aconteceu.
Não quis saber que algo foi
Pois eu já estava maravilhada
Só de pensar que iríamos percorrer
Juntos aquela estrada
Nervosa e impaciente
Eu fumava um cigarro
A todo o momento eu esperava
Ver surgir o teu branco carro
Que intermináveis me pareceram os minutos
Em que esperei por ti
Mas mais longos foram os anos
Em que pensando em ti sofri
Finalmente tu surgiste
Calças pretas, camisa cor do mar
Dirigiste-te para mim
Deus!!! Como vou deixar de te amar?!!
Nossos olhos se fixaram
Nossos rostos se aproximaram
Recordei aquele dia
Em que nossas bocas se juntaram
E lá seguimos no “Fiat Mirafiori”
Aquela estrada sem fim
Quem dera que fosse verdade
Pelo menos para mim!

Foram dias de intensa felicidade na praia, pesca submarina que ele fazia com os amigos que estavam connosco, enquanto alguns de nós os esperava-mos naqueles rochedos junto á praia…
Calcorreávamos as ruas repletas de gentes, turistas e veraneantes, subíamos e descíamos o elevador do Sitio até á praia sempre em espírito de camaradagem e extrema alegria. As noites sempre diferentes, discotecas, cinemas, grandes jantaradas, momentos inesquecíveis que partilhávamos todos até quando eles faziam os charros para eles, com a “erva” que eu carregava nos bolsos do meu blusão de ganga, nem sequer me passava pela cabeça o perigo que eu corria se fosse apanhada pela “bófia”…
Mas…
A dura realidade
Uma das suas me aprontou
Foi aquele amor lindo
Que repentinamente findou…
Eu Jurei a mim própria
E até uma vela a Nossa Senhora ofereci…
Nunca mais recordar
Nem chorar por ti…



Derrotada, mas consciente que me livrara de um furacão que me arrastava para o mesmo buraco negro em que ele se afundava, fui á minha vida.
Não posso dizer que foi fácil, mas resignei-me…
Quanto mais vontade tinha de me aproximar de novo, mas distancia eu me forçava a impor entre nós, pois percebia nitidamente que ele não me queria levar com ele. Numa réstia de sensatez arranjou maneira, e que maneira!...para eu me afastar de vez.


Anos mais tarde, ainda na mesma cidade deparo com ele de novo, mas minha vida já era outra, não tinha esquecido, isso nunca!! Mas sentia-me tranquila, muito feliz até com a minha nova vida. Tomamos um café juntos, falamos de nossas vidas, a dele sempre errante, ansiando por novos horizontes todos os dias… soube depois que usava sempre camisolas de mangas compridas para esconder as marcas das seringas com que injectava as drogas que lhe corriam nas veias…
Anos mais tarde ainda soube que falsificava a assinatura do pai nos chorudos cheques que levantava para comprar drogas e manter aquele antro de autenticas orgias em que se tornara a sua vida.
Depois…numa derradeira tentativa, o pai mandou-o para bem longe, para Itália, para um centro de desintoxicação e daí para França, o seu país, onde, do jeito dele organizou a vida.

Não mais o vi, mas sei que vem todos os anos de férias. Não mais me deparei com ele nas ruas da cidade, mas todos os inícios de cada Agosto de cada ano eu penso que eventualmente o poderei encontrar.
Devolvidos mais de 17/18 anos em que o vi pela última vez, por vezes ainda sonho com ele…mas nos sonhos ele está sempre tão distante, sempre inatingível!

…mas o meu despertar é sempre tão feliz, tão doce, tão sereno que se estende pelo resto do dia…
Porque será?


M.V.