quinta-feira, 31 de março de 2011

JUMA E COSTÓDIA

                            ...uma história de amor fraterno...

Juma era um aluno negro, filho do Enfermeiro Cristóvão Januário, do Hospital da Ilha de Moçambique. Aluno do Externato Liceal Mouzinho de Albuquerque - 1969.
Custódia, uma aluna negra, interna, filha de um dos poucos Administradores de cor, natural de Moçambique e na altura colocado no Dondo - Distrito da Beira. Aluna do Colégio Nossa Senhora das Vitórias - 1972.

Lembrava-me muito bem deles, quando cheguei a Nampula a 28 de Agosto de 1992.

Depois de hospedada na casa de Hóspedes da Diocese de Nampula, recebida por D. Manuel Vieira Pinto, e pelo Governador Gamito, com quem almocei. Fui levada ao Secretário Padre Martins, estivera em tempos no colégio de S. Paulo, em Porto Amélia -1970.

E preparei o início da minha viagem e objectivos para a partida para a Ilha de Moçambique.
Procurei saber o que era feito de colegas…
Depois de olhar perdidamente para lugares que procurava identificar…só o amor e saudade podia levar á magia de repor tudo no lugar…
Saíra de Moçambique a 28 de Julho de 1976, rumo á Rússia, por fim Portugal…

Saíra de Caia… passara pelos Campos de Alfabetização da Gorongoza…

Avistar-me-ia com o Ministro Chissano e o Ministro Chipande, levava comigo, uma carta de Sua Excia Presidente Samora Machel, entregue por Dr. Sérgio Vieira e Dr. Aquino de Bragança.

…A libertação de meu marido.

…A despedida no Aeroporto do Eng.º José Carrilho.

O meu juramento a Lina Magaia, General Pachinuápa, Dra.Graça Simbine Machel…que voltaria…

Doente de mal de amor, de dor, totalmente perdida nos turbilhões de emoções mal geridas, insatisfeita, parti um dia de Macau rumo a África, com um destino: Moçambique…e lá vivi até 2001.

Ilha de Moçambique, pela manhã…nos últimos bancos…ouço a missa dada pelo Padre Lopes…
Procurei saber o que era feito de Juma e Custódia…que marcaram a minha juventude.

Era cedo no tempo, pois era momento de se negociar a Paz.

Custódia era de Sofala e por lá ficou…que seu pai tinha sido executado…outros que tinha sido morto numa emboscada…
…Tinha medo de ouvir que também ela partiu durante a guerra…

Por meses mantive-me ocupada com o trabalho…mas um dia…já decorria um ano de Paz…de volta á Ilha de Moçambique…vinda de Cabo Delgado com o meu marido… Procurei o pai de Juma, já com mais dados enviados pelo meu pai, que estava em Portugal. Fora ali conhecido como o Sr. Secretário, ou Metamira.

O pai de Juma vivia na Ponta da Ilha…já muito velho…
…As lágrimas correram no seu rosto…olhando os livros que trazia comigo…e o retrato dos estudantes nas escadas do Externato Liceal Mouzinho de Albuquerque…abraçou-me...
Juma foi ceifado numa vida de Professor Primário, colocado no Alua…teimava em ver o pai e não se esquecia dos seus alunos…Neste percurso de vai e vem, entre Nacaroa e Namapa…o autocarro que o transportava é apanhado numa emboscada e morrem todos carbonizados - 1991…perto da Missão do Alua onde era um dedicado educador…
…O pai chorava porque não tinha corpo e alma para ir chorar o seu filho…meu marido…na altura comigo…ofereceu-se para nos levar a Alua, a 400KM e procurar o lugar... Assim foi…

Naquele mato, entre machambas de mandioca e milho, restava uma carcaça de um autocarro…ali…uma grande cruz posta pela Missão…todos descansavam em paz…com ajuda do Padre Lopes e o Padre Ramon, da missão, rezou-se uma missa campal…

1995 – Maputo - Setembro, sou internada de urgência devido a um colapso total de cansaço e esgotamento.

Na clínica privada do Hospital Central de Maputo. Uma cura de sono de um mês. Tinha vivido dois anos de grandes emoções, viagens de milhares de quilómetros, querer tudo fazer, estar em todo o lado. Perdi-me na noção do tempo, das horas, o meu corpo pedia trabalho e não dormia.

Um dia a Enf. Olga Maccô, diz-me que a Médica Psiquiatra, Chefe da Clínica e Hospital de Psiquiatria de Maputo – para lá das Maotas, vinha ver-me a pedido do médico, Director do Hospital Distrital de Pemba e da Deputada Judite Maccô.
De olhos serrados vejo uma mulher negra da minha idade. Falava da chegada da Alemanha, onde fora a um congresso…pediu a minha ficha e pôs os óculos.

No quarto, foi até ao fundo e abriu as persianas, olhei para ela…"pode-me fechar isso?"…veio ao pé de mim…puxou uma cadeira, limpou-me as lágrimas, segurou a minha mão...e ouvi…"Fátima Manuela, tanto tempo." …

…Vi-a na penumbra do passado, olhos negros, de trancinhas, na nuca desenhos bem feitos como carreirinhos, no meio do mato. Ouvia gargalhadas nas escadarias das camaratas…"Custódia…hoje de cabelo "PUFF"? passa a ferro, dizia a São Pereira, como eu e aqui a Fátima Manuela"…. Ouvia ao longe como de costume, quando era carapau frito e no refeitório, acabava num jarro de água.

O teu cabelo já não é "PUFF"?...passas a ferro?...e dei comigo a rir e a chorar. Responde-me…"não Fátima Manuela, ainda te ganho em inteligência. Trato do cabelo”...

Ás gargalhadas, abri melhor os olhos e disse-lhe…"procurei por ti, já lá vão três anos, mas tinha medo que a resposta era não te ver mais. Sofala no conflito...Custódia falou-me da família, dos filhos, do que fazia, do trabalho de Hospital aberto para os doentes com depressões e sempre que podia estávamos juntas… Curou-me dos medos, deu-me muita coragem e muito amor… Mandou-me de volta aos meus filhos… que renegava por serem um travão no meu trabalho… Falou com Diogo, com Joana, com os meus pais para Portugal. No dia que parti…fui vê-la ao consultório e perguntei-lhe…”como me conheceste?”...só me respondeu…"com esses olhos, esse sorriso…nada mudaste, continua assim, vai…estarei aqui sempre que precisares…á tua espera…

Respondi… “és a pérola que seguro na mão… salvaste uma grande mulher, minha mãe, de chorar a perca de uma filha, e a minha filha a perca de uma mãe.

 Não quis despedidas, corri pelo corredor ao fundo…

Esperava-me Nuno Palmeira, marido de minha amiga Luisa Nunes Carrapichana Palmeira, que me levaria de volta a Pemba e aos meus filhos. Nuno, fora também o amigo que me internara em Maputo, e a quem vinha entregue no avião.
Quando nos voltamos a ver, deu-me força para que enfrentasse Portugal e a perca dos meus Pais.
Já em Portugal, decorria 2002, falei dos meus medos, do meu cansaço, pediu-me que me tratasse, pois tinha o Síndrome de Postura, ligada a uma depressão profunda .

Custódia…uma grande médica, que vive e dá a sua vida por um Grande País.

Um dia, uma carta no correio, devolvida, que lhe escrevi…quando parti...
“Escrever um livro é um momento muito só e muito nosso. O escrever um livro puxa por nós muitas emoções, todos nós temos dentro, queimando, a chama da santa loucura. Eu senti-me necessária e esta é uma das melhores sensações que um ser humano pode ter. As minhas emoções são cavalos selvagens.
Um dia escreverei um livro do que nos ensinou e o que nos transmitiu, a vivência dentro dos claustros, jardins, mocidades, retiros, orações ouvidas, gritos ao longe quando a noite cai… suores, odores…a vida é aquilo que fazemos dela, tem raízes ascendentes, no background da família, que o louco sempre foi incluído na linha de vida".

O telefone toca…Custódia está em Portugal…no Porto… Participa num congresso como Oradora convidada…é a Delegada da O.M.S., para a saúde mental e as depressões. Investigadora do projecto Aricepete-Boston.

…E lá estava eu, desta vez na plateia, logo na 3ªfila, em 2004,Fundação Serralves…
…Abraçamo-nos…ouvia calada as minhas palavras ditas com rapidez…não queria que o tempo acabasse…

Quando partiu…só me pediu…”…cuida de ti…ainda tens muito para dar… e agora dá-me o papel que escreveste!”…leu…e a rir…disse-me que…”era a maior…senão a melhor declaração de um louco…”

Um postal de Boston. «ESCREVE…QUE É DOS LOUCOS QUE SE LÊM MELHORES LIVROS.».



Maria Manuela Marques Pinto


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

...no interior no nosso Índico...




   ...Ana Delgado...uma macua no interior no nosso Índico...costa de Moçambique...praia das Chocas...Nacala...Pemba...





terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

...andam tristes as acácias de Nampula...

Morte em Nampula

Por: MANUEL VILAS-BOAS

São menos agora os meninos da rua em Nampula. Das centenas que eram, não restam mais do que umas escassas dezenas. Para onde foram?

Andam tristes as acácias de Nampula. Não há porta ou janela que não tenha grades. As greves fazem ecoar o descontentamento dos trabalhadores. Há silêncios na cidade e bocas caladas... Já lá vai mais de uma década sobre o fim da guerra civil e resta um país empobrecido. As crianças, esses filhos de ninguém, encheram a cidade, de quase 400 mil habitantes, a transbordar pelos bairros populares, lugares de toda a miséria.

Mas são menos agora os meninos da rua em Nampula, revela-nos a polícia. Das centenas que eram, não restam mais do que umas escassas dezenas. Para onde foram estes meninos da rua, carne para todas as mesas, pergunta-se insistentemente na capital do Norte de Moçambique, assolada, há mais de meio ano, por denúncias de rapto e tráfico de menores, de desaparecimento e assassínio de pessoas, com corpos mutilados.

Na escola primária Parque Popular, com 700 alunos, na cidade, nada consta, oficialmente, sobre o rapto de crianças e tráfico de órgãos humanos, mas nas ruas desatam-se histórias, contadas ali mesmo por crianças e adultos.
E... de repente, Nampula toma lugar de destaque nos olhos do mundo. A 15 de Julho de 2003, corre pela cidade o caso do pequeno Félix Mário, de 9 anos. Há duas semanas que estava no bairro do Namicopo, sob custódia de Dionísio Armindo, de 17 anos, que se aprontava para o vender por oitenta milhões de meticais, cerca de 3200 euros. Só a ausência do casal sul-africano, a quem se destinava esta venda, impediu que o tráfico se concretizasse. As religiosas do mosteiro Mater Dei tomaram conhecimento do caso e apresentaram-no à polícia. Dionísio viria a ser condenado a sete anos de cadeia, a 5 de Março de 2004, por «crime de ocultação, troca e descaminho de menores de forma frustrada». O casal, Gary O’Connor, sul-africano, e Tanja Skytte, dinamarquesa, sobre quem recaem acusações graves de tráfico, permanecem em liberdade, sob termo de residência e identidade. Dedicam-se há quatro anos à exploração de um aviário e de um netcafé em Nampula.

Outros casos estranhos tinham acudido aos olhos e ouvidos das monjas do mosteiro, situado a 10 quilómetros da cidade, no termo do aeroporto, a confinar com a herdade do casal sul-africano. A 12 de Outubro de 2002, Samira apareceu morta, aos 12 anos, sem órgãos internos. Em Março e Julho de 2003 são descobertas sepulturas de uma mulher adulta e de uma jovem estudante, inundada em sangue. A 4 de Setembro, Mário Cintura, de 22 anos, foi interceptado por trabalhadores do casal africano. Na refrega, Mário perdeu a catana e o carvão que vendia para sustento da mulher e de dois filhos. Foi então atado pelas mãos, depois preso pelos pés com uma corda aos barrotes de uma dependência da quinta. O prisioneiro não tem dúvidas sobre as intenções dos sequestradores. «Eles queriam matar-me e tirar-me o que tenho na barriga.» Foi salvo pela chegada de estranhos ao local.
Estes e outros casos são denunciados por carta às autoridades moçambicanas, a 13 de Setembro de 2003, assinada pelo arcebispo de Nampula, D. Tomé Makhweliha, pelo padre Carlos Ferreira, reitor do seminário interdiocesano, pela irmã Juliana, superiora do mosteiro Mater Dei, e por Elilda dos Santos, leiga consagrada da arquidiocese de S. Paulo, no Brasil.

Provas dos factos denunciados foram pedidas à polícia e aos tribunais. Estão já no terreno novos investigadores, depois da apresentação do relatório preliminar dado como inconclusivo. Eduardo Julião Balane, director da temida PIC, a Polícia de Investigação Criminal, não tem ainda respostas, mas revela que, em Nacala, no ano 2000, foi presa uma quadrilha por ter assassinado três crianças, a quem extraíram os órgãos para práticas tradicionais.


A olhar criticamente a evolução da situação esteve sempre Arlindo Pinto, missionário comboniano português, há 13 anos em Nampula. Surpreendeu-o a intensidade dos casos na capital do medo. «Tudo devia ter sido mais célere, mas este é o país do medo, característica principal do povo macua.»

Após as denúncias, tomadas em coro pelo colectivo dos missionários em serviço em Moçambique, baixaram os raptos e o desaparecimento de pessoas na região de Nampula. Também as avionetas e os carros de vidros fumados se ausentaram dos alegados lugares do crime. O arcebispo, D. Tomé Makhweliha, rompeu, por fim, o silêncio, que se tinha imposto, limitado à assinatura de documentos. Esteve já no Maputo, reunido, ao mais alto nível, com os governantes de um país, com eleições presidenciais agendadas para este ano. O prelado reiterou o seu apoio a todas as denúncias que partiram da sua diocese.

Quando voltarão, então, a sorrir as acácias da cidade, envolta em montanhas de granito?
 in "Além Mar" - Abril de 2004

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A ILHA DA HUMANIDADE

Ilha de Moçambique: A Ilha da Humanidade


Declarada pela UNESCO «património da humanidade», a pequena ilha do Índico é um monumento vivo à tolerância e à convivência pacífica entre as mais diversas culturas e religiões. Harmonioso cadinho de raças, o recife coralífero de que houve nome Moçambique bem poderia servir de exemplo ao país e ao resto do continente.
Ao ultrapassar o pórtico – há operários a trabalhar lá em cima, nos andaimes, o que é uma agradável surpresa –, sente-se um calafrio. Deparamos com uma dupla escadaria, que do pátio de chão avermelhado conduz a um imponente palácio, enquanto ao nosso ouvido chegam sons de marimba: dois jovens, abrigados debaixo do pórtico, estão a percutir os seus instrumentos, como se estivessem a restituir à África o que da África foi desviado.
Estamos defronte do seiscentista Palácio de S. Paulo, coração político da ilha de Moçambique, transformado em sede do Governo local, depois de ter sido colégio dos jesuítas (não é de admirar, por isso, que tenha contígua uma capela com torre sineira). Era aqui e ao largo fronteiro, cujo calcetamento nos faz lembrar as ondas marinhas, que chegavam as personalidades importantes desembarcadas no ancoradoiro que entra pela baía, em direcção ao continente. Era aqui, no Palácio dos Capitães-Generais, que se decidiam as políticas – políticas comerciais, é claro.


O ouro e o marfim, depois os escravos, e sobretudo uma escala segura na rota do Oriente eram os motivos que conseguiam reter neste minúsculo território de pouco mais de três quilómetros de comprimento por 350/500 metros de largura algumas centenas de portugueses e asiáticos. Sem água potável, ontem como hoje. «Uma pequeníssima e insignificante ilha de Moçambique, conhecida pela inclemência do seu clima pestilento, pela aridez do solo e pela absoluta falta de água, pelos furiosos tufões...»: era com estas cores escuras que a pintava Frei Bartolomeu dos Mártires no século XVI.

O Palácio, o mais bem conservado da cidade, acolhe um museu com mobiliário e alfaias da época. Sobressai nele um púlpito, que é um digno exemplar do estilo indo-português.
Com o som das marimbas ainda a vibrarem nos nossos ouvidos, voltamos cá para fora. É preciso descer para sul, percorrer ruelas e pracetas carcomidas pela decadência em que se encontram, para encontrarmos de novo pessoas. No mercado do Celeiro, a poucos passos da grande mesquita pintada de verde, o bulício é constante. Da praia ali ao lado, chegam os fornecimentos de mercadorias. Estamos no começo da cidade dos macuti, onde vive a maioria dos habitantes, que se estende até à Ponta da ilha. A ruptura entre a «cidade de pedra e cal» e a «de macuti» (macuti é o nome da palha de palma utilizada pelos habitantes para fazer o tecto das casas) não podia ser mais abrupta. Entre as duas cidades há um desnível de dois/quatro metros. As pedras que serviram para construir a cidade colonial foram arrancadas no sector sul da ilha, onde pulularam depois os bairros populares. Que têm os nomes de Esteu, Litini, Makaripi, Marangonha, Muthakani...


Quando se fala na ilha de Moçambique, somos imediatamente levados a pensar em crisol de culturas, encontro de povos, encruzilhada de civilizações, harmonia de diversidades. «Qualquer ilha tem a sua magia, o seu encanto. E a ilha tem um exotismo, uma magia própria», admite com orgulho Helena Abel Ali Vieira, uma mulher que se diz «bem macua», mas que pretende ser também intercultural, pela história e por opção.


Mas sobre aquilo que ao visitante se apresenta como espaço de harmonia pesa uma herança de conflitos. «Os cristãos fazem coisas maravilhosas..., os missionários organizam o acolhimento para os estudantes, inclusive para os muçulmanos, vindos de fora para aqui estudarem», afirma um homem do lugar, muçulmano como quase todos os outros daqui. «Quando há fome, ajudam, vão à procura de alimentos... Quando se deu a vaga de refugiados vindos de Lunga, podiam contar com a ajuda da Cáritas...» Mas «a Igreja Católica permanece ainda como uma tradicional inimiga», não se cansava de repetir, em plena sessão da autarquia, na presença de um missionário, um outro velho muçulmano, embora tenha acrescentado imediatamente que a situação se podia agora considerar ultrapassada.


Infelizmente, as crónicas relatam um passado de dor. Como as de um jesuíta que, de passagem pela ilha no século XVI, descrevia uma terra habitada pela sede de marfim e de ouro, enquanto a comunidade muçulmana, aqui presente muito antes da chegada dos portugueses, sobrevivia com dificuldade. Um franciscano pensou mesmo em mandar demolir a mesquita. Os fiéis de Alá acharam que se havia passado das marcas e incendiaram todas as cruzes que encontraram, causando até estragos na fortaleza. Em 1575, o padre Francisco de Monclaro constatará que, do bairro muçulmano da Ponta, não restam senão ruínas.


 
E estes não foram episódios esporádicos. «A população portuguesa», segundo o historiador Alexandre Lobato, «organizou-se, no século XVI, em redor da Torre Velha (destruída pelos holandeses e que é agora o Palácio de S. Paulo, ndR) e da árabe ou moura no Celeiro. O fosso religioso que na época separava os habitantes obrigava-os a viver em bairros separados, cada qual com os seus templos.» Era, de resto, «um esquema que os portugueses traziam do reino, onde as comunidades minoritárias de judeus e mouros viviam fisicamente apartadas. Herdado da Espanha muçulmana e da reconquista cristã, era um modelo importado que os portugueses aplicaram na ilha de Moçambique, pela primeira vez no Oriente» (Manuel Lobato).

O centro do tráfico

Porém, não foram só os fanatismos religiosos que marcaram o passado de Muhipiti (é este o nome da ilha em macua, a língua local). Também a escravatura, a partir do século XVIII. As feitorias, as vistosas mansões com acesso directo ao mar estão ali para no-lo recordar. E no Norte de Moçambique o tráfico acabou mais tarde que noutras partes da África, entrando pelo século XX adentro (documentada até 1902, segundo René Pelissier na sua História de Moçambique, Lisboa 1994, e provavelmente praticada até 1914 pelos esclavagistas árabes e das Comores). Calcula-se que tenham saído pela costa moçambicana, ao longo de 150 anos, pelo menos 450 mil escravos. É certo que nem todos passaram pela ilha de Moçambique. Havia também os portos de Ibo, Inhambane, sobretudo Quelimane, e outros mais pequenos. Mas a ilha registava, sem dúvida, grandes concentrações. E aqui eram embarcados directamente os homens e as mulheres macuas capturados na Macuana, actual província de Nampula, pelos negreiros locais, quase todos da etnia yao.


Moçambique, de certo modo uma colónia estranha entre as demais colónias lusitanas, para onde os próprios portugueses não se sentiam atraídos a emigrar e que dava mais perdas que ganhos ao erário público, tinha no mercado de escravos a sua verdadeira, inconfessada, principal fonte de rendimentos. «O sector mais rendoso conhecia apenas uma mercadoria, o escravo, fosse qual fosse o nome que os exportadores lhe atribuíssem e o destino final. Nunca será de mais recordar que, substancialmente, provinha de Moçambique o povoamento negro das ilhas francesas da Reunião, Mayotte e Nossi-Bé e de uma faixa litoral do Madagáscar. E, durante certos períodos, teremos de acrescentar igualmente os Estados Unidos, o Brasil, as Antilhas espanholas, as Arábias, a Turquia, o Irão, o Transval e outros países de que nunca se ouviu falar.» A longa citação de Pélissier ainda acrescenta que, não obstante a abolição da escravatura decretada por Portugal e que deveria ter sido aplicada integralmente a partir de 1878, «em mais de 95 por cento de Moçambique, a jurisprudência de Lisboa não fazia qualquer mossa nos traficantes africanos».


Para completar o quadro, mais um pormenor: até meados de Oitocentos, a ilha estava interdita à população africana não escrava.

Arquitectura humana


É interessante um relance pelos arquivos, que nos dão notícia de recenseamentos por vezes detalhados. Assim, ficamos a saber que em 1882 a população de Muhipiti era constituída por seis famílias brancas, descendentes de portugueses ou militares; 120 portugueses, brancos ou assimilados; 650 mestiços; 500 árabes ou mouros; 800 cafres alforriados e cinco/seis mil escravos. Em 1859, o total da população havia descido para 4522 pessoas. Desta vez não se fala de «portugueses» ou de «brancos», mas de «cristãos»: são 69 do sexo masculino e 228 do feminino; os mouros são 221; os escravos 3265 (um terço deles mulheres).

Dêmos um pulo até 1940.

Já não encontramos escravos, naturalmente, mas uma cartesiana distinção entre nativos (7797) e imigrados (1425), na maioria portugueses (neles se incluindo, porém, indianos, mestiços, africanos, nitidamente divididos por espécie e número). Em 1968, a população terá descido para 8200 indivíduos: 1300 na cidade de pedra e cal, 6900 na cidade de palha.

Vinte anos mais tarde...
Vinte anos mais tarde acontece um fenómeno que modifica, de forma inédita, a composição da ilha. Sobretudo em 1988, a ponte que liga a ilha ao continente viu passar colunas e colunas de prófugos que fugiam da guerra. Muhipiti atingiu então o máximo de concentração antes do acordo de paz (1992), registando 14 mil habitantes. Uma parte dos deslocados regressará mais tarde às suas terras de livre vontade. Hoje haverá na ilha 12 mil pessoas, repartidas por 200 famílias: metade antigas, muitas das quais são designadas por swahili-macua, de cultura citadina; a outra metade resulta do recente afluxo de macuas vindos do continente, agricultores e pescadores, mas com uma cultura nitidamente rural.
E aqui começaram os problemas, confirmando o que Luís Filipe Pereira, exactamente em 1988, escrevia em Arquivo, boletim do Arquivo Histórico de Moçambique, a propósito das diferentes influências na arquitectura local: «A ilha é africana, a ilha é moçambicana. A sua originalidade consiste exactamente em ter sabido assimilar todas as influências do Oriente, da Europa e do oceano Índico, para se transformar, ela própria, numa expressão cultural. Os construtores moçambicanos, valorizando a sua própria experiência com inúmeros outros conhecimentos, souberam dar à tradicional massa de pedra e cal usada na África oriental um belo e original aspecto.»
Os trabalhos agora em curso são, desta vez, de arquitectura humana.


Por: PIER MARIA MAZZOLA, Missionário Comboniano

in: "ALÉM-MAR"

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

...REENCONTRO...

Espantosamente a vida por vezes surpreende-nos.

Fico-me a olhar para este nome num email que acabei de receber...
Quantos anos se passaram?! Quase 40, uma vida!! Sim, é verdade...
Invade-me uma tremenda nostalgia e o meu pensamento transporta-me para o inicio dos anos 70, quando nos conhecemos e depois, aquelas férias!!
Jamais as esquecerei
Eramos duas crianças que brincavam á sombra das palmeiras e corriam livremente na savana tropical.
Eramos tão felizes!!

No meio de todos os nossos amiguinhos, por vezes, era como se só existissemos nós os dois, mas
O destino...
O acaso...
A vida...
Sei lá!!
Separou-nos.
Tu, retornaste á tua vida na grande cidade. Eu, segui a minha...
Porém , nos anos seguintes, iamos sabendo um do outro, através de amigos comuns, e um dia...
Recebo uma cartinha tua, que eu considerei uma brincadeira pois era típico em ti, brincares com tudo, por isso não acreditei e nunca respondi...

Quando cheguei a Portugal, através de uma amiga comum, ainda tive noticias tuas pois, numa derradeira tentativa, pedias para te escrever e mais uma vez, não o fiz...

Porquê?
Não sei!!
Entretânto, perdi-te o rasto e foi aí que despertei...
Percebi que jamais tería outra oportunidade de te reencontrar.
Nos anos que se seguiram, e que foram tantos!!
Chamei-me mil vezes idiota por nunca te têr respondido, mas era demasiado tarde...

Perdida na minha nova vida onde tudo era diferente e desconhecido, vivi muito tempo das minhas recordações. Imaginava-te tão longe!!
Pensava que, com o tempo, eu deixaría de têr qualquer significado para ti e isso deixava-me tão triste!!
Mas algo me dizia que nunca me esquecerías...
Os anos foram passando e eu, tal como tu, segui a ordem natural da vida:
Continuei com os meus estudos, fiz novas amizades, tive o meu 1º emprego. Tive amores e desamores, venturas e desventuras, casei e tive o meu filho
Viajei um pouco e, numa dessas viagens, como por encanto
O destino...
O acaso...
A vida...
Sei lá!!
Fazem com que volte a saber de ti.
O que considerava irremediávelmente perdido, estava de volta...
Tinha o teu endereço electrónico na minha mão.
Escrevo?!
Não escrevo?!
Um verdadeiro dilema...
Já se tinham passado tantos anos!!
Resolvi arriscar pois o pior que podería acontecer, era nem sequer me responderes.
E então comecei assim:
" Se me lêres, saberás quem sou"
 E no dia seguinte, 31 anos depois de ter deixado de saber de ti, envias-me algo que me diz assim:

" Se me lêres, se calhar, já nem me reconheces"

Incrédula, maravilhada, mas ao mesmo tempo, apreensiva com o conteúdo do email, não queria lêr. Quería saborear lentamente aquela doce alegria de nos têrmos voltado a contactar. Mas a curiosidade foi mais forte e, evidentemente, acabei por lêr
Meu Deus!!
Não te reconhecia mesmo...
Quanto recentimento!
Quanta frieza!
Quanta indiferença!
Ainda assim respondi:
" Do menino que tu eras, parece que só tens o nome "
A volta do correio não se fêz esperada e, aos poucos, o gêlo foi derretendo...


Rápidamente, estavamos os dois de volta aos anos 70, a recordar as nossas brincadeiras naquele acampamento, a casa da "Gerência" que nos albergava, em forma de L. As tropelias que fazias para chamares a minha atenção. Aquela pomba branca, símbolo de algo que nos unia...
A vasta gama de filmes, com aquela câmara de 8 mm que viamos ao fim de semana. Da geleira sempre cheia e com aquela divisão na porta, onde continha sempre as vacinas para as mordeduras das cobras. Até esse pequeno pormenor me fizeste recordar...
Os fartos mata-bichos com bifes, bacon, salsichas, ovos e batatas fritas.
As caçadas nocturnas, de jipe, pelas planícies...
A vida farta e despreocupada que se vivia naquela época!!
Experiências de vida únicas, que só quem teve, sabe avaliar.
Foi tão bom reviver...
Sobretudo, recordar contigo.
E, tal como dizes:
Quando morrermos que ninguem tenha pena, pois vivemos momentos mágicos, inesquecíveis, extraordinários, pouco acessíveis á grande maioria das pessoas.

Agora que nos reencontramos, apesar da distância, apesar de nunca, nem telefonicamente, nos termos ouvido, apesar dos raros emails que presentemente trocamos, sabemos que


Algures
Existimos

E nos queremos bem

Isso é uma caracteristica especial, que a nossa amizade , mesmo que virtual, jamais perderá, já que resistiu ao tempo, ás intempéries da vida, á distância e irá perdurar enquanto existir-mos.
Disso, agora, tenho a certeza
E
É recíproco

Tambem gosto muito de ti


Termino como tu sempre terminas:

           "Até sempre"
         
                                                                                 
                                                 Maria Vieira

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

VOZ DA SELVA

Rondava o ano de 1968/69
Por imposição de trabalho da Serração Mecânica, com sede em Lourenço Marques, meu pai teve que mudar-se com armas e bagagem para um acampamento no meio do nada em plena selva Moçambicana.
Nós (eu, meu irmão e minha mãe), sem termos voto na matéria, tivemos que o acompanhar…
Hoje, recordando o passado, sou feliz e agradeço a meu pai, por ter vivido de perto e na primeira pessoa, acontecimentos tão enriquecedores que só aquela África que nós tanto amamos, nos proporcionou.
Escolhi esta historiazinha, porque é uma sequência de vários acontecimentos que se desenrolaram na mesma altura:
Se bem me lembro, chegamos ao Litane, numa manhã cinzenta e orvalhada pelo cacimbo da noite.
O cenário pareceu-me tão desolador que ainda hoje o comparo com um campo de guerra depois de uma batalha…
Uma clareira, a centenas de quilómetros da povoação mais próxima, onde havia sido desbravada alguma floresta para assim poderem instalar um acampamento. Nele constava uma serração de madeiras, que era o posto de trabalho do meu pai, uma pequena casinha de madeira, pintada de cinzento com o telhado de chapa galvanizada com uma enorme varanda, que seria a nossa casa, uma cantina que era onde os empregados se abasteciam de tudo o que precisavam, desde alguns alimentos, roupa, calçado, etc.
Nas zonas circundantes, por entre as árvores e extenso matagal que nos rodeava, viviam os negros, empregados da serração, que ali se deslocavam todos os dias para exercerem as suas funções e onde meu pai era o encarregado…
As noites silenciosas de África eram únicas, apenas interrompidas pelo coaxar das rãs e pelo pipilar das aves nocturnas.
Nós gostávamos de nos deitarmos nas esteiras no chão, tendo o céu estrelado como tecto e ouvíamos a VOZ DA SELVA, uma emissora Sul-africana, proibida, mas naquele fim de mundo, nada era proibido!
As noites mais animadas eram aquelas em que o meu pai ia à caça e nos levava, por vezes, só regressávamos de manhã, pois perdíamo-nos, já que os guias que levávamos embebedavam-se e esqueciam os caminhos…
No dia seguinte a uma caçada, havia sempre festa no acampamento, pois o meu pai distribuía a carne pelos empregados.
O acontecimento que mais me marcou naquele ano de 69 foi a morte do meu cão “Paulino”pois teve uma morte horrível e isso quase que nos atingiu fisicamente…mas passo a explicar:
Uma manhã, surgiu lá no acampamento um cão enorme com um comportamento muito estranho.
O Mafaiate (nosso empregado) quando se apercebeu foi logo chamar o “patrão” (meu pai), mas quando ele lá chegou já o dito cão tinha feito estragos irreparáveis:
Surgiu na minha frente, mas tentou atirar-se a minha mãe, que entretanto pegara numa vassoura, felizmente, para nós, o “Paulino”desviou a atenção do dito cão para ele e, azar do meu cãozinho, foi o escolhido para ser uma bola, debaixo das patas enormes daquela fera enraivecida.
Quando o meu pai chegou, já o dito cujo tinha abalado.
O “Paulino”estava todo mordido mas vivo, embora bastante combalido.
Meu pai tratou dele e quando melhorou, prendeu-o ao fundo da machamba, pois achava que o cão tinha sido contaminado, estava com raiva e ia morrer….
Fiquei chocadíssima!!!A machamba era cercada por tábuas muito altas, para proteger as hortas dos animais selvagens, que por onde passavam destruíam tudo.
Sempre que eu podia ia pelo lado de fora da machamba e espreitava por entre as tábuas para ver o meu bichinho, não via nada de anormal, apenas via tristeza nos olhos dele e achava que era por estar preso. Meu pai achando que se tinha enganado no prognóstico, resolveu soltá-lo passadas algumas semanas, já que ele aparentava estar muito bem, mas apesar de não nos fazer mal, ele atirava-se aos restantes cães, coisa que anteriormente não acontecia….
Voltou a ser preso e pouco depois teve vários ataques de fúria contra o Mafaiate, pois era ele que o tratava, deixou de comer e quando o fui espreitar pela ultima vez, olhou-me com ódio, ou talvez com loucura, sim…hoje acho que dos olhos dele emanava loucura!!
Com o cão morto, havia a incerteza se também estávamos contaminados pois brincávamos com ele…
Nessa mesma manhã com toda a urgência possível, meu pai mandou preparar o Land Rover e partimos rumo a Maoel, o acampamento mais próximo que de nós se encontrava…
Mas…e porque, todos os dias, tínhamos um camião que se deslocava de Maoel ao Litane a fim de transportar as madeiras que meu pai preparava na serração e que depois eram exportadas para a África do Sul, e que também, nos abastecia de tudo o que era necessário, o motorista e seu ajudante, já havia alguns dias que se queixavam que era complicado passar, pois andava um búfalo ferido que os esperava no caminho e por vezes os fazia perder muito tempo, uma vez que o búfalo era teimoso e não se desviava do trilho por onde a Izuzu tinha que passar.
Nessa manhã e temendo o encontro com o búfalo, meu pai que era um amante inveterado da caça grossa e como sempre fazia, quando nos deslocávamos para algum lado no mato, metemo-nos os quatro dentro da cabine do jipe e com uma arma de caça grossa ( carabina calibre 375) em cima das nossas pernas, que normalmente ia dentro do respectivo saco, mas daquela vez e por ter receio de não ter tempo, se o búfalo aparecesse até ia fora do saco e pronta a disparar…
E o inevitável aconteceu…na zona onde o motorista dizia que o búfalo aparecia, meu pai afrouxou a marcha do jipe e todos nós apurámos a visão na esperança de o vermos e a certa altura minha mãe diz:

-Estou a ver qualquer coisa a mexer junto daquela árvore,!!


Meu pai que, repentinamente, também se apercebeu, saiu porta fora do jipe mesmo com ele em marcha lenta e até se esqueceu de o parar, por sorte nossa, o trilho era tão fundo que o jipe acabou por parar sem sair da picada.
Meu pai mandou dois tiros para aquele vulto enorme por entre as árvores, esperou uns segundos e avançou mais um pouco com a arma em posição de fazer fogo novamente caso fosse preciso, mas perdeu de vista o tal vulto e temendo ir mais em frente e já que o nosso tempo urgia, voltou para junto de nós, pegou numa catana e foi dar umas catanadas na árvore onde o búfalo estivera encostado, para marcar o sitio, pois na nossa volta era propósito do meu pai procurar o bicho
Seguimos o nosso destino até Maoel onde chegamos já tarde avançada
Dirigimo-nos a casa do Sr. Gonçalves, a quem contamos o sucedido e depois de comermos algo partimos rumo a Manjacaze, onde se encontrava o hospital mais próximo.
Não recordo bem, mas tenho uma vaga ideia de que fomos logo atendidos com toda a urgência e começamos por levar uma injecção na barriga, cada um, e isso continuaria dos dias seguintes durante uma semana. Depois de medicados, meu pai resolve voltar para Maoel, onde esperávamos ir jantar e pernoitar, mas o jipe depois de algumas horas de caminhada resolve pregar uma partida e quedou-se num sítio onde não se via viva alma e ali tivémos que passar a noite os quatro dentro da cabine do jipe e por sorte, meu pai à saída do Litane disse para minha mãe pôr mantas no jipe pois nunca se sabia o que nos esperava e bom jeito nos fizeram…

Ao romper da madrugada, passaram uns franceses que pararam e nos ofereceram café e bolos, logo de seguida passou um padeiro que ia fazer a distribuição do pão, porque afinal de contas até nem estávamos muito longe da povoação Álvaro de Castro. Meu pai aproveitou a boleia do padeiro e foi ver se arranjava um mecânico para arranjar o jipe.
Passado algum tempo regressou com outro jipe que “chovou” o nosso até á oficina do mecânico e enquanto que se arranjava o jipe fomos almoçar a casa do administrador de Álvaro de Castro que por coincidência o meu pai já conhecia e que já não se viam havia muitos anos.
Depois do jipe arranjado, retornamos para Maoel, isto numa sexta-feira de tarde, onde jantámos e pernoitámos em casa do Sr. Gonçalves.
No sábado de manhã e depois de termos levado outra dose na barriga, regressámos ao Litane com as restantes injecções onde o enfermeiro de Maoel iria todos os dias dar-nos as que faltavam.
Quando de novo passamos no sítio onde o meu pai tinha dado os tiros ao búfalo, meu pai parou o jipe e inspeccionou o local, mas não se sentindo muito á vontade achou por bem continuar-mos para o Litane e então no Domingo manhã cedo reuniu uns quantos homens e munidos de catanas e alguns cães partiram ao encontro do dito búfalo.
Ao fim da manhã o meu pai estava de volta com o bicho e ainda quente pois tinha morrido naquela manhã.
Foi uma grande festa no acampamento, pois a carne foi toda distribuída pelos empregados da firma.
Esta, entre outras histórias, fizeram a história do meu percurso por aquela terra mágica que jamais esqueceremos e quem nasceu ou viveu e passou por situações idênticas, sabe bem do que falo…
Que todas as recordações da nossa África nos façam felizes pois tivemos um passado rico de experiências, nem todas boas é certo, mas vivemos um mundo de aventuras múltiplas, temos um passado digno de ser recordado, porque afinal,

Lá…

...VIVEMOS !!!

...e não apenas… PASSAMOS PELA VIDA!!!


A todos um bem-haja.



...DEDICO ESTA NARRATIVA AO MEU PAI
RECENTEMENTE FALECIDO...


                                    Maria Vieira

quinta-feira, 29 de julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

"Pensageiro Frequente" - Mia Couto

«Pensageiro Frequente»


Moçambique em versão de bolso
Texto: Sandra Gonçalves






Senhores passageiros, apertem o cinto. A viagem vai começar. Mia Couto está de volta com «Pensageiro Frequente» (Caminho), um livro que reúne 26 contos e crónicas que escreveu para a revista «Índico», das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM). São textos breves que convidam a conhecer um país caracterizado pelas suas gentes, cheiros, cultura e biodiversidade e onde são desmistificadas algumas das ideias que se tem deste imenso país que é Moçambique. Uma viagem de sonho em formato de quase bolso.
Mia Couto, tal como um piloto de cabine apaixonado, leva o «passageiro» a conhecer o seu país natal. Ao longo de 802 mil km², conduz-nos numa visita guiada pela Beira, Tete, Maputo (ex-Lourenço Marques) e os seu bairros como a Mafalala, a Malanga, o Xipamanine e Malhangalene, o Bilene e a sua praia – que descreve como a combinação perfeita entre um litoral aberto e de ondas directas e uma lagoa interior, de dinâmica tranquila e tranquilizante - , Gaza e Sofala, o Parque da Gorongosa, Nampula, Niassa, Manica, entre tantas outras paragens de Norte a Sul.

Descreve ainda Inhambane e o seu povo. Quem conhece Moçambique sabe do que Mia Couto fala. Pessoas que recebem bem, que escutam com simpatia, que têm tempo, gentileza e simpatia.


Quem visita aquele país acaba por «perder medos, barreiras e preconceitos» e dá por si a ver nascer a «verdadeira e única viagem: a que se faz por dentro das pessoas». Mia Couto fala com convicção e paixão do seu país e convence.


O autor, que além de escritor é biólogo, dá também especial enfoque à fauna e flora únicos deste país. Os golfinhos, baleias e tartarugas gigantes, dugongos – mamífero em vias de extinção que vive na costa moçambicana –, manguços de água (vungué, na língua local), macacos de cara preta (nzoko), e flamingos. Descreve também os extensos mangais, a floresta pantanosa, os infinitos canais e as palmeiras Nhala, de onde se extrai sura.


Nas suas crónicas, revisita ainda os seus tempos de meninice e como eram os dias de futebol na sua cidade-natal, a Beira. «No meu bairro, o futebol era a grande celebração. Preparava-mos para esse momento, como os crentes se vestem para o dia santo. Aquele domingo era um tempo infinito. E o campo, aberto num descampado da Muchatazina, era um estádio maior que o mundo», escreve Mia Couto no texto intitulado «Fintado por um verso», datado de Maio de 2010.


Mais à frente, num exercício de quase regressão hipnótica, descreve a sua cidade aos olhos de um menino de nove anos, numa altura em que esta lhe parecia a maior do mundo, com as avenidas mais largas do Universo. Percorre a estação ferroviária, o farol do Macúti e faz-nos salivar quando alude às mangas que ali se comiam.


Desmistifica ainda algumas das ideias que se tem de Moçambique, nomeadamente o facto de se dizer que Maputo é a cidade das acácias vermelhas, uma vez que estas belas árvores não são originárias do continente africano. E ainda que Maputo, nome indígena que foi dado à capital após a Independência, não satisfaz o rigor da História e da geografia. «Maputo é nome de água, de rio que desagua a sul da baía. Há quem diga que o mais certo seria chamar-se Pfumo ou KaMpfumo».


Na verdade, a cidade que passou de Lourenço Marques a Maputo, continua ainda hoje a ser chamado por grande parte dos seus habitantes de Xilunguine, «o lugar onde se vive como os brancos».


Ao fim de 133 páginas, Moçambique fervilha dentro de nós. Quem não conhece ficará com certeza com desejo de conhecer esta nação única. Quem já lá esteve, fica sôfrego por regressar brevemente.

terça-feira, 20 de julho de 2010

TRIBO MACUA...em Almeida...ano de 2010

…foram 3 dias de convívio…três dias comendo sempre juntos…passeámos juntos…dormimos no mesmo sitio…a alegria reinou…as velhas brincadeiras voltaram…o carinho entre macuas voltou a aparecer…a todos os Macuas o meu abraço reconhecido por estes momentos incríveis…alguns de nós reencontram-se ano a ano…mas apareceu o nosso Nando Metralha e a nossa Ana Maria Constantino que já não via desde à quase 4 décadas…apareceu o Orlando que era um menino…foram emoções enormes…a todos vós vai o meu obrigado…
...o João, a Dadita, o Tiago e o André ficam reconhecidos pelos dias maravilhosos que nos proporcionaram…

...Shalom, gente da minha Tribo…

                                                                      João Neves (Macua)